Semana do Clima em Nova Iorque reúne 100 mil participantes apesar de "silenciamento climático"

Comece antes de ser obrigado a fazê-lo
A primeira-ministra da Islândia apela aos líderes mundiais para acelerarem a transição energética antes que as crises os forcem a agir.
Mark

Porque é que a Semana do Clima em Nova Iorque é importante se os líderes estão a evitar falar sobre o assunto?

Mimi

Porque mesmo com o "silenciamento climático", mais de 100 mil pessoas mostraram-se presentes. E os que falaram — a Austrália, a Islândia, o Reino Unido — ofereceram argumentos que vão além da moral ambiental. Falaram de segurança nacional, de economia, de estratégia militar.

Luke

Mas espera. A administração Trump acabou de gastar quatro mil milhões de dólares a travar energia eólica offshore. Como é que isso se encaixa no argumento de que o imperativo económico está presente?

Mimi

Boa pergunta. A verdade é que há duas economias em conflito. A administração Trump está a proteger combustíveis fósseis. Mas a Ikea está a poupar milhões com painéis solares. Ambas estão a fazer o que acreditam ser economicamente racional.

Mark

E a história da Islândia — é um exemplo realista para outros países?

Mimi

A Islândia teve sorte geográfica. Tem geotermia debaixo dos pés. Mas o que é transferível é o modelo político: consenso suprapartidário, financiamento que não deixa as famílias para trás, apoio inabalável. Isso pode funcionar com qualquer fonte renovável.

Luke

Mas quanto tempo levou? Décadas. E o mundo tem quanto tempo para fazer isto à escala global?

Mimi

Exatamente. É por isso que os militares britânicos estão a falar de veículos híbridos. É por isso que Selwin Hart diz que a crise no Irão é um alerta. O tempo está a acabar.

Mark

Então o silenciamento climático é real, mas a mudança está a acontecer à mesma?

Mimi

Está a acontecer, mas não porque os líderes encontraram coragem. Está a acontecer porque as empresas descobriram que é lucrativo, porque os militares percebem que é uma questão de segurança, porque as crises estão a forçar a mão.

Luke

E se a economia mudar? Se o petróleo ficar barato de novo?

Mimi

Então voltamos ao ponto de partida. Por isso é que o consenso político importa. Por isso é que a Islândia construiu algo que durou através de vários governos.

  • Semana do Clima 2024 reuniu mais de 100 mil participantes em Nova Iorque
  • Islândia aquece 90% das casas com energia geotérmica desde os anos 1970
  • Administração Trump gastou quase 4 mil milhões de dólares a travar energia eólica offshore
  • Ikea anunciou novo parque solar na Carolina do Sul com 178 mil painéis solares

A Semana do Clima 2024 reúne mais de 100 mil participantes, mas líderes políticos e empresariais evitam falar sobre crise climática devido a guerras e inflação. Austrália e Islândia apresentam exemplos de sucesso na transição energética, com a Islândia a aquecer 90% das casas com energia geotérmica desde os anos 1970.

A Assembleia-Geral da ONU e a Semana do Clima arrancaram em Nova Iorque com líderes mundiais a debaterem a transição para energias renováveis, apesar do "silenciamento climático" causado por guerras e crises económicas.

A Assembleia-Geral das Nações Unidas abriu as portas em Nova Iorque esta terça-feira com António Guterres a proferir o seu último discurso como secretário-geral da organização. Ao seu lado, Lula da Silva, Donald Trump e Emmanuel Macron também tomaram a palavra durante o debate de alto nível, que se estenderá até ao dia 28. Mas foi a Semana do Clima, que decorre em paralelo com a assembleia, que trouxe à capital norte-americana mais de 100 mil participantes vindos da política, dos negócios e do ativismo — a maior edição do evento desde que começou em 2009.

O timing não é casual. Nos últimos meses, o planeta enfrentou uma sucessão de crises climáticas de proporções sem precedentes: ondas de calor extremo varreram a Europa e os Estados Unidos, incêndios florestais devastaram África, inundações súbitas assolaram a Ásia, e um fenómeno El Niño de magnitude recorde alterou padrões meteorológicos globais. Seria de esperar que estas catástrofes dominassem as conversas em Nova Iorque. Não foi bem assim. Helen Clarkson, diretora executiva do Climate Group, a organização responsável pela Semana do Clima, foi clara: houve uma "desconexão" entre a intensidade dos desastres climáticos e a disposição dos líderes para os discutir. Guerras, inflação e turbulências económicas ocuparam o centro do palco, deixando a crise climática numa posição secundária — um fenómeno que Clarkson designou como "silenciamento climático".

Mas Clarkson também ofereceu uma perspetiva diferente. As sondagens mostram que as pessoas se preocupam tanto com o custo de vida como com o clima. O desafio, segundo ela, é que os líderes encontrem a coragem para estabelecer essa ligação, para unir os pontos entre a segurança económica e a estabilidade climática. Foi precisamente isso que alguns oradores tentaram fazer ao longo da semana. Em vez de debater a paralisia política ou os retrocessos nas políticas climáticas — como a decisão recente da administração Trump de gastar quase quatro mil milhões de dólares em dinheiro dos contribuintes para travar projetos de energia eólica offshore — os discursos concentraram-se nas razões económicas e de segurança que tornam a transição energética inevitável.

A Austrália e a Islândia ofereceram dois estudos de caso contrastantes. Anthony Albanese, primeiro-ministro australiano, abriu a semana falando sobre os efeitos cada vez mais frequentes e intensos da crise climática no seu país e sobre os esforços para apoiar outras nações do Pacífico. Kristrún Frostadóttir, primeira-ministra da Islândia, fechou o evento com uma história de transformação que começou na década de 1970, quando a maioria das casas islandesas dependia de petróleo importado para aquecimento. A crise mundial do petróleo forçou o país a procurar alternativas. O que encontrou estava literalmente debaixo dos seus pés: energia geotérmica. Em poucos anos, Reykjavík construiu um sistema de aquecimento urbano de grande escala. Outras cidades seguiram. Hoje, quase todas as casas na Islândia são aquecidas com energia renovável, com mais de 90 por cento proveniente de fontes geotérmicas. Frostadóttir sublinhou que isto exigiu apoio político inabalável, mecanismos de financiamento que permitissem às famílias fazer a transição sem custos proibitivos, e — talvez o mais raro nos dias de hoje — um consenso suprapartidário que perdurou através de vários governos.

Os argumentos de segurança nacional também ganharam espaço. Ed Miliband, ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, descreveu a contínua dependência dos combustíveis fósseis como uma "montanha russa" de instabilidade, apontando para a invasão da Ucrânia pela Rússia e a guerra dos EUA no Irão como exemplos de como essa dependência alimenta conflitos geopolíticos. Selwin Hart, secretário-geral adjunto da ONU para a ação climática, foi mais direto: a crise no Irão está a servir como um alerta para que países, empresas e pessoas quebrem a dependência dos combustíveis fósseis e acelerem a transição. O tenente-general Richard Nugee, oficial reformado do Exército Britânico, trouxe uma perspetiva militar: as Forças Armadas precisam de ser capazes de operar em ambientes que estão a mudar rapidamente. As águas do Golfo estão a ficar tão quentes que já não conseguem arrefecer os motores dos navios. Os veículos blindados poderiam tornar-se híbridos, oferecendo vantagens estratégicas além da redução de emissões.

Mas talvez o sinal mais claro de que a transição é inevitável venha do setor privado. Karen Pflug, diretora de sustentabilidade do Ingka Group — o maior operador de lojas da Ikea — revelou que a eficiência energética nas suas unidades permitiu à empresa poupar milhões de dólares anualmente. A empresa acaba de anunciar um novo parque solar na Carolina do Sul com 178 mil painéis solares. "Independentemente do que esteja a acontecer do ponto de vista político, isto faz muito sentido para os negócios", disse Pflug. O imperativo económico está presente. Enquanto os líderes políticos navegam pelas guerras e crises, as empresas já descobriram que a transição energética não é apenas uma obrigação moral — é um investimento lucrativo. A Semana do Clima de Nova Iorque revelou uma verdade incómoda: a mudança pode estar a acontecer não porque os líderes encontraram coragem para unir os pontos, mas porque o dinheiro finalmente está do lado certo.

Houve uma desconexão este verão — período em que sentimos os efeitos das alterações climáticas como em nenhum outro ano — em relação à disponibilidade dos líderes para falar sobre este assunto
— Helen Clarkson, CEO do Climate Group
Comece antes de ser obrigado a fazê-lo. Construa a resiliência antes que a crise a ponha à prova
— Kristrún Frostadóttir, primeira-ministra da Islândia
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