Sinais de auxílio emergencial assustam mercado: dólar sobe 0,95% e Bolsa cai 1,1%

sacrificar algumas premissas econômicas para poder manter alguma forma de socorro
Pacheco sinaliza disposição de flexibilizar austeridade fiscal para retomar auxílio emergencial, assustando investidores.
Mark

Por que exatamente o mercado reagiu tão mal a essas declarações? Não era esperado que o Brasil precisasse de alguma forma de auxílio?

Mimi

Esperado, talvez. Mas o timing e a forma importam muito. Essas declarações vieram de candidatos apoiados por Bolsonaro, justamente quando o país ainda não tinha aprovado seu orçamento de 2021 e a dívida pública estava em trajetória de alta. O mercado interpretou como falta de compromisso com a austeridade fiscal.

Luke

Mas espera aí — Pacheco não disse que o teto de gastos deveria ser mantido? Ele tentou equilibrar a mensagem. Por que o mercado ignorou essa parte?

Mimi

Porque para investidores, a intenção de "sacrificar premissas econômicas" é o que fica. O qualificativo vem depois. E havia um contexto: esperança em privatizações que não saíram do papel, reformas que não avançam. A credibilidade já estava abalada.

Mark

E quanto ao lado positivo? Biden estava anunciando 1,9 trilhão em estímulos. Isso não deveria ter ajudado o Brasil?

Mimi

Ajudou no começo do dia. O dólar abriu em queda por causa disso. Mas as preocupações domésticas brasileiras foram mais fortes que o otimismo internacional. O mercado escolheu se preocupar com o Brasil.

Luke

Quanto disso é especulação e quanto é análise real? Quer dizer, a Bolsa caiu 1,1%, o dólar subiu 0,95%. Essas são movimentações significativas ou são flutuações normais de um dia?

Mimi

São significativas no contexto. Era o terceiro dia consecutivo de queda para a Bolsa. E o Ibovespa zerou os ganhos do ano. Não é um movimento isolado.

Mark

As eleições para Senado e Câmara estão marcadas para 1º de fevereiro. Isso muda algo?

Mimi

Muda tudo. Até lá, há incerteza sobre quem vai estar no comando e qual será a postura em relação às contas públicas. Essa incerteza alimenta a tensão.

Luke

Mas ninguém sabe ainda se o auxílio vai voltar ou não, certo? Essas eram apenas sinalizações.

Mimi

Exatamente. Eram sinalizações. Mas sinalizações de pessoas que podem ter poder real para fazer isso acontecer. E em um contexto de contas públicas já deterioradas, isso é suficiente para assustar.

Mark

E agora? O que muda a partir daqui?

Mimi

Tudo depende do que acontecer até 1º de fevereiro. Se houver clareza sobre o orçamento, se a dívida pública começar a dar sinais de estabilização, o mercado pode se acalmar. Caso contrário, essa tensão continua.

  • Dólar fechou em alta de 0,95%, cotado em R$ 5,36
  • Ibovespa caiu 1,10%, fechando em 118.328 pontos
  • Eleições para presidência do Senado e Câmara marcadas para 1º de fevereiro
  • Rodrigo Pacheco (DEM-MG) e Arthur Lira (PP-AL) sinalizaram necessidade de retomar auxílio emergencial

Candidatos à presidência do Senado e Câmara sinalizaram necessidade de retomar auxílio emergencial, mesmo que isso exija flexibilizar o teto de gastos. Mercado reage com receio: Ibovespa cai para 118.328 pontos, dólar sobe a R$ 5,36 e juros futuros aumentam significativamente.

Declarações de parlamentares apoiados por Bolsonaro sobre possível volta do auxílio emergencial provocam queda na Bolsa (1,1%) e alta do dólar (0,95%), refletindo preocupações com o cenário fiscal.

Na quinta-feira, 21 de janeiro de 2021, o mercado financeiro brasileiro acordou para uma notícia que o deixaria em pânico pelo resto do dia. Rodrigo Pacheco, senador mineiro candidato à presidência do Senado com apoio do presidente Jair Bolsonaro, havia declarado à agência Bloomberg que o país teria de "sacrificar algumas premissas econômicas" para viabilizar o retorno do auxílio emergencial. Arthur Lira, deputado alagoano e também apoiado por Bolsonaro na disputa pela presidência da Câmara, ecoou a mensagem, dizendo que um novo programa de auxílio precisaria acontecer "de forma que o mercado possa suportar". Essas palavras, pronunciadas por dois nomes centrais na política brasileira, foram suficientes para desencadear uma sequência de movimentos que refletia a apreensão dos investidores com as contas públicas do país.

O dólar, que havia aberto em queda graças ao otimismo internacional com o pacote de estímulo de 1,9 trilhão de dólares anunciado pela administração Joe Biden, inverteu sua trajetória ao longo do pregão. Fechou em alta de 0,95%, cotado em R$ 5,36, tendo tocado a máxima de R$ 5,40 durante o dia. A Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, sofreu ainda mais. O Ibovespa, seu principal índice, havia atingido 120.242 pontos pela manhã, mas terminou o dia em queda de 1,10%, fechando em 118.328 pontos. Era o terceiro dia consecutivo de perdas. O índice, que havia começado 2021 com ganhos acumulados de mais de 5% graças ao otimismo global com a mudança de governo nos Estados Unidos, agora acumulava uma perda de 0,57% no ano. Os contratos de juros futuros também subiram expressivamente, sinalizando que o mercado precificava riscos maiores à frente.

Camila Abdelmalack, economista-chefe da Veedha Investimentos, explicou o movimento. As declarações dos candidatos à presidência do Senado e da Câmara ocorriam em um contexto em que o cenário fiscal já era muito ruim. Para os investidores, a sensação era de que o Brasil passaria mais um semestre sem avançar nas pautas econômicas necessárias. Por isso, a Bolsa caiu, o dólar subiu e os juros futuros também aumentaram. As ações com maior peso no índice sofreram quedas generalizadas: as ordinárias da Petrobras recuaram 1,75%, enquanto as preferenciais perderam 2,16%. Entre os bancos, as preferenciais do Bradesco caíram 1,43% e as do Itaú recuaram 1,42%. As ordinárias da Vale se desvalorizaram 1,12%.

Pedro Lang, chefe de renda variável da Valor Investimentos, foi direto ao ponto: os discursos dos parlamentares apoiados por Bolsonaro foram ruins para os negócios. A ideia de flexibilização de gastos no Brasil, seja através de privatizações ou reformas, não tinha mais credibilidade porque não avançava. Havia esperança na privatização da Eletrobras, e a expectativa era de um primeiro semestre de 2021 mais calmo, com condições mais positivas no exterior. Mas o Brasil estava complicando seu próprio jogo.

A tensão no mercado era alimentada por questões estruturais que permaneciam sem resposta. As eleições para a presidência da Câmara e do Senado estavam marcadas para 1º de fevereiro, e essa proximidade deixava os investidores tensos porque não havia clareza sobre o Orçamento federal de 2021, que ainda não havia sido aprovado. Também sobravam dúvidas sobre como o governo pretendia reverter a trajetória de alta da dívida pública. Tudo isso aumentava a incerteza. Abdelmalack lembrou ainda que no final do ano anterior, a entrada de capital estrangeiro na Bolsa, com o real mais fraco, havia mascarado um pouco o desempenho real do mercado financeiro.

Pacheco havia tentado equilibrar sua mensagem. Reconheceu que o teto de gastos era uma medida importante e deveria ser observado, mas argumentou que o país vivia um estado de necessidade absolutamente excepcional, com pessoas morrendo e desempregadas. O Estado precisava socorrê-las. Como fazer isso seria o caminho a ser encontrado em alinhamento com o Ministério da Economia. Mas para o mercado, as nuances importavam menos que o sinal: havia disposição política para flexibilizar a austeridade fiscal.

A alta do dólar foi amenizada apenas na reta final do pregão, quando chegou a notícia de que a Índia havia autorizado a exportação de 2 milhões de doses da vacina produzida pela Oxford e AstraZeneca ao Brasil. Esse alívio foi breve. No mercado de juros futuros, a sinalização de aumento de gastos pressionou as taxas em toda a curva. O DI para janeiro de 2022 subiu de 3,25% para 3,375%. O DI para janeiro de 2023 subiu de 4,97% para 5,10%. O DI para janeiro de 2025 foi de 6,48% para 6,62%. E o contrato para janeiro de 2027 subiu de 7,15% para 7,27%. Cada movimento refletia a precificação de um risco fiscal maior nos próximos anos.

No exterior, o cenário era diferente. As Bolsas americanas fecharam praticamente estáveis, com o Dow Jones tendo leve queda de 0,04%, a Nasdaq subindo 0,05% e o S&P tendo alta de 0,03%. Na Europa, porém, as Bolsas também viraram e fecharam em queda, com Londres caindo 0,37%, Frankfurt perdendo 0,11% e Paris se desvalorizando 0,67%. O Banco Central Europeu havia mantido suas taxas de juros inalteradas, mas alertou para o aumento dos casos de Covid-19 e seus efeitos sobre a economia. Na China, o mercado fechou em alta, com o índice CSI300 subindo 1,62% e o índice de Xangai tendo alta de 1,07%, diante das expectativas de mais estímulo de Biden. Em Hong Kong, porém, a Bolsa fechou em queda de 0,12%, puxada para baixo pelas ações do Alibaba, do empresário Jack Ma, que havia reaparecido em vídeo após três meses sem fazer aparições públicas.

Vamos ter que sacrificar algumas premissas econômicas para poder manter alguma forma de socorro a essas pessoas
— Rodrigo Pacheco, candidato à presidência do Senado
As declarações dos candidatos à presidência do Senado e da Câmara são feitas num contexto em que o cenário fiscal é muito ruim. Para o mercado, a sensação é que vamos passar mais um semestre sem avançar nas pautas econômicas
— Camila Abdelmalack, economista-chefe da Veedha Investimentos
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