Sociedades médicas pedem proibição total de 'chips da beleza' à Anvisa

Pacientes relatam complicações graves, internações e alterações corporais permanentes após implantes, com impossibilidade de interrupção imediata do tratamento.
O hormônio continua sendo liberado no corpo. Em alguns casos, nem a retirada é possível.
Endocrinologista descreve o dilema de pacientes com implantes que não podem ser removidos completamente.
Mark

Por que essas organizações médicas estão pedindo uma proibição total agora, se a Anvisa já tinha regras em vigor desde 2024?

Mimi

Porque as regras não funcionaram. A agência proibiu o uso para fins estéticos e ganho muscular, mas permitiu a manipulação para "outras finalidades terapêuticas". Médicos começaram a prescrever os mesmos implantes como tratamento para menopausa, endometriose e síndrome dos ovários policísticos — indicações que não têm evidência científica robusta. A brecha abriu de novo.

Luke

Mas espera — a Anvisa tem autoridade para proibir completamente a manipulação individualizada? Ou isso entra em conflito com o direito de médicos prescreverem medicamentos manipulados para casos específicos?

Mimi

Ótima pergunta. As entidades argumentam que "prescrição individualizada não significa experimentação sem evidência e segurança". Eles querem que a Anvisa estabeleça que esses implantes específicos — sem estudos de qualidade — não podem ser manipulados para nenhuma finalidade, nem mesmo terapêutica.

Mark

E quanto aos pacientes que já têm esses implantes? O que acontece com eles?

Mimi

Esse é o problema mais grave. Os implantes não podem ser retirados completamente em muitos casos. Se uma paciente tem uma reação adversa, o hormônio continua sendo liberado no corpo. Um endocrinologista relatou que atende pacientes internadas que nem sabem exatamente o que foi implantado.

Luke

Mas o artigo diz que "nem sempre podem ser retirados completamente". Isso significa que às vezes podem? Qual é a taxa de remoção bem-sucedida? Qual é a taxa de complicações?

Mimi

O artigo não fornece esses números. Sabemos que há complicações graves, mas não temos dados sobre frequência ou severidade.

Mark

E os médicos que prescrevem esses implantes — eles sabem que não há evidência científica?

Mimi

Alguns provavelmente sabem. A investigação do g1 mostrou que médicos oferecem cursos sobre como usar os produtos e mantêm vínculos comerciais com farmácias. Há claramente um modelo comercial estruturado.

Luke

Mas o artigo não traz depoimentos de médicos prescritores explicando sua lógica. Sabemos o que as sociedades médicas dizem, mas não ouvimos o outro lado.

Mark

Qual é o tamanho desse mercado? Quantas pessoas estão usando esses implantes?

Mimi

O artigo não diz. Sabemos que implantes custam cerca de R$ 200 e são revendidos por R$ 4 mil a R$ 12 mil, mas não há estimativa de quantas pessoas foram afetadas.

Luke

Isso é um vazio importante. Sem saber a escala, é difícil avaliar o impacto real dessa prática.

  • Implantes hormonais manipulados são vendidos por até R$ 12 mil apesar de custarem cerca de R$ 200, sustentando um mercado lucrativo que opera à margem da regulação científica.
  • Pacientes relatam complicações graves, internações e alterações corporais permanentes — e, em muitos casos, nem a retirada cirúrgica do implante é possível para interromper a exposição hormonal.
  • A Anvisa já tentou proibir esses produtos em outubro de 2024, mas recuou após pressão de médicos, clínicas e farmácias, criando brechas que permitem a continuidade do mercado sob outras justificativas terapêuticas.
  • Doze entidades médicas internacionais se uniram na Carta do Rio de Janeiro para renovar a pressão regulatória, exigindo proibição total, fiscalização rigorosa e responsabilização de toda a cadeia comercial.
  • A decisão que a Anvisa tomar agora pode encerrar — ou consolidar — um modelo de negócio que explora indicações não comprovadas como menopausa, emagrecimento e ganho muscular.

No início de outubro de 2026, durante o 20º Congresso Mundial de Menopausa no Rio de Janeiro, doze sociedades médicas internacionais entregaram à Anvisa a Carta do Rio de Janeiro, pedindo a proibição total dos implantes hormonais manipulados conhecidos como 'chips da beleza'. O apelo revela uma tensão antiga entre o avanço comercial e a cautela científica: produtos sem estudos clínicos robustos são inseridos sob a pele de pacientes por valores de até R$ 12 mil, liberando hormônios por meses sem possibilidade de interrupção imediata. A decisão da agência reguladora — que já recuou de uma proibição total em 2024 — pode definir se o Brasil fecha ou perpetua um mercado construído sobre brechas e promessas sem respaldo.

Durante o 20º Congresso Mundial de Menopausa, realizado no Rio de Janeiro no início de outubro de 2026, doze organizações médicas e científicas — incluindo a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e a Sociedade Internacional da Menopausa — entregaram à Anvisa a Carta do Rio de Janeiro. O documento pede a proibição total dos implantes hormonais manipulados, os chamados 'chips da beleza', alertando que esses produtos não passaram por estudos clínicos que comprovem segurança ou eficácia.

O mercado em questão é altamente lucrativo: implantes adquiridos por cerca de R$ 200 são revendidos a pacientes por valores entre R$ 4 mil e R$ 12 mil. Uma investigação anterior havia revelado como médicos prescrevem os produtos, ministram cursos sobre seu uso e mantêm vínculos comerciais com farmácias de manipulação. As indicações prometidas — alívio da menopausa, aumento da libido, emagrecimento, ganho muscular — carecem de respaldo científico robusto.

O histórico regulatório é marcado por avanços e recuos. Em outubro de 2024, a Anvisa suspendeu totalmente esses implantes, mas voltou atrás um mês depois após recursos de médicos e clínicas. A proibição parcial que restou deixou brechas: implantes com ação anabolizante continuaram sendo oferecidos como tratamento para menopausa, endometriose e síndrome dos ovários policísticos.

O risco central está na irreversibilidade. Inseridos sob a pele, os implantes liberam hormônios por meses. Ao contrário de comprimidos ou géis, não permitem ajuste de dose nem interrupção imediata. O endocrinologista Clayton Macedo, da Universidade Federal de São Paulo, relatou atender pacientes internadas que desconheciam o que havia sido implantado — e para quem nem a retirada era possível.

Os riscos documentados incluem complicações cardiovasculares, hepáticas, trombose e AVC. A gestrinona, presente em alguns implantes, pode causar acne, queda de cabelo, alterações da voz e mudanças corporais permanentes. As entidades deixam claro que não se opõem à terapia hormonal em geral — existem medicamentos registrados, estudados e ajustáveis — mas pedem que formulações manipuladas sem avaliação equivalente sejam proibidas. A Anvisa agora enfrenta pressão renovada, e sua próxima decisão pode determinar o futuro desse mercado.

Doze organizações médicas e científicas — entre elas a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia e a Sociedade Internacional da Menopausa — entregaram à Agência Nacional de Vigilância Sanitária um pedido direto: proibição total dos implantes hormonais manipulados conhecidos como "chips da beleza". O documento, chamado Carta do Rio de Janeiro, foi divulgado durante o 20º Congresso Mundial de Menopausa na capital fluminense no início de outubro de 2026. A solicitação vem acompanhada de um alerta claro: esses produtos não passaram por estudos clínicos de qualidade que comprovem seus benefícios ou garantam segurança.

O mercado que essas entidades querem encerrar é robusto e lucrativo. Implantes comprados por aproximadamente R$ 200 são revendidos às pacientes por valores entre R$ 4 mil e R$ 12 mil. Uma investigação publicada pela reportagem em maio daquele ano havia exposto como médicos prescrevem os produtos, oferecem cursos sobre sua utilização e mantêm vínculos comerciais com farmácias de manipulação. O modelo comercial envolve produção em escala, formação de estoques, treinamento de prescritores e divulgação agressiva nas redes sociais. Os implantes são frequentemente vendidos como solução para sintomas da menopausa, alterações na libido, emagrecimento e ganho muscular — indicações que carecem de respaldo científico robusto.

A história regulatória desses produtos é um exercício em recuos e concessões. Em outubro de 2024, a Anvisa havia determinado a suspensão total da manipulação, comercialização, propaganda e uso de todos os implantes hormonais manipulados. Mas após uma série de recursos administrativos apresentados por médicos, clínicas e farmácias, a agência voltou atrás um mês depois. No lugar da proibição total, estabeleceu regras mais restritivas. Desde então, permanece proibida a comercialização e o uso de implantes hormonais manipulados à base de esteroides anabolizantes ou hormônios androgênicos para fins estéticos, ganho de massa muscular e melhora do desempenho esportivo. Mas a manipulação continua permitida em condições específicas para outras finalidades terapêuticas — uma brecha que abriu espaço para que implantes com ação anabolizante continuassem sendo oferecidos como tratamento para menopausa, endometriose e síndrome dos ovários policísticos.

O problema central está na própria forma de administração. Inseridos sob a pele, os implantes liberam hormônios durante meses. Diferentemente de comprimidos ou géis, que permitem ajustes na dose ou interrupção do uso, os implantes nem sempre podem ser retirados completamente. Se uma paciente apresenta uma reação adversa ou é exposta a concentrações hormonais excessivas, pode não ser possível interromper imediatamente o tratamento. Clayton Macedo, endocrinologista doutor pela Universidade Federal de São Paulo, relatou em entrevista que atende pacientes com complicações graves após o uso desses produtos. "Muitas dessas pacientes chegam internadas e não sabem exatamente o que foi implantado. E, diferentemente de outros tratamentos, não dá para simplesmente suspender — o hormônio continua sendo liberado no corpo. Em alguns casos, nem a retirada é possível", afirmou.

Os riscos documentados são extensos. As entidades alertam para a ausência de estudos que comprovem a qualidade farmacêutica, a estabilidade, a esterilidade e a velocidade de liberação hormonal desses produtos. Permanecem sem respostas questões sobre a segurança a longo prazo, incluindo riscos cardiovasculares, hepáticos, trombose, acidente vascular cerebral e possíveis consequências para as mamas e o endométrio. A gestrinona, um esteroide sintético presente em alguns implantes, pode provocar acne, crescimento excessivo de pelos, queda de cabelo, alterações da voz e aumento do clitóris. Algumas dessas alterações podem persistir mesmo após a interrupção do tratamento.

As sociedades médicas ressaltam que seu pedido não representa uma oposição à terapia hormonal em geral. Existem medicamentos registrados e estudados, disponíveis em comprimidos, géis, adesivos e formulações vaginais, que permitem ajustar as doses e interromper o tratamento quando necessário. No caso da testosterona, a única indicação para mulheres respaldada por consensos internacionais é o tratamento do transtorno do desejo sexual hipoativo na pós-menopausa, após avaliação clínica cuidadosa e com doses que mantenham os níveis hormonais dentro da faixa fisiológica feminina. Não há evidências que justifiquem seu uso para emagrecimento, ganho muscular, aumento da energia ou longevidade. O pedido também não abrange os implantes contraceptivos registrados na Anvisa, como o de etonogestrel.

O objetivo é proibir especificamente as formulações hormonais manipuladas na forma de implantes que não passaram pela mesma avaliação de segurança e eficácia exigida dos medicamentos registrados. As entidades querem que a proibição seja acompanhada de fiscalização mais rigorosa, fortalecimento da notificação de efeitos adversos e responsabilização dos envolvidos na cadeia comercial. A Anvisa agora enfrenta pressão regulatória renovada após seu recuo de 2024, e a decisão que vier pode determinar se esse mercado ilegal — que explora brechas para indicações terapêuticas não comprovadas — finalmente encerra.

Muitas dessas pacientes chegam internadas e não sabem exatamente o que foi implantado. E, diferentemente de outros tratamentos, não dá para simplesmente suspender — o hormônio continua sendo liberado no corpo.
— Clayton Macedo, endocrinologista pela Unifesp
Prescrição individualizada não significa experimentação sem evidência e segurança
— Sociedades médicas, na Carta do Rio de Janeiro
Möchten Sie die ganze Geschichte? Das Original lesen bei G1 ↗
Kontakt FAQ