A imprensa russa, controlada pelo Kremlin, dedica pouco espaço às eleições brasileiras, sugerindo que o governo russo prefere manter sua visão sobre o pleito em sigilo. O Brasil é visto por Moscou como aliado estratégico no Sul Global, parceiro comercial para contornar sanções e membro importante do Brics, especialmente para transações em moedas nacionais.
Silêncio da mídia russa sobre eleição brasileira revela desinteresse do Kremlin
O silêncio sinaliza apenas uma coisa: o Kremlin não quer que você saiba
Por que o Kremlin se importaria com quem vence no Brasil? Não é muito distante?
Porque o Brasil é um terço da população da América Latina e 43% do território da região. É membro do Brics, o bloco que Moscou vê como sua alternativa à ordem ocidental. E porque a Rússia está sob sanções pesadas e precisa de parceiros que comprem seus fertilizantes, diesel e outros produtos sem usar o dólar.
Mas espera — quanto dessa análise vem de fontes oficiais russas versus especulação de analistas? O Shevchenko está imaginando que existem departamentos preparando relatórios. Isso é confirmado?
Não. Ele está dizendo que imagina que isso aconteça. O que é confirmado é que a mídia russa dedica pouco espaço ao assunto e que jornais ligados ao Kremlin falam sobre interesse em transações em moedas nacionais.
E qual é o risco real se Bolsonaro vencer?
Segundo o Izvestia, as negociações sobre desdolarização poderiam congelar completamente. Bolsonaro questionou publicamente se o Brasil deveria ficar no Brics. Isso afetaria os planos de Moscou de contornar sanções.
Mas o Ismailov disse que qualquer vencedor provavelmente manteria relações comerciais com a Rússia. Então qual é a diferença real?
A diferença é retórica e ideológica. Com Lula, o Brasil segue fortalecendo o Brics e a desdolarização. Com Bolsonaro, o Brasil se reaproxima dos EUA. Para Moscou, isso muda tudo — mesmo que o comércio continue.
E por que o Kremlin não fala abertamente sobre isso?
Porque a mídia russa é controlada pelo Estado. Se o Kremlin quisesse que seu público soubesse da posição oficial, os telejornais estariam cobrindo. O silêncio é uma escolha.
Mas isso assume que o Kremlin tem uma posição clara. E se ele realmente não tiver? Se estivesse genuinamente incerto?
Possível. Mas Shevchenko argumenta que o silêncio sinaliza desinteresse em se manifestar publicamente — não necessariamente desinteresse no resultado.
Então o Kremlin está apostando em ambos?
Parece estar. Os analistas russos dizem que a Rússia se sentirá confortável com qualquer um. Mas preferiria Lula.
O Pulso
- Nenhum grande telejornal russo cobriu as eleições brasileiras antes do primeiro turno em 4 de outubro
- Brasil e Rússia querem expandir comércio em moedas nacionais (real e rublo), hoje limitado a 10% das transações
- Rússia ocupa 9º pior lugar em ranking de liberdade de imprensa entre 180 países
- Analistas russos veem eleição como apertada, sem favorito claro entre Lula e Flávio Bolsonaro
A imprensa russa, controlada pelo Kremlin, dedica pouco espaço às eleições brasileiras, sugerindo que o governo russo prefere manter sua visão sobre o pleito em sigilo. O Brasil é visto por Moscou como aliado estratégico no Sul Global, parceiro comercial para contornar sanções e membro importante do Brics, especialmente para transações em moedas nacionais.
Análise da BBC mostra que a cobertura limitada da imprensa russa sobre as eleições brasileiras indica desinteresse do Kremlin em expor publicamente sua posição sobre o pleito, apesar de interesse econômico estratégico.
A imprensa russa quase não fala sobre as eleições brasileiras. Nos últimos dias antes do primeiro turno, marcado para 4 de outubro, nenhum grande telejornal do país cobriu o pleito — e para a maioria dos russos, que se informam pela televisão, o Brasil permanece invisível. Vitaly Shevchenko, analista de mídia russa da BBC Monitoring, vê nesse silêncio um sinal claro: o Kremlin não quer que seu público, dentro ou fora da Rússia, conheça a posição oficial de Moscou sobre a eleição.
Isso não significa que o governo russo seja indiferente ao resultado. Shevchenko imagina que departamentos do Ministério das Relações Exteriores e da inteligência externa estejam preparando relatórios sobre qual candidato traria mais benefícios à Rússia. Mas a estratégia é manter isso longe dos olhos públicos. A razão, segundo ele, é simples: o Kremlin prefere não se manifestar abertamente. O foco da mídia russa está na guerra da Ucrânia, e o Brasil, com pouco envolvimento no conflito, recebe pouco espaço. Ainda assim, o país ocupa um lugar importante na política internacional de Vladimir Putin — principalmente por ser membro do Brics, o bloco que Moscou vê como a alternativa emergente à ordem mundial dominada pelo que a máquina de propaganda do Kremlin chama de "anglo-saxões".
Os jornais russos que cobrem a eleição — todos ligados de alguma forma ao Kremlin, já que a Rússia é um dos países com menor liberdade de imprensa do mundo — revelam o que realmente importa a Moscou: dinheiro e estratégia. O jornal Izvestia, controlado por aliados de Putin, publicou uma longa reportagem destacando como o Brasil e a Rússia querem expandir o comércio em suas moedas nacionais, o real e o rublo. Hoje, apenas 10% das transações entre os dois países usam essas moedas; o resto passa pelo dólar e pelo euro. A ideia é simples e poderosa: se as transações fossem feitas em reais e rublos, elas escapariam do sistema SWIFT e dos bancos americanos e europeus, protegendo a Rússia das sanções ocidentais impostas por causa da invasão da Ucrânia. Esse modelo já funciona com a China, onde 99% do comércio bilateral foi convertido para rublos e yuans. A Rússia poderia investir seus reais excedentes diretamente no Brasil — em portos, agricultura, ou até comprar aeronaves Embraer e autopeças. Ou usar a moeda brasileira para pagar países terceiros que têm projetos na América Latina.
Mas tudo depende de quem vencer. Luiz Inácio Lula da Silva defende o fortalecimento do Brics e a transição para moedas nacionais. Seu principal adversário, Flávio Bolsonaro, está focado em se reaproximar dos Estados Unidos e questionou publicamente se o Brasil deveria permanecer no Brics — chamando-o de "bloco muito ideológico, usado para provocar os EUA". Uma possível vitória de Bolsonaro, segundo o Izvestia, poderia congelar completamente as negociações sobre a desdolarização. Famil Ismailov, editor da BBC News Russia, afirma que analistas russos veem a corrida como muito apertada e não indicam um favorito claro. Mas qualquer que seja o vencedor, provavelmente não haverá grandes mudanças nas relações comerciais — o Brasil precisa dos fertilizantes e diesel russos, e a Rússia precisa da carne, soja e café brasileiros. "Seja quem for o próximo presidente, o Kremlin parece estar satisfeito", diz Ismailov.
O jornal Vedomosti, que já foi uma das publicações mais independentes sobre economia russa antes de ser vendido a aliados de Putin em 2020, afirma que a Rússia "se sentirá confortável" interagindo com ambos os candidatos, mas estaria "um pouco mais confortável" com Lula. O Rossiyskaya Gazeta, jornal oficial do Kremlin, descreve a eleição como acirrada, com o escândalo do Banco Master afetando ambos os candidatos. O banqueiro Daniel Vorcaro é comparado a Ostap Bender, um trapaceiro fictício da era soviética — alguém que se tornou simultaneamente um trunfo e um problema para Lula e Bolsonaro. Segundo o jornal, Flávio alcançou Lula nas pesquisas e, em um eventual segundo turno, pode até ultrapassá-lo.
Os dois candidatos propõem modelos econômicos radicalmente diferentes. Lula aposta na manutenção do arcabouço fiscal combinado com aumento de investimentos públicos, infraestrutura, política industrial e programas sociais — em setembro, elevou o valor mínimo do Bolsa Família de R$ 600 para R$ 691 por mês. Flávio Bolsonaro propõe reduzir gastos públicos, criar um teto de gastos mais restritivo, retomar privatizações e diminuir a carga tributária. O Pravda, jornal comunista pouco influente mas ainda existente, vai além: afirma que o Brasil está frustrando os objetivos dos EUA de implementar uma nova Doutrina Monroe na América Latina, e que as eleições estão sendo usadas para restaurar a complacência política através de ameaças e manipulação.
A razão pela qual toda essa análise vem de jornais russos e não de declarações oficiais é reveladora. A Rússia ocupa o 9º pior lugar em um ranking de 180 países sobre liberdade de imprensa, publicado pela Repórteres Sem Fronteiras. Quase todos os órgãos de mídia independentes foram banidos, bloqueados ou declarados "agentes estrangeiros" ou "organizações indesejáveis". Todos os canais de TV independentes foram proibidos. Jornalistas são indiciados por "extremismo" e enfrentam penas severas, multas e até tortura. Diante disso, o silêncio da mídia russa sobre as eleições brasileiras não é acaso — é política. O Kremlin está observando, calculando, preparando seus próximos passos. Mas não quer que você saiba disso.
Citações Notáveis
A ausência de ampla repercussão na mídia sobre as eleições brasileiras sinaliza apenas uma coisa: o Kremlin não tem interesse em que o público, dentro e fora da Rússia, tome conhecimento da sua visão sobre o pleito.— Vitaly Shevchenko, analista de mídia russa da BBC Monitoring
Seja quem for o próximo presidente, o Kremlin parece estar satisfeito.— Famil Ismailov, editor da BBC News Russia