Uma merendeira escolar de Ribeirão Preto levou 17 facadas, incluindo uma que perfurou o pulmão, mas conseguiu reconstruir sua vida com apoio psicológico e espiritual. Miriam identifica sinais de alerta que precederam o crime: discussões frequentes, primeira agressão com cabo de vassoura e três meses de ameaças intensas antes do ataque.
Sobrevivente de 17 facadas fala sobre culpa e recomeço: 'Cada um carrega o que é seu'
Em momento algum eu errei. Eu fiz o meu melhor.
Como você conseguiu separar o que era culpa sua do que era responsabilidade dele?
Demorou muito tempo. No começo, eu me perguntava o que tinha feito de errado, se poderia ter evitado. Mas quando refleti sobre tudo, percebi que em nenhum momento errei. Fiz meu melhor com o que tinha. A culpa dele é dele.
Seus filhos viram você caída, sangrando. Como eles lidam com isso agora?
As filhas ficaram muito protetoras. Hoje elas querem saber onde estou, com quem vou sair. É como se tivessem invertido os papéis. O filho passou por acompanhamento psicológico. Todos nós fomos marcados, mas conseguimos seguir.
Você ainda tem medo?
Ainda me assusta com gritos. Quando alguém altera a voz, às vezes começo a chorar. Mas aprendi a lidar com isso. Não deixo que o medo determine o resto da minha vida.
O que você diria para uma mulher que está vivendo os primeiros sinais de violência?
Que saia fora na primeira agressão. Os sinais estão sempre ali: na primeira discussão, no primeiro tapa, na primeira palavra alta. Se deixou a primeira, vai acontecer a segunda. Não espere pelas facadas.
Como a fé ajudou você?
Quando estava caída, ferida, senti a presença da minha avó. Senti a mão dela sendo segurada. Isso me deu força para acreditar que não estava sozinha. A espiritualidade foi tão importante quanto o tratamento psicológico.
Você se considera uma sobrevivente?
Nem posso não me considerar. Levei 17 facadas. Não é qualquer mulher que passa pelo que passei e sai viva. Hoje sou mais forte, mais guerreira.
Il Polso
- 17 facadas, incluindo uma que perfurou o pulmão, em julho de 2016
- Três meses de ameaças intensas antes do crime
- Uma semana internada; tratamento psicológico e psiquiátrico posterior
- Lei Maria da Penha completava 20 anos em agosto de 2026
Uma merendeira escolar de Ribeirão Preto levou 17 facadas, incluindo uma que perfurou o pulmão, mas conseguiu reconstruir sua vida com apoio psicológico e espiritual. Miriam identifica sinais de alerta que precederam o crime: discussões frequentes, primeira agressão com cabo de vassoura e três meses de ameaças intensas antes do ataque.
Miriam Maria da Silva sobreviveu a 17 facadas do ex-companheiro em 2016 e hoje, aos 49 anos, fala sobre culpa, recomeço e a importância de reconhecer sinais de violência doméstica.
Miriam Maria da Silva está sentada à sua frente com 49 anos e uma clareza que só vem de quem passou pelo pior e voltou. Merendeira escolar em Ribeirão Preto, ela fala com orgulho da profissão, dos filhos, da vida que reconstruiu. Dez anos atrás, em julho de 2016, quando tinha 39 anos, o ex-companheiro a esfaqueou 17 vezes. Uma das facadas atravessou o pulmão. Ela ficou uma semana internada, precisou repor sangue, tratar o ferimento mais grave. Depois veio o resto: medo, pesadelos, remédios, psicólogo, psiquiatra. O homem foi preso com base na Lei Maria da Penha, que naquele ano completava uma década de existência e agora marca vinte anos desde sua sanção em 2006.
Mas a história não começa nas facadas. Miriam nasceu em Cubatão, foi adotada aos três anos por uma família de Ribeirão Preto, cresceu na Vila Tibério com uma criação que descreve como rígida. Sua mãe ensinava que era preciso andar certo na vida. Aos 15 anos, Miriam foi mãe pela primeira vez. Depois teve mais dois filhos. Sempre trabalhou muito para sustentar a casa. Conheceu o ex-companheiro em uma fase em que ele enfrentava problemas financeiros. Tentou ajudá-lo, o levou para dentro de casa. Com o tempo, passou a sustentá-lo e arcar com todas as despesas. O relacionamento não era saudável. Havia discussões frequentes por motivos pequenos. Hoje ela reconhece esses episódios como sinais de alerta, mas na época continuou insistindo.
O rompimento veio depois que ele avançou contra ela com um cabo de vassoura. Miriam pediu que saísse de casa e procurou a delegacia. Foi quando as ameaças se intensificaram. Ela passou cerca de três meses sendo perseguida. Chegou a ir ao trabalho escoltada por policiais. Em um ônibus lotado, o ex-companheiro pulou a roleta e foi em sua direção. Ninguém ajudou. No hotel onde trabalhava, precisava se esconder para sair do serviço, chamar transporte por aplicativo, pedir ajuda para ir embora pela garagem. Por uma semana não o viu no ponto de ônibus, no caminho do trabalho, perto de casa. Pensou que tinha se livrado.
Era feriado, mas Miriam não se lembrava. Como costumava trabalhar nessas datas, saiu sem perceber que o mercado poderia estar fechado. A filha queria comer panqueca. Ela foi comprar ingredientes, encontrou tudo fechado, decidiu voltar a pé. No caminho, um amigo ofereceu carona. Ela recusou, disse que já estava perto de casa. Ao chegar à rua onde morava, viu um carro parado perto da entrada. A casa ficava em um corredor. Quando colocou o pé ali, o ex-companheiro apareceu com uma faca. Ela correu, caiu no meio da rua. Foi ali que o ataque aconteceu. Se lembra do filho, ainda criança, a vendo caída. Gritou para ele correr. O menino correu tanto que ninguém conseguia encontrá-lo.
A recuperação física veio antes da emocional. Miriam começou a ter pesadelos à noite. Qualquer pessoa que chegava perto a assustava. Precisou tomar remédio. Foi uma luta. Não foi fácil. A violência também afetou os filhos. As filhas adolescentes apoiaram a mãe dentro de casa. O filho passou por acompanhamento psicológico. Hoje, as filhas ainda têm cuidado com ela, querem saber onde está, com quem vai sair, quem está conhecendo. Ela brinca que hoje é o contrário: ela é a menina, e elas, a mãe.
Por muito tempo, Miriam se perguntou se poderia ter evitado a violência. Com o tratamento, o apoio da família e a espiritualidade, entendeu que não era responsável pelo crime. Quando estava caída, ferida, viu a avó ao lado dela e sentiu a mão sendo segurada. Achava que não tinha ninguém nessa vida, tirando seus filhos. A fé a ajudou a enfrentar o medo, os pesadelos, a sensação de desamparo. Demorou a compreender que tinha feito o que podia. Refletiu sobre tudo que aconteceu e falou para si mesma: em momento algum errei. Fiz meu melhor. Esse entendimento foi parte do recomeço. Dez anos depois, não esqueceu o que viveu, mas aprendeu a não carregar a culpa pelo crime. "A gente tem que carregar o que é da gente. Cada um carrega o que é seu."
Ao olhar para a própria história, Miriam diz que a violência não começou no dia das facadas. Os sinais estavam nas discussões, nas ameaças, no medo, na primeira agressão, na palavra alta. Ela sabe que sair de uma relação violenta nem sempre é simples. Há filhos, dependência financeira, vergonha, medo, ameaça, esperança de mudança e culpa. Ainda assim, faz um alerta: não aceite agressão dentro de casa. No primeiro grito, não deixa. Saia fora na primeira agressão, porque deixou a primeira, vai acontecer a segunda. Miriam ainda se assusta com gritos. Quando alguém altera a voz, às vezes começa a chorar. Mas hoje consegue lidar melhor com as marcas deixadas pela violência. Voltou a se relacionar. Ficou muito tempo sozinha, até entender que o crime não precisava determinar todo o resto da vida. Define-se como sobrevivente. Não é qualquer mulher que passa pelo que passou e sai viva. Hoje é mais forte, mais guerreira. Está aí para apoiar, se alguém quiser conversar sobre o assunto.
Citazioni salienti
A gente tem que carregar o que é da gente. Cada um carrega o que é seu.— Miriam Maria da Silva, sobre aprender a não carregar a culpa pela violência sofrida
Saia fora na primeira agressão, porque deixou a primeira, vai acontecer a segunda.— Miriam Maria da Silva, alertando outras mulheres sobre sinais de violência doméstica