Sismos na Venezuela deixam 1430 mortos, 41 portugueses e lusodescendentes entre as vítimas

1430 mortos confirmados, 3200 feridos, 3100 desalojados, incluindo 41 portugueses e lusodescendentes mortos e 87 desaparecidos ou incontactáveis.
Nenhuma resposta cidadã pode substituir as obrigações do Estado
Organizações locais denunciaram que a população estava a tentar resgatar os seus próprios mortos enquanto as autoridades impediam o acesso a La Guaira.

Na quarta-feira, dois sismos de magnitude 7,2 e 7,5 rasgaram o norte da Venezuela, inscrevendo no país a sua maior tragédia sísmica em mais de um século. Entre os 1430 mortos e os milhares de feridos e desalojados, a comunidade portuguesa e lusodescendente concentrada em La Guaira foi duramente atingida, com 41 mortos confirmados e 87 desaparecidos. Portugal respondeu com missão de resgate e toneladas de ajuda humanitária, mas as restrições impostas pelas autoridades venezuelanas ao acesso à zona mais devastada revelaram a tensão permanente entre o poder do Estado e a urgência da vida humana.

  • Dois sismos sucessivos destruíram o norte da Venezuela em horas, deixando mais de 1400 mortos e centenas de vozes ainda presas entre os escombros.
  • A comunidade portuguesa em La Guaira foi das mais atingidas: 41 mortos confirmados, incluindo seis crianças, e 87 pessoas ainda desaparecidas ou incontactáveis.
  • Portugal mobilizou 64 especialistas de resgate e 23 toneladas de ajuda humanitária, que chegaram ao terreno ainda durante o fim de semana.
  • As autoridades venezuelanas bloquearam o acesso a La Guaira a partir de sexta-feira à noite, criando um vácuo de socorro que a população denunciou com vídeos de edifícios em ruínas e gritos por ajuda.
  • Equipas de 17 países estão no terreno, mas os recursos chegam tarde: o chefe da equipa chilena admitiu que as hipóteses de encontrar sobreviventes eram já escassas junto a cinco edifícios colapsados.

Na quarta-feira, dois sismos de magnitude 7,2 e 7,5 sacudiram o norte da Venezuela com uma violência que o país não conhecia há mais de um século. O balanço cresceu ao longo dos dias até atingir 1430 mortos, 3200 feridos e 3100 desalojados, com mais de 300 réplicas a prolongar o terror. A região de La Guaira, onde fica o principal aeroporto do país, foi a mais devastada — e também onde vive uma numerosa comunidade portuguesa e lusodescendente.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros confirmou 41 mortos entre portugueses e lusodescendentes: 35 adultos e seis crianças, a maioria lusodescendentes, alguns com nacionalidade portuguesa. Mais preocupante ainda era o número de desaparecidos ou incontactáveis: 87 pessoas, com apenas 49 localizadas. Portugal reagiu com rapidez, enviando dois aviões da Força Aérea com 64 elementos de resgate da GNR, bombeiros, técnicos da proteção civil e pessoal do INEM, além de cerca de 23 toneladas de ajuda humanitária — tendas, geradores, medicamentos e equipamentos de salvamento.

No terreno, porém, os obstáculos multiplicavam-se. A partir de sexta-feira à noite, as autoridades venezuelanas restringiram o acesso a La Guaira, alegadamente para controlar o fluxo de voluntários em motociclo. O resultado foi um vácuo de socorro que a população denunciou nas redes sociais: edifícios em ruínas sem máquinas à vista, vozes a pedir ajuda entre os escombros, famílias a cavar com as próprias mãos. Junto a um conjunto de cinco prédios colapsados, o chefe da equipa chilena admitiu que havia poucas hipóteses de encontrar sobreviventes.

Equipas de pelo menos 17 países, incluindo 250 americanos, estavam no terreno, mas a coordenação era difícil e o sistema de saúde venezuelano, já fragilizado, enfrentava uma crise de proporções desconhecidas. Os sismos foram sentidos até na Colômbia e no Brasil. Antes dos jogos do Mundial de futebol na sexta-feira, o mundo observou minutos de silêncio. A Venezuela, que não registava um grande sismo desde 1997, vivia agora a sua maior catástrofe sísmica em mais de um século.

Na quarta-feira, dois sismos de magnitude 7,2 e 7,5 sacudiram o norte da Venezuela, deixando um rasto de destruição que rapidamente se revelou ser o mais devastador registado no país em mais de um século. O balanço cresceu ao longo dos dias: 1430 mortos, 3200 feridos, 3100 pessoas sem casa. Entre os escombros e as réplicas que continuaram a abalar o país — mais de 300 desde os primeiros abalos — estava uma comunidade portuguesa e lusodescendente particularmente vulnerável, concentrada na região de La Guaira, que alberga o principal aeroporto do país e foi a zona mais atingida.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros português confirmou 41 mortos entre portugueses e lusodescendentes, número que subiu ao longo do sábado conforme novos dados chegavam. Dos 41 falecidos, 35 eram adultos e seis crianças; 34 eram lusodescendentes, seis portugueses e um tinha nacionalidade portuguesa por casamento. Mas o número de desaparecidos ou incontactáveis era ainda mais preocupante: 87 pessoas, 51 homens e 36 mulheres, com apenas 49 localizadas até ao momento. Portugal respondeu rapidamente. Dois aviões da Força Aérea partiram de Beja na sexta-feira à noite, transportando 64 elementos da Unidade Especial de Proteção e Socorro da GNR, técnicos da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, bombeiros de Lisboa e pessoal do INEM — uma força conjunta equipada com capacidades especializadas em buscas, salvamento, resposta a catástrofes e apoio médico de emergência. Um segundo carregamento de ajuda humanitária, cerca de 23 toneladas, incluindo equipamentos de proteção, material de resgate, medicamentos, tendas, geradores e alimentos, também chegou ao Aeroporto Internacional Simón Bolívar em Caracas.

Mas a chegada da ajuda internacional — equipas de pelo menos 17 países, incluindo uma equipa de 250 pessoas dos Estados Unidos — não foi suficiente para contrariar os obstáculos impostos pelas autoridades venezuelanas. A partir das 20 horas de sexta-feira, as autoridades começaram a impedir o acesso de pessoas e voluntários a La Guaira, alegadamente para controlar o fluxo de milhares de motociclistas que se deslocavam para a região levando água e alimentos. A restrição, porém, criou um vácuo de resgate que a população denunciou nas redes sociais. Vídeos mostravam edifícios completamente destruídos, e os habitantes queixavam-se de que quase três dias depois dos sismos as equipas de busca e salvamento ainda não tinham chegado aos locais onde se encontravam. Ouviam-se vozes entre os escombros, pessoas a pedir ajuda, mas as máquinas para remover os destroços não apareciam.

Em La Guaira, junto a um conjunto de cinco edifícios que ruíram, o chefe da equipa de resgate chilena, Nadiomar Polanco, foi direto: havia "infelizmente poucas hipóteses de encontrar sobreviventes". A sua equipa, a primeira a chegar ao local, concentrava-se agora na busca pelos corpos. Alguns habitantes tentavam desenterrar os seus entes queridos por conta própria, cavando manualmente entre os escombros. Organizações locais como o Laboratório de Paz emitiram comunicados recordando às autoridades que nenhuma resposta cidadã pode substituir as obrigações do Estado, invocando normas internacionais que estabelecem o direito a uma resposta oportuna, coordenada e eficaz em emergências desta magnitude.

O sistema de saúde venezuelano, já em estado crítico antes dos sismos, agora enfrentava uma crise humanitária de proporções desconhecidas. Os sismos foram sentidos até na Colômbia e no Brasil, um sinal da sua magnitude. Na sexta-feira, antes dos jogos do Campeonato do Mundo de futebol, minutos de silêncio foram observados em homenagem às vítimas. A Venezuela, embora seja um país com risco sísmico, não tinha registado um grande sismo desde 1997. Este, quando chegasse o fim das operações de resgate, seria recordado como o mais mortífero em mais de um século.

Havia infelizmente poucas hipóteses de encontrar sobreviventes
— Nadiomar Polanco, chefe da equipa de resgate chilena
Nenhuma resposta cidadã pode substituir as obrigações que correspondem ao Estado
— Laboratório de Paz, organização local
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Porque é que as autoridades venezuelanas restringiram o acesso a La Guaira logo após os sismos, quando era precisamente quando a ajuda era mais urgente?

Model

As autoridades alegaram que queriam controlar o fluxo de pessoas — milhares de motociclistas estavam a deslocar-se para a região levando água e alimentos. Mas a restrição criou um vácuo. As equipas de resgate internacionais não conseguiam chegar aos locais onde as pessoas estavam soterradas, e a população começou a desenterrar os seus próprios mortos.

Inventor

Havia realmente poucas esperanças de encontrar sobreviventes, ou era apenas o que o chefe da equipa chilena observou naquele momento específico?

Model

Quase três dias depois dos sismos, quando as primeiras equipas internacionais chegaram a La Guaira, a realidade era que os escombros tinham já passado o ponto crítico. O chefe da equipa chilena foi honesto: concentravam-se em recuperar corpos, não em salvar vidas. Mas isso não significa que não houvesse pessoas vivas sob os destroços — apenas que o tempo tinha passado.

Inventor

Portugal enviou 64 pessoas de resgate. Isso foi suficiente para fazer diferença?

Model

Foram parte de uma resposta internacional de 17 países. Mas a questão não era a quantidade de equipas — era o acesso. Enquanto as autoridades impediam a entrada em La Guaira, nenhuma equipa, por muito especializada que fosse, conseguia chegar aos locais onde mais se precisava.

Inventor

O que é que a população estava a tentar comunicar através das redes sociais?

Model

Que estavam sozinhos. Que ouviam vozes entre os escombros, pessoas a pedir ajuda, mas ninguém vinha. Que precisavam de máquinas para remover os destroços, não de promessas de ajuda internacional. Era um grito de desespero contra a inércia.

Inventor

Como é que um país pode estar tão mal preparado para uma catástrofe natural quando vive numa zona de risco sísmico?

Model

A Venezuela não tinha tido um grande sismo desde 1997. Há quase 30 anos. As pessoas esqueceram-se, os sistemas degradaram-se, a crise económica e política consumiu recursos que deveriam ter ido para preparação. E quando chegou, o sistema de saúde já estava em colapso. Não era apenas um sismo — era um sismo a atingir um país que já estava de joelhos.

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