Sinal de 'L' feito por traficantes não é referência a Lula, mas à facção A.D.A

O vídeo foi cortado para destacar o gesto, removendo todo contexto
Editores manipularam reportagem de 2018 para criar falsa ligação entre traficantes e candidato presidencial.
Mark

Como um vídeo de 2018 conseguiu viralizar assim tão perto das eleições? Parece muito bem-orquestrado.

Mimi

O vídeo em si não é novo, mas foi editado e recontextualizado. Alguém cortou a reportagem original para destacar apenas o gesto do "L", removendo qualquer contexto sobre a facção A.D.A. Depois adicionou legendas e, em alguns casos, fotos de Lula com chifres.

Luke

Mas quem fez isso? O Comprova tentou contatar os perfis que postaram, mas não conseguiu resposta. Não sabemos se foi uma pessoa, um grupo organizado ou se simplesmente viralizou organicamente com interpretações equivocadas.

Mimi

Verdade. O que sabemos é que a campanha de Bolsonaro usou o mesmo vídeo em propaganda de TV, e o TSE mandou tirar do ar. Isso sugere pelo menos uma intenção deliberada em algum ponto da cadeia.

Mark

E quanto ao símbolo em si? O "L" realmente significa A.D.A?

Mimi

Sim. É uma referência a Paulo César Silva dos Santos, o Linho, que fundou a facção. Ele desapareceu em 2003, mas a marca ficou. Lenin Pires, professor de antropologia da UFF, confirmou que é uma prática comum entre facções usar símbolos assim.

Luke

Mas isso é informação que circulava desde 2018, quando The Intercept já tinha publicado sobre. Não é novidade. O que é novo é a manipulação deliberada para criar uma falsa associação com Lula.

Mark

Qual foi o alcance real disso?

Mimi

No Kwai, mais de 860 mil visualizações. No TikTok, 603 mil. No WhatsApp não dá para medir, mas circulou bastante.

Luke

Importante notar que o Comprova não conseguiu contato com os responsáveis pelas postagens. Então não sabemos se foi desinformação intencional ou se as pessoas realmente acreditavam na conexão com Lula.

Mark

E a campanha de Lula, como reagiu?

Mimi

A equipe jurídica entrou com petição no TSE contra a propaganda de Bolsonaro. Conseguiu tirar do ar. Mas a desinformação nas redes sociais é mais difícil de controlar.

  • Um vídeo de quatro anos foi editado e lançado nas redes sociais com timing cirúrgico — dias antes do segundo turno — acumulando mais de 860 mil visualizações só no Kwai.
  • A manipulação foi além do corte: versões no WhatsApp adicionaram foto de Lula com chifres e uma frase fabricada atribuída a ele, tornando a intenção desinformativa explícita.
  • A campanha de Bolsonaro usou o mesmo material em propaganda de TV, que o TSE mandou retirar do ar por manipulação de dados eleitorais.
  • A agência Comprova identificou a verdadeira origem do gesto em múltiplas fontes: o 'L' é símbolo histórico da A.D.A, facção fundada por Paulo César Silva dos Santos, o Linho, desaparecido desde 2003.
  • O caso integra um padrão mais amplo: ao longo da campanha de 2022, diversas agências de checagem desmentiram repetidas tentativas de associar falsamente Lula a atividades criminosas.

Às vésperas do segundo turno de 2022, um vídeo de 2018 foi ressuscitado e reconfigurado para semear uma associação que nunca existiu: a de que traficantes do Rio faziam o gesto 'L' em homenagem ao ex-presidente Lula. O símbolo, na verdade, pertence a uma história mais antiga e mais sombria — é a marca da facção Amigos dos Amigos, nascida sob a liderança de um homem chamado Linho. O episódio revela como fragmentos de realidade, deslocados de seu tempo e contexto, podem ser transformados em armas no campo eleitoral.

Um vídeo gravado em agosto de 2018, durante a prisão de um chefe do tráfico no Morro do Urubu, voltou a circular nas redes sociais em outubro de 2022 — mas irreconhecível. Editado para menos de um minuto e despido de seu contexto original, o trecho mostrava traficantes fazendo a letra 'L' com as mãos, agora apresentado como prova de uma suposta ligação entre criminosos e o candidato presidencial Luiz Inácio Lula da Silva. A associação é falsa.

O gesto nada tem a ver com o ex-presidente. O 'L' é o símbolo da facção Amigos dos Amigos, a A.D.A, e remete ao apelido de seu fundador histórico: Paulo César Silva dos Santos, o Linho. O professor de antropologia Lenin Pires, da UFF, confirmou que Linho é figura central na identidade do grupo, que surgiu como dissidência de outras facções cariocas. Mesmo após o desaparecimento do traficante em 2003, o símbolo permaneceu vivo — documentado em reportagens do The Intercept desde 2018 e celebrado em funks identificados com a facção.

A desinformação ganhou camadas adicionais em versões que circularam pelo WhatsApp, onde o vídeo foi acompanhado de uma foto manipulada de Lula com chifres e uma frase falsa atribuída a ele. O mesmo material chegou à propaganda eleitoral oficial da campanha de Jair Bolsonaro, em uma peça que o Tribunal Superior Eleitoral mandou retirar do ar por irregularidades, incluindo manipulação de dados sobre votação em presídios.

A agência Comprova, responsável pela verificação, apontou que este episódio não foi isolado. Ao longo da campanha de 2022, múltiplos conteúdos falsos tentaram vincular Lula a facções criminosas — todos desmentidos por diferentes agências de checagem. O padrão revela uma estratégia deliberada: usar fragmentos reais, deslocados de contexto, para construir narrativas que resistem ao escrutínio apenas enquanto circulam rápido o suficiente.

Um vídeo de quatro anos atrás voltou a circular nas redes sociais poucos dias antes do segundo turno das eleições presidenciais de 2022, desta vez com uma narrativa completamente diferente de seu contexto original. A gravação, que mostra traficantes do Rio de Janeiro fazendo a letra "L" com as mãos durante uma ação policial, foi editada e compartilhada de forma a sugerir uma conexão entre o gesto e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A associação é falsa.

O material original é uma reportagem da TV Record de agosto de 2018 sobre a prisão de Marcos Vinicius Tostes da Silva, conhecido como Pitbull ou MV, apontado pela polícia como chefe do tráfico no Morro do Urubu, na zona norte do Rio. O vídeo completo tem dois minutos e vinte e sete segundos. Quando começou a circular nas redes sociais — em plataformas como Kwai, TikTok, Twitter e WhatsApp — foi reduzido a menos de um minuto, com o corte estrategicamente focado justamente no momento em que os criminosos fazem o gesto com as mãos. No Kwai, a postagem acumulou mais de 860 mil visualizações, 48,7 mil curtidas e 14,2 mil compartilhamentos até 19 de outubro. No TikTok, chegou a 603 mil visualizações e 13,4 mil curtidas.

A letra "L" que os traficantes fazem não é uma referência ao nome do ex-presidente. É um símbolo da facção criminosa Amigos dos Amigos, a A.D.A, criada sob a liderança de Paulo César Silva dos Santos, conhecido como Linho. O apelido do criminoso — cuja inicial é L — foi o que motivou o gestual que se tornou marca identitária do grupo. Lenin Pires, professor de antropologia do Departamento de Segurança Pública da Universidade Federal Fluminense, explicou que Linho é uma figura histórica importante que procurou estabelecer essa identidade como uma dissidência tanto do Terceiro Comando quanto de segmentos do Comando Vermelho. "No Amigo dos Amigos, o Linho é uma referência", afirmou. O traficante desapareceu em janeiro de 2003, em São Paulo, mas a marca permaneceu.

Em algumas versões do vídeo compartilhadas no WhatsApp, a manipulação foi ainda mais explícita. O trecho foi acompanhado de uma foto de Lula com chifres desenhados e uma frase atribuída ao ex-presidente: "Esse é meu garoto, mó orgulho de você, companheiro!". A intenção era clara — criar a impressão de que criminosos estavam apoiando o candidato presidencial. O timing também não era coincidência. O conteúdo viralizou às vésperas do segundo turno, quando a campanha eleitoral atingia seu pico de intensidade.

A mesma gravação foi usada pela campanha do presidente Jair Bolsonaro em uma propaganda de TV que tentava estabelecer uma relação indevida entre Lula e traficantes. A peça tratava da votação em presídios e mostrava o traficante Pitbull fazendo o "L". O Tribunal Superior Eleitoral determinou a retirada da propaganda do ar após a equipe jurídica da coligação de Lula apontar manipulação de dados sobre a votação em ambientes prisionais, entre outras irregularidades.

A agência de fact-checking Comprova, que investigou o conteúdo, encontrou confirmação da verdadeira origem do símbolo em múltiplas fontes. Uma reportagem do The Intercept de dezembro de 2018 já trazia a informação de que traficantes usavam o "L" como símbolo do grupo criminoso. Dois anos depois, em 2020, o The Intercept publicou um fio no Twitter sobre as facções do Rio, mencionando novamente o uso da letra "L" e citando também a utilização de diversos símbolos e expressões que identificam outras facções. Um vídeo postado em 2021 no canal do YouTube "A.D.A do Linho" apresentava um funk intitulado "Faz o L Só Quem É A.D.A Até Morrer", trazendo a mesma frase em quatro momentos da composição.

Esta não foi a primeira tentativa de associar falsamente Lula a atividades criminosas durante a campanha de 2022. O Comprova já havia desmentido conteúdos afirmando que a sigla "CPX" em um boné usado por Lula significava complexo — um conjunto de favelas — e não tinha relação com facção criminosa. Também verificou que um vídeo afirmando que Lula chamou apoiadores de vagabundos e traficantes era falso, e que era enganosa a associação de Lula e do PT com apreensão de drogas no Mato Grosso do Sul. Outras agências de checagem, como De Fato e Aos Fatos, também desmentiram conteúdos similares durante o mesmo período eleitoral.

No Amigo dos Amigos, o Linho é uma referência
— Lenin Pires, professor de antropologia da UFF
Linho é uma figura histórica, importante, que procurou estabelecer essa identidade, alternativamente a uma dissidência
— Lenin Pires, professor de antropologia da UFF
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