José Sócrates regressou ao banco dos arguidos da Operação Marquês carregando o peso de um processo que se arrasta há anos, procurando reescrever a narrativa sobre um apartamento parisiense e um comboio que nunca chegou a partir. Entre referências a George Clooney e críticas ao legado de Passos Coelho, o ex-primeiro-ministro revelou tanto pela forma como pelo conteúdo das suas declarações — um homem que ainda governa o ritmo da sala, mesmo quando já não governa o país. O julgamento continua a expor as tensões entre a memória do poder e as exigências da justiça.
Sócrates cita Clooney, critica Passos e elogia Montenegro em dia de poucas perguntas do MP
Só sou poupado à melancolia por este tribunal
Como é que Sócrates consegue dominar tanto o ritmo de uma sessão de julgamento onde supostamente está a ser interrogado?
Porque as suas declarações são praticamente sem contraditório. Na sessão anterior falou quatro horas e meia com poucas interrupções, e nesta terça-feira o MP fez apenas 30 minutos de perguntas. A juíza intervém muito, mas muitas vezes para o avisar sobre redundâncias, não para o questionar sobre os factos.
Mas isso não é estranho? Num julgamento de um ex-primeiro-ministro acusado de corrupção, o Ministério Público faz 30 minutos de perguntas em todo um dia?
É verdade. E há ainda a questão da tensão entre a juíza e o procurador Rómulo Mateus sobre a relevância das perguntas. A juíza está a controlar muito o que pode ser perguntado.
E quanto às explicações dele sobre o apartamento de Paris? Parecem convincentes?
Sócrates insiste que era apenas um "inquilino" e não o proprietário real, apesar das escutas mostrarem um tom muito autoritário com Carlos Santos Silva. Ele reconhece ter "tiques de arrogância" mas nega que isso signifique controlo da propriedade.
Mas as escutas mostram um "quase ascendente" sobre Santos Silva, segundo a própria juíza. E ele nunca explica realmente por que é que a sua família estava num aparthotel enquanto as obras se prolongavam. Diz que era incómodo para a família de Santos Silva, mas não desenvolve.
E o TGV? Ele consegue afastar as acusações?
Argumenta que o grupo Lena perdia dinheiro mesmo com a indemnização de 149 milhões. E culpa Passos Coelho por ter desorçamentado o projeto, impedindo que chegasse ao visto do Tribunal de Contas.
Mas o Tribunal de Contas não chumbou apenas por questões orçamentais. Havia irregularidades no contrato — alterações após adjudicação, classificações inconsistentes. E tudo isto aconteceu em 2012, quando Portugal estava sob troika. Sócrates não menciona nada disto.
Porque é que ele elogia Montenegro?
Porque Montenegro recuperou projetos da governação de Sócrates — o aeroporto, o TGV, a terceira travessia do Tejo. Sócrates diz que o PS não podia fazê-lo porque eram projetos seus, mas este governo de direita conseguiu.
Isso é uma estratégia inteligente — associar-se ao sucesso de projetos atuais. Mas não muda o que está em julgamento aqui.
E a questão da representação legal? Parece ser um problema real para ele.
Sim, Sócrates recusa o defensor oficioso Luís Carlos Esteves e quer que Filipe Baptista o represente. Mas a juíza recusou dar dez dias de preparação, e ele descreve isto como "uma violência nunca vista".
A questão é: tem razão? A lei permite que o tribunal recuse condições prévias à formalização de uma procuração? Ou é realmente uma violação do direito de defesa efetiva? Não sabemos ao certo, mas a tensão entre o tribunal e Sócrates é evidente.
Le Pouls
- Sócrates chegou ao tribunal com explicações elaboradas sobre o apartamento de Paris, insistindo ser apenas 'inquilino' de um imóvel cujas obras ele próprio parecia comandar nas escutas.
- O ex-PM rejeitou a tese de que teria sabotado o TGV para beneficiar o consórcio Elos, atribuindo o chumbo do projeto à 'desorçamentação' imposta pelo governo Passos Coelho — omitindo irregularidades identificadas pelo Tribunal de Contas.
- A tensão com a juíza Susana Seca escalou quando Sócrates recusou aceitar os 'ditames' da magistrada sobre a sua representação legal, descrevendo a situação como 'uma violência nunca vista'.
- O Ministério Público limitou-se a 30 minutos de perguntas, num confronto breve e contido que deixou muitas linhas de acusação por explorar.
- Entre o drama processual, Sócrates invocou George Clooney e a melancolia dos 65 anos, dizendo ser 'poupado à melancolia' apenas pelo próprio tribunal — e condenando Portugal a apanhar o TGV em Badajoz.
José Sócrates regressou ao banco dos arguidos da Operação Marquês carregando o peso de um processo que se arrasta há anos, procurando reescrever a narrativa sobre um apartamento parisiense e um comboio que nunca chegou a partir. Entre referências a George Clooney e críticas ao legado de Passos Coelho, o ex-primeiro-ministro revelou tanto pela forma como pelo conteúdo das suas declarações — um homem que ainda governa o ritmo da sala, mesmo quando já não governa o país. O julgamento continua a expor as tensões entre a memória do poder e as exigências da justiça.
José Sócrates voltou ao tribunal na terça-feira para mais uma sessão do julgamento da Operação Marquês, dominando o ritmo das declarações apesar dos avisos repetidos da juíza-presidente Susana Seca para evitar redundâncias. O ex-primeiro-ministro enfrentou dois temas centrais: o apartamento de Paris e o contrato do TGV.
Sobre as escutas que o mostram a dar ordens relativas às obras na Avenue Président Wilson, Sócrates insistiu que era tratado como 'inquilino' e não como proprietário real, reconhecendo ter 'tiques de arrogância' na forma como falava com Carlos Santos Silva, mas negando que isso implicasse controlo sobre o imóvel. As explicações deixaram muitos detalhes por clarificar.
Quanto ao TGV, rejeitou categoricamente a acusação de ter procurado o chumbo do Tribunal de Contas para beneficiar o consórcio Elos. Argumentou que o grupo Lena perdia dinheiro mesmo com a indemnização arbitral de 149 milhões de euros, e atribuiu o abandono do projeto ao governo de Passos Coelho, que o teria 'desorçamentado' em novembro de 2011. Não referiu, porém, as irregularidades contratuais identificadas pelo Tribunal de Contas para além da questão orçamental.
Sócrates aproveitou para elogiar, surpreendentemente, o governo atual de Luís Montenegro pela retoma de projetos como o aeroporto e o TGV Lisboa-Madrid, afirmando que o PS não os podia recuperar por serem 'projetos seus'. Num momento mais descontraído, citou George Clooney e a melancolia dos 65 anos, concluindo que Portugal está 'condenado a apanhar o TGV para Madrid em Badajoz'.
A sessão foi também marcada por tensão sobre a representação legal do arguido. Sócrates insurgiu-se contra a recusa da juíza em anular os atos do defensor oficioso, descrevendo a situação como 'uma violência nunca vista'. O Ministério Público fez apenas 30 minutos de perguntas, num confronto breve que deixou muitas linhas por explorar. O julgamento continua na quarta-feira.
José Sócrates voltou ao tribunal na terça-feira para continuar as suas declarações no julgamento da Operação Marquês, um regresso que se revelou marcado por explicações intrincadas sobre o apartamento de Paris, críticas ao governo anterior e uma certa melancolia expressa através de uma referência inesperada ao ator George Clooney. O ex-primeiro-ministro dominou o ritmo da sessão, apesar dos avisos repetidos da juíza-presidente Susana Seca sobre redundâncias nas suas intervenções e a necessidade de se cingir aos factos em questão.
Sobre as escutas que o mostram a dar ordens a Carlos Santos Silva acerca das obras no apartamento da Avenue Président Wilson, em Paris, Sócrates envolveu-se em explicações rebuscadas para negar que fosse o verdadeiro proprietário do imóvel. Insistiu que era tratado como "inquilino" e não como dono, citando uma conversa de 8 de novembro de 2013 entre Santos Silva e o advogado Gonçalo Trindade Ferreira em que se falava dele nestes termos. Reconheceu ter "tiques de arrogância" na forma como se dirigia ao empresário amigo, mas argumentou que isso não significava que controlasse a propriedade. Sobre a situação em que a sua família estava alojada num aparthotel enquanto as obras se prolongavam, Sócrates alegou que o verdadeiro problema era o incómodo causado à família de Santos Silva, que queria o apartamento desocupado — uma explicação que deixou muitos detalhes por clarificar.
No que respeita ao contrato do TGV, Sócrates rejeitou categoricamente a tese da acusação de que teria procurado o chumbo do Tribunal de Contas para que o consórcio Elos fosse indemnizado. Argumentou que o grupo Lena, que integrava o consórcio, perdia dinheiro mesmo com a indemnização de 149 milhões de euros determinada em tribunal arbitral. Atribuiu o chumbo do projeto ao governo de Pedro Passos Coelho, que, segundo ele, abandonou o projeto em novembro de 2011 e o desorçamentou, impedindo que chegasse ao visto do Tribunal de Contas com a devida cabimentação orçamental. Não mencionou, porém, que o chumbo ocorreu em 2012 quando Portugal estava sob assistência financeira da troika, nem que o Tribunal de Contas tinha identificado irregularidades no contrato para além da questão orçamental, incluindo alterações à proposta após a adjudicação e classificações inconsistentes do consórcio entre fases do concurso.
Sócrates aproveitou para criticar duramente a visão de Passos Coelho sobre investimento público, descrevendo-a como excessivamente avessa ao risco e improdutiva. Estendeu essa crítica à Europa, argumentando que o continente cometeu um erro ao não adotar uma política expansionista como os Estados Unidos após 2008, demorando sete anos até que o Banco Central Europeu aprovasse o quantitative easing em 2015. Surpreendentemente, o ex-primeiro-ministro elogiou o governo atual de Luís Montenegro pela recuperação de projetos emblemáticos da sua governação — o aeroporto, o TGV Lisboa-Madrid e a terceira travessia do Tejo — afirmando que o governo do PS não podia fazê-lo porque eram projetos seus.
Num momento de maior descontração, Sócrates referiu os seus heróis de juventude — Robert Redford e Paul Newman — e o seu herói atual, George Clooney. Citou uma entrevista em que Clooney mencionava ter 65 anos e sentir melancolia por tudo à sua volta. "É tão bom envelhecer ao mesmo tempo do George Clooney, eu já tenho um pouco mais de 65 anos… Só sou poupado à melancolia por este tribunal", disse, acrescentando uma crítica ao país: "Este é um país que está condenado a apanhar o TGV para Madrid em Badajoz".
A sessão foi também marcada por tensão entre Sócrates e a juíza Susana Seca sobre a questão da sua representação legal. O ex-primeiro-ministro insurgiu-se contra um despacho recente da juíza que recusou anular os atos do defensor oficioso Luís Carlos Esteves, afirmando que não se renderia aos "ditames" da magistrada. Criticou a recusa de conceder dez dias de preparação ao advogado Filipe Baptista, a quem tinha passado procuração, descrevendo a situação como "uma violência nunca vista" e "um abuso além daquilo que já se passou neste processo". Insistiu que o tribunal tinha o dever de garantir a sua defesa efetiva e que a juíza não demonstrava essa preocupação.
Quando chegou o momento das perguntas do Ministério Público, apenas Rómulo Mateus, um dos quatro procuradores presentes, assumiu a tarefa de confrontar Sócrates com elementos da acusação. A fase de perguntas e respostas durou cerca de 30 minutos, muito breve para os temas em questão. O MP procurou vincular o contrato feito entre a Lena e a Venezuela durante a governação de Sócrates a um favorecimento do grupo empresarial, apontando para a entrada de "muito dinheiro". Sócrates respondeu que se tratava apenas de um adiantamento e que o contrato era ruinoso para a Lena, que teria de devolver o dinheiro se não tivesse havido uma revisão posterior. A juíza foi especialmente interventiva, questionando a relevância das perguntas para o objeto do processo, criando um clima de tensão que se manifestou já de manhã durante a inquirição de uma testemunha anterior.
Sócrates regressará ao tribunal na quarta-feira à tarde para continuar as suas declarações, com a questão da sua defesa efetiva e a dinâmica entre o tribunal e o arguido principal a permanecerem como temas centrais do processo.
Citations marquantes
Se julga que me vou render aos seus ditames está muito enganada, senhora juíza— José Sócrates, dirigindo-se à juíza Susana Seca
O grande mérito do atual governo foi recuperar os projetos do Sócrates— José Sócrates, sobre o governo de Luís Montenegro