A PEC é bandeira eleitoral de Lula e poderia melhorar sua popularidade, mas resultado das urnas enfraqueceu o governo com vitória apertada de Flávio Bolsonaro. Oposição e empresários mobilizam senadores para não comparecerem à votação e impedir quórum, argumentando que bônus eleitoral de Lula foi esvaziado.
Senado mantém votação da PEC 6x1 apesar de pressão da oposição após eleições
Governo muito fragilizado pelo resultado das urnas
Por que Alcolumbre mantém a votação agora, se os resultados das eleições enfraqueceram tanto o governo?
Ele está em uma posição complicada. Manter a pauta mostra lealdade ao governo, mas a dinâmica mudou completamente. O PL elegeu 19 senadores e terá a maior bancada em 2027, e Rogério Marinho, que é contra a PEC, é o candidato preferido deles para a presidência do Senado em fevereiro.
Espera — então Alcolumbre está votando uma medida que pode desagradar a bancada que vai decidir se ele continua na presidência? Isso parece contraditório.
Exatamente. Mas se ele adiasse agora, pareceria que as eleições o intimidaram. É um dilema político real.
E quanto aos números? Ele tem 49 votos garantidos?
Ninguém está dizendo que tem. O governo está tentando negociar, mas a oposição e os empresários estão mobilizando senadores para não comparecerem. Se não há quórum, a votação não acontece.
Mas aqui está a questão: quantos senadores já se reelegeram ou perderam? Se a maioria não enfrenta mais pressão eleitoral, por que o governo acha que consegue os votos?
Porque alguns ainda têm interesse em manter boas relações com o governo, ou porque acreditam na medida. Mas você está certo — a pressão diminuiu muito.
E a proposta em si? Qual é o impacto real de reduzir de 44 para 40 horas?
Dois meses após a promulgação, cai para 42 horas. Depois, 12 meses depois, vai para 40. Sem redução salarial. É uma mudança significativa para trabalhadores formais.
Mas quem paga por isso? Os empresários estão contra porque temem custos. O texto diz que não pode haver redução salarial, mas como isso funciona na prática?
Essa é a questão que os empresários estão levantando. A PEC não especifica o mecanismo.
Então a votação de terça é só o começo da discussão, não é a votação final?
Sim. Terça começa a discussão. Depois há cinco sessões de discussão antes da primeira votação, e mais três antes da segunda. Mas podem encurtar isso por acordo.
Então quando é que realmente votam?
Ninguém sabe ao certo. Depende de quantos senadores comparecem e se conseguem um acordo.
El Pulso
- PEC reduz jornada de 44 para 40 horas semanais em duas etapas: 42 horas em 60 dias, depois 40 horas em 12 meses
- Flávio Bolsonaro venceu por 2,3 milhões de votos; PL elegeu 19 senadores e terá 28 na próxima legislatura
- Proposta precisa de 49 votos dos 81 senadores em dois turnos de votação
- Oposição e empresários mobilizam senadores para não comparecerem e impedir quórum
A PEC é bandeira eleitoral de Lula e poderia melhorar sua popularidade, mas resultado das urnas enfraqueceu o governo com vitória apertada de Flávio Bolsonaro. Oposição e empresários mobilizam senadores para não comparecerem à votação e impedir quórum, argumentando que bônus eleitoral de Lula foi esvaziado.
O Senado segue com discussão da PEC que reduz jornada de trabalho de 6x1 para 40 horas semanais nesta terça, enquanto oposição tenta adiamento após resultado apertado das eleições presidenciais.
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, decidiu manter para terça-feira a discussão de uma proposta de emenda constitucional que eliminaria a jornada de trabalho 6x1 no Brasil, transformando-a em uma semana de 40 horas com duas folgas obrigatórias. A decisão acontece em um momento delicado: as eleições de domingo deixaram o governo enfraquecido, com Flávio Bolsonaro vencendo por margem apertada de 2,3 milhões de votos, e o PL elegendo 19 senadores que formarão a maior bancada da Casa a partir de 2027, com 28 congressistas ao todo.
A redução da jornada é uma das principais bandeiras eleitorais do presidente Luiz Inácio Lula, e sua aprovação poderia resgatar popularidade em um momento crítico — faltam apenas três semanas para o segundo turno. Mas o resultado das urnas criou um cenário muito menos favorável do que o governo esperava. O ministro José Guimarães, de Relações Institucionais, afirmou na segunda-feira que o governo mantém o plano de aprovar a PEC ainda esta semana, minimizando o impacto do resultado eleitoral. Segundo ele, o clima "não mudou nada" e "a eleição está empatada". Mesmo assim, a pressão é evidente: Alcolumbre agendou três sessões plenárias de discussão para esta semana, período em que governo e oposição tentarão medir os ânimos antes da votação final. A proposta precisa de 49 votos dos 81 senadores em dois turnos de votação.
A oposição e entidades empresariais ligadas ao comércio, serviços e indústria começaram uma mobilização para impedir a aprovação. A estratégia é simples: convencer senadores a não comparecerem à sessão de votação, negando ao governo o quórum mínimo necessário. A avaliação entre os empresários é de que o bônus eleitoral de Lula com a aprovação da medida foi esvaziado diante de um resultado tão apertado no primeiro turno. Além disso, muitos senadores já se reelegeram ou perderam no domingo, reduzindo a pressão eleitoral sobre suas decisões. Alguns candidatos ao governo de seus estados ainda enfrentarão o segundo turno no dia 25, dividindo atenções.
O líder do PL no Senado, Carlos Portinho, reeleito no domingo, afirmou que o governo terá dificuldade de atrair senadores para a votação. "Muitos senadores eleitos, muitos ausentes, e quem precisa colocar quórum para aprovar depois das cinco sessões de discussão é o governo, muito fragilizado pelo resultado das urnas e por erros que cometeu", disse. A oposição já demonstrou sua estratégia na votação anterior do relatório na Comissão de Constituição e Justiça: deixar as críticas aos senadores em meio de mandato, que estariam menos vulneráveis a repercussões negativas por votar contra a medida.
Por trás da disputa pela 6x1 existe uma outra batalha política: a eleição da nova mesa diretora do Congresso em fevereiro, quando a nova composição de forças do Senado já estará em vigor. Alcolumbre deseja se reeleger para a presidência, mas o PL, fortalecido, tem seu próprio candidato: o senador Rogério Marinho, coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro e crítico da PEC que acaba com a 6x1. Marinho assinou uma proposta alternativa que torna a jornada de trabalho flexível, definida por acordo individual com pagamento por hora trabalhada. Alcolumbre também não conseguiu a reeleição do governador do Amapá, Clécio Luiz, de seu grupo político, enfraquecendo ainda mais sua posição.
Se a articulação do governo com Alcolumbre e outros líderes não funcionar na terça-feira, a PEC seguirá pelo rito convencional: cinco sessões de discussão antes da primeira votação, seguidas de mais três sessões antes da segunda votação. Embora o regimento preveja esse intervalo, em geral ele é encurtado por acordo, permitindo que os dois turnos ocorram no mesmo dia. A proposta em si é clara: reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas, com concessão obrigatória de duas folgas semanais, uma delas preferencialmente aos domingos. A transição ocorre em duas etapas: primeiro, 60 dias após a promulgação, a jornada cai para 42 horas; depois, 12 meses mais tarde, chega aos 40 horas. A redução não pode resultar em corte salarial. O que permanece incerto é se o Senado conseguirá votar a medida ainda esta semana ou se a pressão política pós-eleitoral conseguirá adiar a decisão.
Citas Notables
Muitos senadores eleitos, muitos ausentes, e quem precisa colocar quórum para aprovar depois das cinco sessões de discussão é o governo, muito fragilizado pelo resultado das urnas e por erros que cometeu.— Carlos Portinho, líder do PL no Senado
O clima não mudou nada e a eleição está empatada.— José Guimarães, ministro de Relações Institucionais