Senado aprova redução de combustíveis com receita do petróleo e abre subsídios

Receita extraordinária de petróleo para amortecer o prejuízo dos setores afetados
O projeto usa a volatilidade do mercado internacional para financiar subsídios domésticos em combustíveis e fertilizantes.
Mark

Por que o governo precisou contornar a Lei de Responsabilidade Fiscal para fazer isso? Não poderia ter feito de outro jeito?

Mimi

A LRF proíbe benefícios fiscais sem compensação clara. O governo está usando receita extraordinária de petróleo, mas isso é temporário e volátil. A lei não permite criar despesas permanentes com receita flutuante. Então criaram uma exceção para 2026.

Mark

Isso significa que em 2027 essas medidas desaparecem?

Mimi

Não exatamente. As travas orçamentárias entram em vigor para conter o crescimento dos gastos. É uma forma de dizer: usamos a renda extra agora, mas controlamos o efeito depois.

Mark

E os fertilizantes? Por que incluir isso em um projeto sobre combustíveis?

Mimi

Porque ambos foram afetados pela guerra no Irã. O Brasil importa 85% dos fertilizantes que usa. O governo viu a oportunidade de subsidiar a produção doméstica enquanto tinha receita extra de petróleo.

Mark

Isso parece oportunismo político, não?

Mimi

É. A inclusão de benefícios setoriais em anos eleitorais é padrão no Congresso. Em 2022 fizeram algo semelhante. Mas neste caso há uma lógica econômica real por trás — amortecer choques externos.

Mark

E a Copa do Mundo Feminina? Como entra nisso?

Mimi

É um jabuti puro. Não tem relação com combustíveis ou fertilizantes. Mas quando um projeto passa pelo Congresso, deputados e senadores aproveitam para incluir suas prioridades. A Copa recebeu isenção tributária no mesmo pacote.

  • Senado aprovou com 61 votos favoráveis e 2 contrários
  • Benefício fiscal para fertilizantes de R$ 5 bilhões entre 2027 e 2031
  • Brasil importa mais de 85% dos fertilizantes que usa
  • Governo espera reduzir R$ 10 bilhões em despesas obrigatórias em 2027
  • Subvenção de até R$ 1,2 bilhão para produtores de etanol entre maio e agosto de 2026

Projeto aprovado com 61 votos favoráveis permite compensar redução tributária em combustíveis com receita extraordinária da venda de petróleo. Medida inclui benefícios fiscais para fertilizantes (R$ 5 bilhões até 2031) e isenções para Copa Feminina, contornando restrições da Lei de Responsabilidade Fiscal.

Senado aprova projeto que permite usar receita extra de petróleo para reduzir impostos sobre combustíveis, com subsídios adicionais para fertilizantes e Copa do Mundo Feminina 2027.

O Senado aprovou nesta quarta-feira um projeto que transforma a volatilidade do mercado internacional de petróleo em instrumento de política fiscal doméstica. Com 61 votos a favor e apenas dois contra, os senadores autorizaram o governo a usar receitas extraordinárias da venda de petróleo para reduzir impostos sobre combustíveis — uma medida que, em tese, amortece o impacto de crises globais sobre o preço do diesel, da gasolina e do etanol que os brasileiros pagam nos postos.

O texto já havia passado pela Câmara e segue agora para sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas o que começou como uma proposta focada em combustíveis transformou-se em algo bem mais amplo. O projeto recebeu uma série de dispositivos alheios ao tema original — os chamados jabutis — que concedem subsídios para a indústria de fertilizantes, para o setor de minerais críticos e estratégicos, e isenções para a Copa do Mundo Feminina que o Brasil sediará em 2027.

O contexto internacional explica parte dessa urgência. A guerra no Irã elevou o custo dos combustíveis e de insumos essenciais para a cadeia produtiva nacional, como os fertilizantes. Simultaneamente, esse mesmo cenário de instabilidade geopolítica valorizou o petróleo e o gás extraídos no Brasil. O projeto tenta usar essa renda extra para amortecer o prejuízo dos setores afetados — uma estratégia que faz sentido econômico, mas que exigiu contornar barreiras legais.

A Lei de Responsabilidade Fiscal e a Lei de Diretrizes Orçamentárias proíbem a concessão de benefícios fiscais sem indicação clara da fonte para compensá-los e do impacto nas contas do governo. A LDO especificamente veda a ampliação, prorrogação ou extensão de gastos tributários e a criação de novas despesas obrigatórias. O projeto, então, cria uma exceção para 2026, contornando essas normas. Essa prática de incluir benefícios setoriais e estratégias com fins eleitorais costuma ser aprovada em anos de eleição no Congresso — em 2022, meses antes das eleições, o Congresso aprovou uma PEC que autorizava um estado de emergência para permitir ao governo Bolsonaro criar uma série de benefícios às vésperas do pleito.

Pela proposta aprovada, o governo poderá reduzir tributos sobre combustíveis e compensar a perda de arrecadação com royalties, participações especiais da União decorrentes da exploração de petróleo ou gás natural, impostos recolhidos pelo setor de óleo e gás e dividendos de estatais. A redução de impostos federais incidirá sobre a importação, produção e comercialização de óleo diesel rodoviário, biodiesel, gasolina, etanol e querosene de aviação. Para manter a competitividade dos biocombustíveis, qualquer redução tributária na gasolina deve preservar a vantagem competitiva do etanol — se a tributação federal da gasolina cair 30% ou mais, as alíquotas sobre o etanol deverão ser zeradas. O governo fica autorizado ainda a conceder subvenção aos produtores de etanol para compensar perdas de competitividade, com previsão de até R$ 1,2 bilhão para o período entre maio e agosto de 2026.

Os fertilizantes recebem benefício fiscal de R$ 5 bilhões entre 2027 e 2031, destinado a produtores brasileiros de fertilizante ou de suas matérias-primas — sejam de origem sintética, como amônia e ureia, de minérios e rochas como calcário e potássio, ou de origem orgânica como esterco animal. A deputada Marussa Boldrin, relatora do projeto na Câmara, apontou que apesar de o Brasil responder por 8% do mercado global de fertilizantes, a demanda brasileira é atendida via importações, que representam mais de 85% do total empregado nas lavouras.

A medida aprovada também tira do limite de gastos previsto no Arcabouço Fiscal R$ 2,5 bilhões de investimentos em defesa e permite antecipação de 2027 para 2026, em até R$ 3 bilhões, de investimentos em educação e saúde bancados pelo Fundo Social. Para conter o avanço dos gastos em 2027, o texto prevê duas travas: a primeira permite, em caso de déficit projetado, desvincular da Receita Corrente Líquida o crescimento de determinados fundos; a segunda limita o aumento desses recursos ao teto previsto no arcabouço, de no máximo 2,5% acima da inflação. Segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, com essas travas o governo deve reduzir cerca de R$ 10 bilhões em despesas obrigatórias em 2027, abrindo espaço fiscal para outras demandas discricionárias e para a trajetória dos resultados fiscais.

Há uma diminuição, uma mitigação desse ritmo de crescimento que será percebido no ano que vem em torno de R$ 10 bilhões, abrindo espaço fiscal importante para outras demandas discricionárias
— Dario Durigan, ministro da Fazenda
Apesar de o Brasil responder por 8% do mercado global de fertilizantes, a demanda brasileira tem sido atendida via importações, que representam acima de 85% do total
— Marussa Boldrin, deputada relatora do projeto na Câmara
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