Sociedades médicas cobram Anvisa por ação contra implantes hormonais não regulados

Casos de infarto agudo do miocárdio, tromboembolismo, acidente vascular cerebral e edema cerebral têm sido registrados em usuários de implantes hormonais.
Não existe dose, tampouco acompanhamento que garanta segurança
Alerta de sociedades médicas sobre os riscos dos implantes hormonais não regulados.
Mark

Por que essas sociedades médicas estão pedindo ação agora, se a Anvisa já proibiu propaganda da gestrinona em 2021?

Mimi

Porque a proibição de propaganda não impediu que os chips continuassem sendo produzidos e prescritos. O uso está crescendo, não diminuindo. A brecha legal das farmácias de manipulação permite que continuem sendo fabricados legalmente.

Luke

Mas como sabemos que o uso está crescendo? O texto diz que há "aumento gradativo", mas não apresenta números. Quantos chips estão sendo implantados por ano? Não temos esse dado.

Mark

E por que é tão difícil banir esses implantes se eles causam infarto e acidente vascular cerebral?

Mimi

Porque tecnicamente não são ilegais. A lei permite que farmácias de manipulação produzam medicamentos customizados sem regulação prévia. É uma lacuna que ninguém fechou.

Luke

Certo, mas o Conselho Federal de Medicina já proibiu médicos de prescrever esteroides para fins estéticos. Então existe uma proibição. A questão é se está sendo fiscalizada.

Mark

Qual é o risco mais grave que essas sociedades estão alertando?

Mimi

Não há dose segura. Cada chip é feito de forma diferente, em composições variadas. Ninguém consegue prever os efeitos colaterais. Temos casos de infarto, tromboembolismo, acidente vascular cerebral e até edema cerebral.

Luke

O caso do edema cerebral é documentado? Sim, uma jovem de vinte anos. Mas quantos outros casos existem? Não sabemos. Temos apenas exemplos, não uma contagem sistemática.

Mark

O que a Anvisa deveria fazer?

Mimi

As sociedades médicas pedem "medidas mais eficazes na fiscalização e regulamentação". Mas o documento não especifica exatamente o quê. Poderia ser proibição total, poderia ser regulamentação mais rigorosa.

Luke

Exatamente. A carta pede ação, mas não deixa claro qual ação. E a Anvisa ainda não respondeu. Então estamos em um ponto de espera.

Mark

Quem está ganhando dinheiro com isso?

Mimi

Médicos que prescrevem, farmácias que produzem, e provavelmente distribuidores. As sociedades mencionam "parcerias comissionadas" e "venda direta", sugerindo que há incentivos financeiros para prescrever.

Luke

Mas não temos nomes de médicos, clínicas ou farmácias específicas. Não sabemos a escala do negócio. Isso seria importante para entender a dimensão do problema.

  • Sete entidades médicas de peso — de endocrinologistas a ginecologistas — uniram-se numa carta urgente à Anvisa, sinalizando que o problema ultrapassou os limites do que a autorregulação profissional consegue conter.
  • Os implantes hormonais são fabricados legalmente por farmácias de manipulação graças a uma brecha da Lei das Farmácias Magistrais de 2014, tornando a fiscalização um labirinto jurídico sem saída fácil.
  • Os riscos não são abstratos: infarto agudo do miocárdio, tromboembolismo, acidente vascular cerebral e, mais recentemente, edema cerebral em uma jovem de vinte anos expõem a face humana do problema.
  • A Anvisa proibiu a propaganda da gestrinona em 2021, mas as próprias sociedades médicas admitem que a medida não freou o crescimento do uso — o mercado encontrou formas de continuar.
  • Até o fechamento da reportagem, a Anvisa não havia respondido à carta, deixando pacientes e médicos à espera de uma sinalização concreta sobre os próximos passos regulatórios.

No limiar do novo ano, sete sociedades médicas brasileiras ergueram a voz diante da Anvisa para denunciar uma prática que cresce à sombra de uma brecha legal: os implantes hormonais conhecidos como 'chip da beleza', vendidos com promessas de juventude e vitalidade, mas desprovidos de regulamentação, bula ou evidências científicas de segurança. O que está em jogo não é apenas uma questão regulatória, mas a tensão antiga entre o desejo humano de transformar o corpo e a responsabilidade coletiva de proteger quem busca essa transformação. Casos de infarto, tromboembolismo e edema cerebral lembram que o corpo cobra, em silêncio, o preço de experimentos sem ciência.

No final de dezembro, sete sociedades médicas brasileiras — representando endocrinologistas, urologistas, geriatras, ginecologistas e outras especialidades — entregaram uma carta ao diretor-presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, pedindo ação urgente contra os chamados 'chips da beleza'. O documento denuncia que esses implantes hormonais são prescritos de forma indiscriminada, sem bula, sem regulamentação e sem estudos que comprovem segurança ou eficácia, muitas vezes impulsionados por interesse comercial disfarçado de prática médica.

Os chips são geralmente compostos de gestrinona — um hormônio anabolizante banido em vários países e proibido para atletas pela Agência Mundial Antidoping — combinada com outros hormônios em dosagens variáveis. Médicos os prescrevem prometendo benefícios que vão do tratamento da menopausa ao antienvelhecimento e ganho de massa muscular. O problema é que não existe dose segura estabelecida, e os efeitos colaterais documentados são graves: infarto agudo do miocárdio, tromboembolismo e acidente vascular cerebral. Um caso recente de edema cerebral em uma jovem de vinte anos após uso de implantes com ocitocina acendeu um alerta específico da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.

A dificuldade em conter a prática está numa brecha legal: a Lei das Farmácias Magistrais de 2014 permite que farmácias de manipulação produzam medicamentos customizados sem aprovação regulatória, tornando a fabricação dos chips legal mesmo sem aval da Anvisa. Em 2021, a agência proibiu a propaganda da gestrinona, mas as sociedades médicas reconhecem que a medida não foi suficiente para frear o crescimento do mercado.

Paulo Augusto Miranda, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, destacou que a carta foi enviada justamente porque, apesar de todas as ações já adotadas, o uso continua aumentando. Ele reforçou que a população merece ser protegida para tomar decisões de saúde mais qualificadas. A carta coincidiu com uma reunião entre as sociedades e a própria Anvisa, mas até a publicação da reportagem nenhuma resposta objetiva havia sido dada — e o uso dos implantes seguia crescendo.

No final de dezembro, um grupo de sete sociedades médicas brasileiras entregou uma carta à Agência Nacional de Vigilância Sanitária pedindo ação urgente contra os implantes hormonais conhecidos como "chip da beleza". O documento, assinado por entidades que representam endocrinologistas, urologistas, geriátras, diabetologistas e médicos do esporte, além de federações de ginecologia e obstetrícia e associações de obesidade, acusa a prescrição desses produtos de ser indiscriminada e movida por interesse comercial.

O problema central é que esses implantes não possuem bula, não foram regulamentados pela Anvisa e não têm estudos que comprovem sua segurança ou eficácia. Apesar disso, médicos continuam prescrevendo-os, frequentemente em composições variadas que dificultam o estabelecimento de dosagens seguras. As sociedades médicas denunciam na carta que a "monetização desse comércio através de venda direta ou parcerias comissionadas, bem como a promoção de cursos não científicos" viola princípios éticos, legais e humanos. O documento foi endereçado ao diretor-presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres.

Os chips são tipicamente compostos de gestrinona, um hormônio anabolizante, combinado com outros hormônios. Médicos os prescrevem alegando benefícios para tratamento da menopausa, antienvelhecimento, redução de gordura corporal, aumento de libido e ganho de massa muscular. O que as sociedades médicas alertam, porém, é que não existe dose segura nem acompanhamento capaz de garantir proteção ao usar hormônios para fins estéticos ou de desempenho. Os efeitos colaterais documentados incluem infarto agudo do miocárdio, tromboembolismo e acidente vascular cerebral. Recentemente, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia divulgou um alerta específico sobre ocitocina nesses chips após o caso de uma jovem de vinte anos que desenvolveu edema cerebral após usar implantes contendo a substância.

A dificuldade em conter essa prática reside em uma brecha legal. Embora a Anvisa não tenha regulamentado esses produtos para comercialização, a Lei das Farmácias Magistrais, de 2014, permite que farmácias de manipulação produzam medicamentos customizados sem necessidade de bula. Isso significa que os chips podem ser fabricados legalmente, mesmo sem aprovação regulatória. Em 2021, a Anvisa proibiu propaganda da gestrinona, classificando-a como risco à saúde pública e apontando que a substância foi banida de diversos mercados e considerada proibida para atletas pela Agência Mundial Antidoping. Apesar dessa medida, as sociedades médicas argumentam que as ações tomadas até agora não têm sido eficazes em frear o uso crescente.

Paulo Augusto Miranda, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, afirmou que a carta alerta especificamente para o aumento gradativo do uso de implantes hormonais customizáveis, apesar de todas as ações já adotadas pelas sociedades científicas. O Conselho Federal de Medicina proibiu médicos de prescrever esteroides e anabolizantes para fins estéticos ou desempenho esportivo, mas essa restrição não parece estar sendo respeitada uniformemente. Miranda ressaltou que não existem estudos farmacológicos capazes de garantir eficácia e segurança desses produtos e que a população merece ser alertada e protegida para tomar decisões de saúde mais qualificadas, confiando no trabalho da Anvisa.

A carta foi enviada no mesmo dia de uma reunião entre as sociedades científicas e a própria Anvisa, na qual discutiram-se as ações já tomadas sobre o tema. Miranda informou que ainda não recebeu resposta objetiva sobre o conteúdo da carta, mas expressou esperança de que a agência adote medidas de fiscalização mais eficientes. Até a publicação da reportagem, a Anvisa não havia se manifestado sobre o assunto. O que fica claro é que, apesar de regulamentações existentes e alertas de entidades médicas, o uso de implantes hormonais não regulados continua crescendo, deixando pacientes expostos a riscos graves e documentados.

A monetização desse comércio através de venda direta ou parcerias comissionadas, bem como a promoção de cursos não científicos, ferem todos os princípios éticos, legais e humanos
— Carta das sociedades médicas à Anvisa
Entendemos que a população tem alto grau de confiança no trabalho da Anvisa e precisa ser alertada e protegida para que possa realmente tomar decisões de saúde mais qualificadas
— Paulo Augusto Miranda, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia
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