Brasil registrará mais de 19 mil casos anuais de câncer de colo do útero entre 2026-2028, representando aumento de 14% em relação ao triênio anterior. Câncer de colo do útero mata cerca de 20 mulheres diariamente no Brasil e é o mais letal entre mulheres com até 35 anos, com HPV responsável por 99% dos casos.
Setembro em Flor alerta sobre cânceres ginecológicos enquanto 6 em cada 10 brasileiras negligenciam exames
Ninguém passa por um câncer e continua sendo a mesma pessoa
Por que essa distância entre o que as mulheres sabem e o que fazem? Parece que 44% conhecem bem a vacinação, mas só 39% fizeram papanicolau no último ano.
É a diferença entre informação e confiança. Muitas mulheres ouvem falar sobre HPV e vacinação, mas não se sentem suficientemente informadas para agir. E há barreiras concretas — falta de tempo, constrangimento, acesso.
Mas a pesquisa ouviu apenas 800 mulheres entre 18 e 45 anos. Isso representa bem o Brasil inteiro? E quando você diz "não realizaram papanicolau", isso inclui mulheres que nunca precisaram ou que simplesmente não tiveram acesso?
Ótima pergunta. A pesquisa cobriu todas as classes sociais e regiões, então tem amplitude. Mas você está certo — "não realizaram" pode significar coisas diferentes. Pode ser negligência, pode ser falta de acesso, pode ser que a mulher não saiba que precisa.
E quanto ao câncer de ovário? A história de Ana Isabela mostra que mesmo fazendo exames, ela atrasou a ultrassonografia transvaginal. Como prevenir algo que não tem rastreio simples?
Esse é o ponto mais duro. Não há exame de rastreio para ovário como há para colo. O que funciona é estar atenta aos sintomas — mesmo que vagos — e manter contato regular com o médico. No caso dela, uma cólica aparentemente comum levou ao diagnóstico.
Mas quantas mulheres têm cólicas e não descobrem nada? A história dela é de sorte tanto quanto de vigilância. E ela teve acesso rápido ao ICC em 34 dias. Nem todas têm isso.
Verdade. Ela teve sorte no timing e no acesso. Mas o ponto é que quando o câncer de ovário é descoberto, muitas vezes já está avançado porque os sintomas são silenciosos. Isso torna a história dela ainda mais importante — mostra que mesmo com atraso, o tratamento funcionou.
A campanha fala em cinco tipos de cânceres ginecológicos, mas os números focam muito em colo do útero. Por quê?
Porque é o mais prevalente e o mais evitável. O HPV causa 99% dos casos de câncer de colo, e temos vacina e rastreio. É onde a prevenção realmente funciona. Os outros são mais raros ou mais difíceis de detectar.
Então o foco em colo do útero faz sentido epidemiologicamente, mas pode deixar os outros cânceres invisíveis? Quantas mulheres sabem que endométrio e ovário também são riscos?
Provavelmente poucas. E esse é exatamente o trabalho da campanha — trazer à luz o que está invisível. Cada tipo tem sua própria história de risco e prevenção.
El Pulso
- Brasil registrará mais de 19 mil casos anuais de câncer de colo do útero entre 2026-2028, aumento de 14%
- Câncer de colo do útero mata aproximadamente 20 mulheres diariamente no Brasil
- 61% das brasileiras não realizaram papanicolau no último ano
- HPV é responsável por 99% dos casos de câncer de colo do útero
- Estimativas do Inca: 9,6 mil casos anuais de câncer de endométrio e 8 mil de ovário para 2026-2028
Brasil registrará mais de 19 mil casos anuais de câncer de colo do útero entre 2026-2028, representando aumento de 14% em relação ao triênio anterior. Câncer de colo do útero mata cerca de 20 mulheres diariamente no Brasil e é o mais letal entre mulheres com até 35 anos, com HPV responsável por 99% dos casos.
Campanha Setembro em Flor alerta sobre cinco principais tumores ginecológicos. Pesquisa revela que 61% das brasileiras não fazem exame preventivo anual, apesar de reconhecerem importância da vacinação contra HPV.
A campanha Setembro em Flor, lançada pelo Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos em 2021, retorna este ano com um alerta direto: cinco tipos de câncer ginecológico — colo do útero, endométrio, ovário, vulva e vagina — continuam avançando entre as brasileiras, alimentados por um vazio entre o que as mulheres sabem e o que realmente fazem para se proteger.
Os números são severos. O Instituto Nacional de Câncer projeta mais de 19 mil novos casos anuais de câncer de colo do útero entre 2026 e 2028, um aumento de 14% comparado ao triênio anterior. Todos os dias, cerca de 20 mulheres morrem dessa doença no Brasil. É a principal causa de morte por câncer em mulheres com até 35 anos e a segunda mais letal entre aquelas com até 60 anos. O papilomavírus humano, o HPV, está por trás de 99% desses casos — um vírus tão comum que a maioria das pessoas o elimina naturalmente, mas quando a infecção persiste, pode levar anos para se transformar em tumor maligno.
O câncer de endométrio e o de ovário também crescem. O Instituto Nacional de Câncer estima 9,6 mil e 8 mil novos casos anuais, respectivamente, para o mesmo período. Cada um segue seu próprio padrão: o câncer de colo atinge mulheres jovens em idade fértil, frequentemente com exames preventivos atrasados há anos; o de endométrio concentra-se em mulheres na pós-menopausa, por volta dos 60 anos, com obesidade e diabetes associadas; o de ovário não respeita faixa etária, mas o histórico familiar pesa muito. O desafio do câncer de ovário é particular: não existe exame de rastreio simples e os sintomas iniciais são vagos, levando muitas pacientes a receber diagnóstico em estágios mais avançados.
Mas aqui está o paradoxo que a pesquisa do Instituto Locomotiva, encomendada pelo Grupo EVA, expõe com clareza: 61% das brasileiras não realizaram papanicolau no último ano. Apenas 39% fizeram esse exame de rotina, e apenas 22% realizaram o teste de DNA-HPV. Ao mesmo tempo, 44% das mulheres entrevistadas afirmam conhecer muito bem a vacinação contra HPV — um salto em relação aos 38% do ano anterior. Nove em cada dez reconhecem a importância da vacina. Mas apenas quatro em cada dez se sentem suficientemente informadas sobre ela. A pesquisa ouviu 800 mulheres entre 18 e 45 anos, de todas as classes sociais e regiões do Brasil.
As barreiras são múltiplas e reveladoras. Um quarto das mulheres (26%) desconhece para que serve o papanicolau. Entre as que não se vacinaram contra HPV — 39% das entrevistadas — a razão mais citada é a falsa impressão de que a vacinação não é indicada para sua idade. Há ainda uma distância entre reconhecer a importância da prevenção e realizá-la de fato. Rafaella Torres de Melo, cirurgiã oncológica ginecológica da Rede ICC Saúde, explica que cada tipo de câncer ginecológico exige abordagem própria: "Eles não são uma doença só. É muito importante saber que cada um tem a sua causa, os seus sinais e o seu tratamento." A médica destaca que o câncer de colo é o mais prevalente no Brasil, enquanto o de ovário é o mais grave justamente porque não há rastreio eficaz.
A prevenção, porém, existe e funciona. A vacina contra HPV é oferecida gratuitamente pelo SUS para meninas e meninos de 9 a 14 anos, com possibilidade de resgate até os 19 anos. O papanicolau continua sendo o principal exame de rastreio, também disponível pelo SUS, e agora o teste de DNA-HPV está sendo implantado — o Ceará é um dos primeiros estados a recebê-lo. Além disso, manter bons hábitos de vida, controlar o peso e praticar atividades físicas reduzem o risco, especialmente para cânceres como o de endométrio, cujos principais fatores de risco são obesidade e diabetes.
A história de Ana Isabela de Oliveira Brito, 36 anos, professora que mora em Banabuiú há 11 anos, ilustra tanto o desafio quanto a possibilidade de recuperação. Ela fazia exames preventivos anuais e seu médico solicitava ultrassonografia transvaginal, mas em janeiro de 2024 adiou esse exame. Só o realizou em agosto, quando um sintoma que parecia simples — uma cólica que ela associava à ovulação — levou à descoberta de uma massa no ovário direito. Em 34 dias, ela estava no Instituto do Câncer do Ceará. A biópsia confirmou um tumor em estágio inicial, mas de alto grau e agressivo. Diante do histórico familiar — um irmão teve linfoma de Hodgkin aos 21 anos — a médica sugeriu histerectomia radical. Como Isabela já tinha dois filhos e não desejava mais, consentiu rapidamente. O tratamento pelo SUS durou oito meses, incluindo a retirada do útero, ovários e trompas, além de seis sessões de quimioterapia. O período pós-cirúrgico foi doloroso, com complicações como reação alérgica forte, mas apoiada pela mãe, irmão, tia, amigos e pela rede de apoio de sua cidade, ela superou. Hoje, em remissão, pratica atividades físicas e segue buscando a cura. "Ninguém passa por um câncer e continua sendo a mesma pessoa", reflete.
O que a campanha Setembro em Flor busca fazer é fechar essa lacuna entre conhecimento e ação. Não basta que as mulheres saibam que o HPV existe ou que a vacinação importa. É preciso que entendam a relação específica entre certos cânceres e o vírus, que realizem o check-up anual com exames e testes de DNA-HPV, que desmistifiquem a vacinação na fase adulta. A detecção precoce é a janela de prevenção — lesões pré-malignas podem ser eliminadas antes de se tornarem câncer. Mas essa janela só se abre quando as mulheres realmente entram no consultório.
Citas Notables
Eles não são uma doença só. É muito importante saber que cada um tem a sua causa, os seus sinais e o seu tratamento— Rafaella Torres de Melo, cirurgiã oncológica ginecológica da Rede ICC Saúde
A infecção leva anos para virar um câncer. Esse tempo é nossa janela de prevenção— Rafaella Torres de Melo