Três anos sem reajuste. Os trabalhadores não aguentam mais.
Na madrugada de uma terça-feira, dezenove mil rodoviários do Rio de Janeiro pararam — e com eles, o cotidiano de três milhões de passageiros. A greve, nascida de três anos sem reajuste e de negociações que nunca chegaram a lugar algum, durou poucas horas antes de ser sufocada por uma liminar judicial e uma multa de duzentos mil reais por dia. O que restou não foi uma resolução, mas uma pausa forçada numa disputa que ainda não encontrou seu fim.
- Antes do amanhecer, garagens cheias de ônibus parados e estações fechadas sinalizavam que o Rio acordaria diferente naquela terça-feira.
- Três milhões de passageiros enfrentaram empurra-empurra, esperas de até duas horas e a incerteza de chegar ao trabalho — o peso humano de um conflito trabalhista que se arrasta desde 2019.
- O Tribunal Regional do Trabalho agiu com rapidez: declarou a greve ilegal e impôs multa diária pesada o suficiente para dobrar a resistência do sindicato em poucas horas.
- O sindicato suspendeu o movimento, mas não recuou — prometeu recurso e denunciou a decisão como uma intervenção judicial em favor dos empregadores.
- Com audiência de conciliação marcada para 4 de abril, a disputa sobre o valor de três anos sem reajuste segue aberta, sem vencedor à vista.
Na madrugada de 29 de março, os rodoviários do Rio cruzaram os braços. Nenhum articulado do BRT saiu das garagens. Em estações como Santa Cruz, na Zona Oeste, passageiros se amontoavam nos pontos, esperando até duas horas por um ônibus. Três milhões de pessoas dependem do sistema. Dezenove mil trabalhadores haviam parado.
O motivo era direto: desde setembro, o sindicato tentava negociar reposição do piso salarial e da cesta básica, sem resposta. Três anos sem reajuste. Quatro dias antes, o Tribunal Regional do Trabalho havia extinguido o dissídio coletivo em que a categoria pedia recomposição pela inflação acumulada desde 2019. Com essa saída bloqueada, a greve foi decretada por tempo indeterminado.
O Judiciário respondeu com rapidez. Uma liminar declarou a paralisação ilegal e impôs multa de duzentos mil reais por dia. O sindicato alegou não ter sido notificado formalmente, mas, diante do peso da penalidade, decidiu suspender o movimento ainda pela manhã. Em nota, lamentou o que chamou de intervenção em favor dos patrões, afirmando ter cumprido todas as exigências legais e que a greve era o único instrumento que restava aos trabalhadores.
Do outro lado, o Rio Ônibus argumentou que a paralisação agravava a crise de mobilidade sem resolver nada, e que três dos quatro consórcios estão em recuperação judicial — o que tornaria qualquer reajuste dependente de negociações externas com a Prefeitura.
A greve durou poucas horas, mas deixou garagens lotadas, frotas reduzidas a sessenta por cento e passageiros exaustos. O Tribunal marcou audiência de conciliação para 4 de abril. O sindicato anunciou recurso. A conta de três anos sem reajuste ainda está em aberto.
Na madrugada de terça-feira, 29 de março, os rodoviários do Rio de Janeiro cruzaram os braços. Antes do amanhecer, o sistema de transporte da cidade começava a desmoronar. Nenhum articulado do BRT saiu das garagens. Algumas estações nem abriram as portas. Nas que funcionavam — Santa Cruz, Madureira, Mato Alto — passageiros se amontoavam nos pontos de ônibus, desesperados por um lugar em qualquer coletivo que passasse. Na Estação Santa Cruz, na Zona Oeste, o empurra-empurra era tanto que alguns esperaram duas horas por um ônibus. Três milhões de pessoas dependem de ônibus para se mover pela cidade. Dezenove mil rodoviários haviam parado.
O sindicato havia decidido na noite anterior. Sebastião José, presidente do Sindicato dos Rodoviários, explicou o motivo com clareza: desde setembro, a categoria tentava negociar reposição do piso salarial e da cesta básica. Nada. Três anos sem reajuste. Os trabalhadores, disse, não aguentavam mais a situação precária. Quatro dias antes da greve, o Tribunal Regional do Trabalho havia votado — quatro votos a três — para extinguir o dissídio coletivo em que o sindicato pedia recomposição salarial pela inflação acumulada desde 2019. Com essa porta fechada, o sindicato considerou que todas as tentativas de negociação haviam se esgotado. A greve foi decretada por tempo indeterminado.
Mas o Judiciário não esperou. O Tribunal Regional do Trabalho concedeu uma liminar declarando a paralisação ilegal e impôs uma multa de duzentos mil reais por dia de descumprimento. O sindicato alegou não ter sido notificado da decisão. Mesmo assim, no meio da manhã de terça-feira, pouco depois que a greve começara, o Sintrucad-Rio recebeu informações não oficiais de que o tribunal havia atendido novamente ao pedido dos patrões para impedir o movimento. A decisão foi tomada: suspender a greve.
Em nota, o sindicato lamentou o que chamou de intervenção do Judiciário em favor dos patrões. Argumentou que havia cumprido todas as exigências da Lei de Greve — negociações, assembleias, comunicação prévia com imprensa, autoridades e sociedade. Afirmou que o direito de greve era o único meio que os rodoviários tinham naquele momento para defender o mínimo para sua manutenção e a de suas famílias. E que, segundo a Constituição Federal, competia aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercer esse direito. Mas a multa diária era pesada demais. O sindicato anunciou que entraria com recurso.
O Rio Ônibus, associação das empresas, havia repudiado a greve desde o início. Argumentou que a paralisação não resolve o problema da classe e agrava a crise de mobilidade da cidade. Disse que as empresas, apesar das dificuldades financeiras, priorizavam o pagamento dos rodoviários e a manutenção dos empregos. O reajuste de salários, alegou, depende de ações externas — três dos quatro consórcios estão em recuperação judicial. Pediu que os profissionais não aderissem à paralisação e retomassem seus postos até que houvesse resultados dos diálogos com a Prefeitura.
A greve havia durado poucas horas. Mas deixou marcas. Garagens inteiras — Curicica, Caprichosa, Jabour, Redentor — ficaram lotadas de ônibus parados. As linhas regulares circularam com apenas sessenta por cento da frota. O corredor Santa Cruz-Alvorada funcionou em contingência, com coletivos normais substituindo os articulados do BRT. Passageiros enfrentaram aglomerações e esperas longas. O Tribunal Regional do Trabalho marcou uma audiência de conciliação para segunda-feira, 4 de abril. O sindicato prometeu recurso. A disputa sobre quanto valem três anos sem reajuste continuava.
Notable Quotes
Os trabalhadores não aguentam essa situação precária, há três anos sem reajuste.— Sebastião José, presidente do Sindicato dos Rodoviários
O sindicato lamenta essa intervenção do Judiciário que favorece os patrões em detrimento dos direitos básicos dos trabalhadores.— Sindicato dos Rodoviários do Rio
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que o sindicato decidiu parar justamente naquele dia, se sabia que o tribunal já havia declarado greves ilegais antes?
Porque a paciência se esgotou. Desde setembro tentavam negociar. O tribunal havia votado contra eles dias antes. Não havia mais caminho institucional aberto.
E a multa de duzentos mil reais por dia — isso foi o que os fez recuar?
Foi o peso dela, sim. Mas também a realidade: o sindicato não tinha como sustentar uma multa daquele tamanho. A decisão foi pragmática, não uma derrota ideológica.
As empresas dizem que estão em recuperação judicial. Isso é verdade?
Três dos quatro consórcios estão, de fato. Mas o sindicato diria que isso não é desculpa — que as empresas sempre encontram dinheiro para outras coisas, e que a recuperação judicial não deveria vir antes do salário dos trabalhadores.
Quantas pessoas foram afetadas?
Três milhões usam ônibus na cidade. Muitos esperaram duas horas por um coletivo. Alguns não chegaram ao trabalho. É um número que mostra o peso que os rodoviários têm na vida da cidade.
O que vem agora?
Uma audiência em abril. O sindicato vai recorrer. E a questão dos três anos sem reajuste continua sem resposta. Isso não desapareceu.