Silvio Santos foi o primeiro influenciador brasileiro, diz fundador da Play9

O primeiro youtuber foi Silvio Santos, porque abriu seu próprio canal
Paes Leme compara o pioneirismo de Silvio Santos com a autonomia dos criadores digitais contemporâneos.
Mark

Por que Paes Leme escolheu comparar Silvio Santos com influenciadores digitais? Parece uma provocação.

Mimi

É uma provocação, mas com propósito. Ele está dizendo que o conceito de "influenciador" — alguém que cria seu próprio canal de comunicação porque não consegue espaço em estruturas existentes — não é novo. Silvio Santos fez exatamente isso, mas precisou de uma concessão governamental. Hoje é trivial.

Mark

E por que a mídia tradicional demorou tanto a entender isso?

Mimi

Porque eles não viam criadores digitais como concorrência real. Eram "youtubers", algo menor, paralelo. A pandemia forçou o encontro. De repente, as pessoas estavam em casa, as redes sociais eram o único lugar onde a comunicação acontecia. Aí a mídia percebeu que podia colaborar em vez de competir.

Mark

Paes Leme diz que a Play9 reúne tanto nativos digitais quanto gente que veio da TV. Como isso funciona?

Mimi

Porque o poder mudou de lugar, mas a expertise não desapareceu. Felipe Neto entende de criação de conteúdo nativo. Fátima Bernardes entende de jornalismo, de credibilidade, de construção de narrativa. Juntos, eles têm audiência comparável à de uma emissora.

Mark

E essa ideia de que "todo mundo já é meio influenciador"?

Mimi

Ele está reconhecendo que a criação de conteúdo virou democrática. Você não precisa de permissão de ninguém. Mas isso também significa que o mercado vai se especializar. Os generalistas vão perder espaço para quem realmente entende de um tema.

Mark

Então Virginia Fonseca é exceção?

Mimi

Ela é um caso de alguém que conseguiu construir relevância generalista em um momento em que o mercado ainda permitia isso. Mas Paes Leme está dizendo que isso vai ficar mais raro. O futuro é dos especialistas.

  • A aparição de Virginia Fonseca como repórter especial da Copa do Mundo na TV Globo tornou visível uma ruptura que vinha se construindo há mais de uma década.
  • A mídia tradicional resistiu por anos a reconhecer criadores digitais como pares legítimos, só cedendo à realidade durante o isolamento da pandemia.
  • Paes Leme saiu da direção de esportes da Globo em 2016 para fundar a Play9, apostando que audiências somadas de influenciadores poderiam rivalizar com emissoras inteiras.
  • O mercado de influência caminha para valorizar especialistas temáticos e micro-influenciadores em detrimento dos grandes nomes generalistas.
  • A geração alfa, criada com celular na mão desde o berço, tende a naturalizar a produção de conteúdo como forma de existência pública.

Há algo de eterno na figura de quem abre seu próprio canal para falar diretamente ao povo — e João Pedro Paes Leme, fundador da Play9, enxerga nesse gesto a essência tanto de Silvio Santos quanto dos influenciadores digitais de hoje. O que mudou não foi o impulso humano de comunicar, mas o custo de entrada: onde antes era preciso uma concessão governamental, hoje basta um celular. Nos últimos quinze anos, esse rebaixamento de barreiras reconfigurou silenciosamente quem detém atenção, audiência e, por consequência, poder.

Quando a TV Globo anunciou Virginia Fonseca como repórter especial da Copa do Mundo no Domingão com Huck, o gesto condensou uma transformação de quinze anos. Para João Pedro Paes Leme, fundador da Play9 e autor de "A Era da Influência", esse momento não surgiu do nada — ele tem raízes em 2011, quando ainda jornalista de televisão, convidou o youtuber Felipe Neto para um quadro no Esporte Espetacular, intuindo que criadores digitais eram forças autônomas que a mídia tradicional ainda não sabia ler.

A comparação que Paes Leme faz é provocadora: Silvio Santos teria sido o primeiro influenciador brasileiro. Como os youtubers de hoje, ele trabalhou dentro de uma grande emissora até perceber que precisava de mais espaço — e então abriu seu próprio canal. A diferença é que Silvio precisou de uma concessão governamental; hoje, qualquer pessoa cria uma conta em cinco minutos. Essa democratização do acesso é o coração da mudança.

A mídia tradicional demorou a assimilar esse novo arranjo. Segundo Paes Leme, foi a pandemia que forçou emissoras e jornais a enxergar as redes sociais e os criadores como parceiros, e não como ameaças. A Play9 nasceu exatamente nessa brecha: reúne nativos digitais como Felipe Neto e Felipe Castanhari ao lado de nomes vindos da televisão, como Fátima Bernardes e Gabriela Prioli. Somadas, as audiências desses criadores se tornam comparáveis às de uma emissora.

Mas Paes Leme adverte contra a ilusão de que qualquer um pode replicar o fenômeno Virginia Fonseca da noite para o dia. O mercado amadurece em torno de autenticidade, relevância e propósito — e a tendência aponta para o declínio dos megainfluenciadores generalistas e a ascensão de especialistas temáticos e micro-influenciadores. O futuro da influência, sugere ele, pertence não a quem todos conhecem, mas a quem as pessoas buscam quando querem entender algo de verdade.

Quando a influenciadora Virginia Fonseca foi anunciada como repórter especial da Copa do Mundo no Domingão com Huck, pela TV Globo, isso representava algo que teria sido absolutamente impensável em Copas anteriores. A mudança não aconteceu da noite para o dia. Nos últimos 15 anos, segundo João Pedro Paes Leme, fundador da Play9 — uma das maiores agências de influência digital do país — o ecossistema da comunicação passou por um "salto quântico". E esse salto começou bem antes de Virginia Fonseca existir como fenômeno digital.

Em 2011, Paes Leme, então jornalista trabalhando em televisão, viu uma oportunidade que outros ainda não enxergavam. Felipe Neto era um youtuber em ascensão, comandando o canal "Não Faz Sentido", que já atraía multidões. Paes Leme o convidou para um quadro humorístico no Esporte Espetacular. Esse movimento — trazer criadores digitais para dentro de projetos de jornalismo esportivo — foi o pontapé inicial que o levaria, anos depois, a fundar a Play9 e a refletir profundamente sobre como a comunicação estava se transformando. Essas reflexões viraram livro: "A Era da Influência", lançado pela Sextante.

No início dos anos 2010, quando ainda chamavam esses criadores apenas de "youtubers", Paes Leme já percebia algo que a mídia tradicional ignorava: eles tinham seus próprios canais de comunicação. Não dependiam de emissoras, de rádios, de jornais. Eram potências autônomas. E essa observação o levou a uma conclusão provocadora. "O primeiro youtuber que existiu foi o Silvio Santos", brinca em entrevista à Folha. "Porque ele fez o mesmo: trabalhou na Globo e, quando precisava de mais espaço e viu que não ia conseguir, abriu o próprio canal. Mas ele precisou de uma concessão governamental, né?" A diferença, claro, é que hoje qualquer pessoa abre uma conta no Instagram, TikTok ou YouTube em cinco minutos.

Os veículos de mídia tradicional — emissoras, rádios, jornais, revistas — demoraram a entender essa mudança. Paes Leme avalia que foi só durante a pandemia que eles compreenderam que poderiam ocupar espaços fora de seu próprio ecossistema. "Quando se abriram para um sistema colaborativo em relação ao que as redes sociais e os criadores podem oferecer, teve um salto muito grande." Ele próprio deixou a direção de esportes da TV Globo em 2016 para fundar a Play9, uma agência que reúne tanto nativos digitais como Felipe Neto e Felipe Castanhari quanto criadores que vieram da mídia tradicional — Fátima Bernardes, Gabriela Prioli, Isabela Boscov. Quando você soma a audiência de alguns desses influenciadores, diz Paes Leme, é absolutamente comparável com a de uma emissora de televisão.

Essa audiência concentrada explica por que cada vez mais pessoas querem virar influenciadoras. Mas Paes Leme oferece uma perspectiva diferente: todo mundo já é "meio influenciador" porque todo mundo cria conteúdo. A geração alfa, nascida a partir de 2010, será a primeira que cresceu com celular em todos os lugares. "Dificilmente essa pessoa não vai ser protagonista e contadora de histórias." Para quem quer se profissionalizar, existem dois caminhos de monetização: anúncios em parceria com marcas ou pagamento direto — cursos, ferramentas de apoio de seguidores, clubes exclusivos.

Mas nem todo mundo que tenta conseguirá milhões de seguidores da noite para o dia como Virginia Fonseca. O mercado, segundo Paes Leme, amadurece em torno de uma tríade: autenticidade, relevância e propósito. E essa maturação está mudando a forma como o poder se distribui. "Nesse momento, estamos amadurecendo o mercado a ponto de essa pirâmide da influência encontrar cada vez menos esses megainfluenciadores generalistas e cada vez mais os grandes especialistas em temas, os micro e nanoinfluenciadores." O futuro não pertence aos nomes que todos conhecem, mas aos especialistas que as pessoas procuram quando querem saber sobre algo específico.

Quando se abriram para um sistema colaborativo em relação ao que as redes sociais e os criadores podem oferecer, teve um salto muito grande
— João Pedro Paes Leme, sobre a mudança na mídia tradicional durante a pandemia
Nesse momento, estamos amadurecendo o mercado a ponto de essa pirâmide da influência encontrar cada vez menos esses megainfluenciadores generalistas e cada vez mais os grandes especialistas em temas
— João Pedro Paes Leme, sobre a evolução do mercado de influência
Contattaci Domande frequenti