Solteiros como Tylo Laidlaw e Lisa Kimura relatam que hobbies como xadrez, DJ e artes têxteis enriquecem suas vidas mais que a busca por encontros em aplicativos. Psicólogos apontam que essa geração questiona modelos tradicionais e busca flexibilidade, experiências autênticas e atividades criativas além do trabalho convencional.
Solteiros trocam aplicativos de encontros por hobbies e vida mais plena
Minha vida é tão plena que sei que a pessoa certa vai aparecer
Por que você acha que os aplicativos de encontros perderam tanto apelo para essa geração?
Acho que as pessoas finalmente perceberam que deslizar perfis não é a mesma coisa que viver. Os aplicativos prometeram eficiência, mas entregaram esgotamento.
Mas não é mais fácil conhecer alguém através de um app do que esperando cruzar com a pessoa certa em uma aula de xadrez?
Talvez seja mais fácil em teoria. Na prática, você gasta energia em conversas que não levam a nada, e sua vida fica em suspenso enquanto você espera. Quando você investe em algo que realmente o preenche, a vida não fica em suspenso.
Então você está dizendo que as pessoas estão desistindo de relacionamentos?
Não. Estão desistindo de procurar desesperadamente. Há uma diferença. Quando sua vida é plena, você não sai com alguém porque está com medo de ficar sozinho. Você sai porque há uma conexão real.
E se essa tendência for apenas uma forma sofisticada de evitar intimidade?
É uma pergunta justa. Por isso os especialistas alertam: isso só é saudável se vier de um lugar de abundância, não de medo. Se você está fazendo caligrafia japonesa porque ama caligrafia, ótimo. Se está fazendo para não pensar em relacionamentos, aí há um problema.
Como você sabe a diferença?
Você sente. Se a atividade te enche de alegria e curiosidade genuína, é abundância. Se você está apenas preenchendo o tempo, é esquiva. E as pessoas sabem quando estão sendo honestas consigo mesmas.
Der Puls
- Tylo Laidlaw, 30 anos, diretor criativo em Londres, prioriza hobbies como salsa, xadrez e boxe
- Lisa Kimura, 31 anos, designer em Nova York, aprendeu DJ, genealogia e artes têxteis
- Publicações sobre 'side quest' no TikTok cresceram 210% nos EUA este ano
- Psicóloga Alexandra Solomon aponta que essa geração questiona o modelo capitalista tradicional
Solteiros como Tylo Laidlaw e Lisa Kimura relatam que hobbies como xadrez, DJ e artes têxteis enriquecem suas vidas mais que a busca por encontros em aplicativos. Psicólogos apontam que essa geração questiona modelos tradicionais e busca flexibilidade, experiências autênticas e atividades criativas além do trabalho convencional.
Crescente número de jovens solteiros está investindo tempo em hobbies e atividades criativas em vez de buscar relacionamentos amorosos, priorizando bem-estar pessoal e uma vida plena.
Na segunda-feira, Tylo Laidlaw sai do trabalho e vai direto para uma aula de salsa. Terça é dia de clube de xadrez. Quarta, boxe. E assim segue sua semana, preenchida com atividades que o mantêm ocupado e presente. Quando o assunto muda para encontros amorosos, sua resposta é direta: ultimamente, os hobbies ganham muito mais do seu tempo.
Depois que seu último relacionamento terminou em 2024, o diretor criativo freelancer de 30 anos, baseado em Londres, percebeu que havia caído numa rotina vazia. Tinha completado a faculdade, conseguido um emprego estável, economizado dinheiro — tudo conforme o script esperado. Mas algo faltava. Então começou a experimentar. O xadrez o conectou com novas pessoas e lhe ensinou sobre estratégia e responsabilidade. Cada atividade abriu portas que ele não teria atravessado de outra forma. Hoje, Laidlaw se sente uma pessoa inteira. "Minha vida é tão plena que sei que a pessoa certa vai aparecer", diz ele. "Mas não estou por aí procurando." Essa plenitude, ele acredita, é contagiante.
Laidlaw não está sozinho. Um número crescente de solteiros está fazendo uma escolha semelhante: trocar horas deslizando perfis em aplicativos de encontros por atividades que realmente os preenchem. Escalada, decoração de bolos, impressão em cianotipia — as paixões variam, mas o padrão é o mesmo. Suas agendas sociais ficam lotadas, seus círculos de amigos se expandem, e suas vidas ganham uma textura que não depende de um parceiro romântico.
Lisa Kimura, designer de experiência do usuário de 31 anos em Nova York, exemplifica essa transformação. Mudou-se para a cidade no início de 2023 esperando mergulhar na vida amorosa urbana. Mas sendo introvertida, descobriu que a experiência era esgotante. Crescida numa família tradicional de imigrantes onde o patriarcado era estrutural, ela percebeu algo importante: é difícil ouvir sua própria voz quando está envolvida romanticamente, especialmente perto de homens. Então investiu em hobbies. Aprendeu a ser DJ, inspirada pela cena musical de Bushwick que, segundo ela, precisava de mais mulheres. Fez um curso de genealogia e começou a montar sua árvore genealógica. Pratica caligrafia japonesa. Mas sua paixão mais duradoura são as artes têxteis. Cada atividade resulta em algo concreto — uma peça de roupa, um registro genealógico, uma obra de arte — e essa materialidade lhe dá uma sensação de realização que os encontros casuais nunca ofereceram. "Sinto que posso projetar meu futuro", diz ela. Quanto a relacionamentos, Kimura não está fechada para sempre. Simplesmente não sente mais pressa.
Psicólogos observam uma mudança geracional em andamento. Alexandra Solomon, psicóloga clínica e professora adjunta da Universidade Northwestern, nota que essa geração está questionando o modelo capitalista tradicional de trabalhar das nove às cinco. "Elas estão tentando criar vidas com mais flexibilidade e capacidade de adaptação que realmente valorizem experiências além de simplesmente ganhar dinheiro", diz ela. É uma geração desiludida com inteligência artificial, pouco inclinada a beber, e portanto mais atraída por atividades saudáveis, criativas e manuais. Na internet, termos como "hobbymaxxing" — a busca pelo maior número possível de hobbies — ganharam força. "Side quest", um termo dos videogames que descreve atividades paralelas que acrescentam encantamento à vida cotidiana, explodiu em popularidade. No TikTok, publicações nos Estados Unidos usando o termo cresceram mais de 210% este ano comparado ao mesmo período do ano anterior.
Amy Chan, consultora de relacionamentos, vê a frustração subjacente. "As pessoas estão cansadas de sair em encontros. Estão tão decepcionadas com os aplicativos que algumas simplesmente não estão saindo com ninguém", diz ela. Para clientes que tendem a perder sua identidade nos relacionamentos, Chan recomenda exatamente o oposto do que a cultura de encontros propõe: construir primeiro uma vida pessoal rica. "A ideia é construir uma vida plena para que você não aja movido pela sensação de escassez nem saia com alguém como se estivesse morrendo de fome", explica. Essa independência, ela acredita, cria um efeito positivo em cadeia quando essas pessoas eventualmente voltam a buscar relacionamentos.
Solomon concorda que há uma "correção coletiva de rumo em relação aos aplicativos de relacionamento, que foram o centro da vida amorosa nos últimos dez anos". A solução, segundo ela, é investir em experiências no mundo real. Mas há uma ressalva importante: isso só é saudável se não vier de esquiva emocional ou retraimento. "Colocar-se no mundo, ao lado de pessoas de verdade e envolvido em projetos artísticos, iniciativas criativas ou atividades comunitárias reais é uma adaptação muito saudável", diz ela. E há um bônus inesperado: essas atividades podem até gerar novas possibilidades românticas com pessoas que compartilham os mesmos interesses.
Bemerkenswerte Zitate
Estou muito bem onde estou, e essa energia se torna contagiante— Tylo Laidlaw, diretor criativo
Percebi que é muito difícil ouvir minha voz interior quando estou em um relacionamento— Lisa Kimura, designer de experiência do usuário
As pessoas estão cansadas de sair em encontros. Estão tão decepcionadas com os aplicativos que algumas simplesmente não estão saindo com ninguém— Amy Chan, consultora de relacionamentos