Uma década após o referendo que prometia clareza e soberania, o Reino Unido colhe os frutos de uma escolha que nenhum governo conseguiu transformar em projeto estável. Sete primeiros-ministros em dez anos revelam não apenas crises de liderança, mas a dificuldade estrutural de um país que reduziu seu horizonte econômico e fragmentou sua coesão interna. Andy Burnham assume o cargo em julho de 2026 como herdeiro de um legado que ninguém quis assinar — e sem um mandato claro do eleitorado para reescrevê-lo.
Sete premiês em dez anos: como o Brexit desencadeou década de instabilidade política no Reino Unido
Sete premiês em dez anos, cada um saindo porque perdeu apoio político
Por que exatamente sete premiês em dez anos? Isso é normal em democracias parlamentares?
Não é normal. O sistema britânico concentra muito poder no primeiro-ministro, mas isso também o torna vulnerável. Quando perde apoio dentro do próprio partido, está acabado. O Brexit criou divisões tão profundas que nenhum premiê conseguiu unificar nem seu próprio partido.
E economicamente, o que mudou desde 2016?
O Reino Unido saiu de um mercado de 500 milhões de consumidores para depender de 68 milhões internos. As barreiras comerciais dificultaram as exportações. Produtividade caiu, salários não acompanharam, inflação ficou difícil de controlar. É estagnação estrutural, não conjuntural.
Burnham tem alguma vantagem que seus antecessores não tiveram?
Ele é visto como mais próximo do eleitorado tradicional trabalhista. Mas isso não resolve o problema fundamental: ele não tem um projeto claro. Não prometeu nada específico. É difícil fazer mudança estrutural sem uma visão.
A Irlanda do Norte é um problema real ou mais simbólico?
É real. Continua integrada ao mercado único europeu em vários aspectos, enquanto o resto da Grã-Bretanha não. Cria uma divisão concreta. E fortaleceu movimentos nacionalistas na Escócia e no País de Gales.
O Brexit pode ser revertido?
Não está na agenda de ninguém. Nem Burnham promete isso. O tema continua sendo o elefante na sala — ninguém quer falar sobre ele, mas está ali, estruturando tudo.
Então qual é a saída?
Ninguém sabe ainda. Os desafios permanecem os mesmos. Produtividade baixa, mercado menor, dificuldades comerciais. Burnham herda um país fragmentado e uma economia que não decolou.
El Pulso
- O Brexit não foi um evento, mas um gatilho: cada premiê que tentou administrar suas consequências acabou consumido por elas, criando um ciclo de instabilidade que dura até hoje.
- A saída do mercado único europeu encolheu o alcance econômico britânico de 500 milhões para 68 milhões de consumidores, deixando rastros de estagnação salarial, inflação persistente e desconfiança de investidores.
- A fragmentação não parou nas fronteiras econômicas — Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte aprofundaram movimentos separatistas, ameaçando a própria unidade do Reino Unido.
- Burnham chega ao poder sem ter apresentado um projeto ao eleitorado, o que limita sua capacidade de promover mudanças estruturais e o expõe à mesma vulnerabilidade que derrubou seus antecessores.
- O partido Reform UK cresce nas margens, e a relação com a União Europeia permanece o 'elefante na sala' — uma questão que nenhum governo ousou resolver de forma definitiva.
Uma década após o referendo que prometia clareza e soberania, o Reino Unido colhe os frutos de uma escolha que nenhum governo conseguiu transformar em projeto estável. Sete primeiros-ministros em dez anos revelam não apenas crises de liderança, mas a dificuldade estrutural de um país que reduziu seu horizonte econômico e fragmentou sua coesão interna. Andy Burnham assume o cargo em julho de 2026 como herdeiro de um legado que ninguém quis assinar — e sem um mandato claro do eleitorado para reescrevê-lo.
Andy Burnham entrou na sede do Partido Trabalhista em Londres no dia 20 de julho de 2026 como novo líder e futuro primeiro-ministro do Reino Unido. Sua posse chega poucas semanas após uma marca incômoda: dez anos do referendo do Brexit, o voto que colocou tudo em movimento — e que, desde então, não parou de cobrar seu preço.
Desde 2016, o país elegeu sete primeiros-ministros. David Cameron renunciou no dia seguinte ao resultado, derrotado pela campanha que ele mesmo convocou. Theresa May viu seu acordo rejeitado três vezes pelo Parlamento. Boris Johnson formalizou a saída da União Europeia, mas foi consumido pelo escândalo do Partygate. Liz Truss durou 45 dias — o mandato mais curto da história britânica — após seu mini-orçamento afundar a libra. Rishi Sunak tentou estabilizar o país, mas não conseguiu reverter o desgaste conservador. Keir Starmer devolveu o Partido Trabalhista ao poder em 2024, mas também não reaqueceu a economia nem recuperou popularidade. Agora, Burnham herda tudo isso.
O custo econômico é estrutural. Ao sair do mercado único europeu, o Reino Unido trocou um alcance de 500 milhões de consumidores por um mercado interno de 68 milhões. As barreiras comerciais dificultaram o acesso ao principal destino das exportações britânicas, resultando em crescimento reduzido, salários estagnados e confiança de investidores abalada. O dano, porém, não foi apenas econômico: movimentos nacionalistas se fortaleceram na Escócia e no País de Gales, e a Irlanda do Norte segue parcialmente integrada ao mercado europeu, criando uma divisão interna no próprio Reino Unido.
Burnham chega ao cargo com experiência como ex-ministro e prefeito da Grande Manchester, com promessas de renovar a comunicação do governo e enfrentar a crise do custo de vida. Mas enfrenta os mesmos desafios estruturais que derrubaram seus antecessores — e, segundo analistas, sem um projeto claro apresentado ao eleitorado. Dez anos após o referendo que prometia decisão e clareza, o Reino Unido ainda busca uma direção.
Andy Burnham entrou na sede do Partido Trabalhista em Londres na segunda-feira, 20 de julho de 2026, confirmado como novo líder e prestes a assumir o cargo de primeiro-ministro do Reino Unido. Sua posse ocorre poucas semanas após uma marca incômoda: dez anos desde o referendo do Brexit, o voto que pôs tudo em movimento. Naquela década, o Reino Unido elegeu sete primeiros-ministros diferentes. Sete. Cada um saiu porque perdeu o apoio político, cada um deixou o país um pouco mais fragmentado que encontrou.
Tudo começou em 23 de junho de 2016, quando 51,9% dos britânicos votaram pela saída da União Europeia. David Cameron, que havia feito campanha pela permanência, renunciou no dia seguinte. Theresa May chegou em seguida com o lema "Brexit means Brexit", mas enfrentou impasses sucessivos no Parlamento — seu acordo foi rejeitado três vezes. Boris Johnson venceu a disputa interna conservadora prometendo "concluir o Brexit", conquistou uma maioria parlamentar robusta e formalizou a saída em 31 de janeiro de 2020. Mas seu governo foi consumido por escândalos, especialmente o "Partygate", festas em Downing Street durante lockdowns. Liz Truss chegou em seguida e durou 45 dias — o mandato mais curto na história britânica — depois que seu "mini-orçamento" provocou turbulência nos mercados e queda da libra esterlina. Rishi Sunak tentou restaurar estabilidade, mas enfrentou baixo crescimento, greves e desgaste conservador após mais de uma década no poder. Keir Starmer levou o Partido Trabalhista de volta ao poder em 2024 após 14 anos, mas sua gestão não conseguiu reaquecer a economia nem recuperar popularidade. Agora Burnham herda tudo isso.
O custo econômico do Brexit é estrutural e profundo. Kai Enno Lehmann, professor de relações internacionais da Universidade de São Paulo, explica que o principal legado é a estagnação prolongada. O Reino Unido saiu do mercado único europeu, que tinha cerca de 500 milhões de consumidores, e ficou dependente de um mercado interno de aproximadamente 68 milhões de pessoas. As barreiras regulatórias e comerciais dificultaram o acesso ao principal destino das exportações britânicas. O resultado foi crescimento econômico reduzido, evolução de salários fraca, inflação difícil de controlar e confiança de investidores abalada.
Mas o dano não foi apenas econômico. O Brexit enfraqueceu a própria coesão do Reino Unido. A Irlanda do Norte continua integrada ao mercado único europeu em vários aspectos, criando uma divisão com o restante da Grã-Bretanha. Movimentos nacionalistas se fortaleceram, especialmente na Escócia e, mais recentemente, no País de Gales, onde o partido nacionalista venceu as eleições para o Parlamento galês. O sistema político britânico, que concentra muito poder no primeiro-ministro, favorece a alternância quando a popularidade cai. Como explica Eduardo Mello, professor de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas, o premiê tem maioria no parlamento e capacidade de passar legislações — desde que seu próprio partido não se volte contra ele. Quando perde popularidade, está vulnerável. E a última década foi uma sequência de premiês perdendo apoio.
Burnham chega ao cargo como ex-ministro e prefeito da Grande Manchester, considerado mais próximo do eleitorado tradicional trabalhista. Prometeu renovar a comunicação do governo e enfrentar a crise do custo de vida. Mas herda uma economia ainda marcada pelo baixo crescimento e pelos efeitos estruturais do Brexit. Os desafios permanecem praticamente os mesmos: produtividade baixa, mercado interno menor, dificuldades comerciais com a União Europeia e um sistema político fragmentado. Terá que enfrentar também o crescimento do partido Reform UK e definir uma estratégia clara para a relação com a União Europeia — tema que continua sendo, segundo Lehmann, "o elefante na sala" da política britânica.
Há um problema adicional. Os eleitores britânicos não chancelaram Burnham diretamente. Ele não deixou clara sua visão para o governo nem a sinalizou ao eleitorado. Como afirma Mello, "o Burnham não tem um projeto. Ele não prometeu nada para ninguém. Vai ser muito difícil ele fazer qualquer mudança estrutural sem isso". Dez anos após o referendo que prometia clareza e decisão, o Reino Unido segue em busca de direção.
Citas Notables
O Brexit enfraqueceu a própria união do Reino Unido. Hoje existe uma divisão entre a Irlanda do Norte, que continua integrada ao mercado único europeu em vários aspectos, e o restante da Grã-Bretanha.— Kai Enno Lehmann, professor de relações internacionais da USP
O Burnham não tem um projeto. Ele não prometeu nada para ninguém. Vai ser muito difícil ele fazer qualquer mudança estrutural sem isso.— Eduardo Mello, professor de relações internacionais da FGV