Série de tropeços do governo colombiano após terremoto desgasta Espriella e ameaça ministro

Terremoto de magnitude 7,4 matou 289 pessoas, feriu 4.187, danificou 134.342 imóveis e deixou milhares de famílias desabrigadas buscando reconstrução.
Não podemos esquecer que há um pai, um marido, um filho
Defesa do ministro Beltrán após ser fotografado em férias enquanto população sofria com terremoto.
Mark

Por que um presidente que nunca havia ocupado cargo eletivo enfrentaria justamente um terremoto como seu primeiro teste?

Mimi

Porque a vida não escolhe o momento. Espriella venceu a eleição com um discurso populista, mas a realidade não espera por experiência. Um terremoto de 7,4 de magnitude não se importa com sua inexperiência.

Mark

A distribuição de bolas de futebol com seu logo parece um erro óbvio. Como alguém comete isso?

Mimi

Porque ele estava em modo de campanha, não em modo de crise. Quando você passa a vida inteira fora da política, às vezes não vê a diferença entre conectar-se com pessoas e explorar seu sofrimento para ganho político.

Mark

E o ministro Beltrán em férias — isso foi simplesmente má sorte de timing?

Mimi

Não. Ele estava em férias enquanto 90% das casas colombianas não têm seguro contra terremotos. As pessoas estavam dormindo em abrigos improvisados. Ele era o ministro responsável pela reconstrução. O timing não é coincidência; é negligência.

Mark

Seus próprios aliados o criticaram. Isso não deveria tê-lo protegido?

Mimi

Deveria, mas não protegeu. Quando até o Centro Democrático, que o apoiou no segundo turno, pede sua cabeça, você sabe que cruzou uma linha que nem a política consegue defender.

Mark

A moção de censura pode realmente derrubá-lo?

Mimi

Pode, se o Pacto Histórico conseguir apoio do Centro Democrático e de outras legendas. Mas isso transforma uma crise de um ministro numa crise de governo. Espriella pode estar prestes a descobrir que inexperiência em política é um luxo que ninguém pode se dar ao luxo de ter em uma emergência.

  • Terremoto de magnitude 7,4 matou 289 pessoas e feriu 4.187
  • 134.342 imóveis danificados, 29.554 destruídos, 267 desabados
  • 90% das casas colombianas não têm seguro contra terremotos
  • Ministro Beltrán fotografado em férias em Santa Marta durante crise
  • Moção de censura contra Beltrán apresentada com 40 assinaturas necessárias

Espriella distribuiu bolas de futebol com logo político a crianças vítimas do terremoto, gerando comparação com Trump e críticas nas redes sociais. Ministro da Habitação Jamie Beltrán foi fotografado em férias em Santa Marta enquanto 90% das casas colombianas carecem de seguro contra terremotos.

Presidente Abelardo de la Espriella, estreante na política, acumula tropeços na resposta a terremoto que matou 289 pessoas, incluindo ministro flagrado em férias enquanto população sofre.

Abelardo de la Espriella nunca havia concorrido a um cargo eletivo antes de vencer a eleição presidencial colombiana. Três dias após sua posse, um terremoto de magnitude 7,4 sacudiu o país, matando 289 pessoas, ferindo mais de 4 mil e deixando dezenas de milhares de casas destruídas ou danificadas. O que deveria ter sido um momento para demonstrar liderança em crise transformou-se, rapidamente, numa sequência de decisões que expõem a inexperiência do novo governo e ameaçam desestabilizar sua base política.

O episódio mais visível ocorreu quando Espriella visitou Buenaventura, uma das cidades mais atingidas, acompanhado de sua esposa e membros do gabinete. Durante a visita, no domingo 16 de agosto, o presidente parou numa rua para distribuir bolas de futebol a crianças afetadas pelo tremor. Os objetos traziam o logotipo de seu movimento político. Um ativista local registrou a cena, que se espalhou pelas redes sociais e gerou comparações imediatas com Donald Trump, que havia sido criticado anos antes por distribuir rolos de papel a vítimas do furacão Maria em Porto Rico. A imagem reforçou a percepção de um governo mais preocupado com sua própria marca do que com o sofrimento real das pessoas.

No mesmo dia, Jamie Beltrán, ministro da Habitação e um dos principais aliados de Espriella desde a campanha, foi fotografado em férias com a família nas praias de Santa Marta, balneário no norte do país. Isso ocorria enquanto a população ainda procurava por corpos entre os escombros, menos de uma semana após o sismo. A situação era particularmente delicada porque, segundo dados do jornal El País, 90% das residências na Colômbia não possuem seguro que cubra danos causados por terremotos. As vítimas dependem das diretrizes do ministério liderado por Beltrán para reconstruir suas casas. Os números da destruição eram devastadores: 134.342 imóveis danificados, 29.554 completamente destruídos e 267 desabados.

Beltrán tentou se defender argumentando que havia viajado por pouco tempo para visitar a família que não via durante a semana. "Não podemos esquecer que, por trás do ministro, há um pai, há um marido, há um filho", disse. Mas a defesa não encontrou eco nem mesmo entre seus aliados políticos. Senadores do Centro Democrático, partido de direita que havia apoiado Espriella no segundo turno, criticaram duramente a atitude. Rafael Nieto Loaiza apontou o contraste entre o ministro em férias e as famílias dormindo em abrigos improvisados após perder tudo. Andrés Forero sugeriu que Beltrán deveria renunciar, alertando que sua permanência no cargo estava arrastando o presidente para uma crise desnecessária.

A pressão política ganhou forma concreta quando Alejandro Toro, deputado do Pacto Histórico, partido do ex-presidente Gustavo Petro, anunciou que apresentaria uma moção de censura contra Beltrán. Toro afirmou que o país não podia se dar ao luxo de ter um ministro alheio ao sofrimento do povo enquanto milhares de famílias não sabiam onde dormiriam nos próximos meses. Na terça-feira 18 de agosto, Toro informou que já havia reunido as 40 assinaturas necessárias para debater o assunto na Câmara dos Deputados. Para que Beltrán fosse efetivamente destituído, porém, a moção precisaria ser aprovada pela maioria dos deputados em votação posterior.

O caminho para a eventual saída do ministro é complexo politicamente. O Pacto Histórico possui a maior bancada, com 42 de 183 deputados, mas precisará de apoio de outras legendas, como o Centro Democrático, segunda maior força na Casa, para aprovar a moção. Isso significa que a crise de Beltrán poderia se transformar numa negociação política mais ampla, com consequências imprevisíveis para o governo.

Os tropeços não se limitaram ao ministro da Habitação. Na sexta-feira 14 de agosto, Rodrigo Lara, coordenador da pasta do Interior, propôs que operadoras de celular doassem dados móveis às crianças para permitir educação virtual diante da destruição de escolas. A sugestão foi rapidamente questionada por especialistas, incluindo Paula Moreno, que havia sido ministra da Cultura no governo de Álvaro Uribe. Ela apontou que a região do Pacífico, onde o terremoto causou maior destruição, não possui conectividade adequada à internet e as crianças não têm condições de comprar celulares. O que era necessário, segundo ela, era mão de obra para agilizar a reconstrução.

Na semana anterior aos episódios de Beltrán, Espriella já havia enfrentado críticas pela falta de organização na coordenação da ajuda internacional. O governo autorizou a atuação de equipes estrangeiras de busca e resgate de apenas quatro países: Estados Unidos, Israel, Equador e El Salvador. Todas as nações são governadas por líderes alinhados ideologicamente ao presidente colombiano, embora Bogotá negue que a escolha tenha sido motivada por critérios políticos. A decisão foi anunciada mais de dois dias após o terremoto, quando as operações de resgate se aproximavam do fim da janela crítica de 72 horas, período considerado decisivo para encontrar sobreviventes. Para um presidente que chegou ao poder com discurso populista de enfrentamento à classe política tradicional, a série de decisões questionáveis está transformando sua estreia no poder numa crise de credibilidade que pode definir seu governo antes mesmo de completar duas semanas.

O país não pode se dar ao luxo de ter um ministro alheio ao sofrimento do povo enquanto milhares de famílias não sabem onde vão dormir nos próximos meses
— Alejandro Toro, deputado do Pacto Histórico
Ao permanecer no cargo, ele está arrastando o presidente Abelardo para a resolução de um problema no qual não tem envolvimento
— Andrés Forero, senador do Centro Democrático
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