Sem CEP, sem existência: líder do Morro da Kibon relata como o endereço digital mudou a vida da comunidade

Uma família de quatro pessoas (mãe, tia e três crianças) morreu em incêndio no morro, sem que o socorro conseguisse localizar a casa a tempo.
Não ter CEP é não ter dignidade
Leo da Kibon resume o que a falta de endereço significou para o Morro da Kibon, em Santo André.
Mark

O que faz um CEP ter tanto peso numa história como essa?

Mimi

Sem ele, o morro ficava fora dos registros. Leo conta que faltavam cartas, remédios e entregas, e que o socorro não achou a casa no incêndio que matou cinco pessoas.

Luke

Vale separar: o incêndio é narrado por Leo, de memória, de quando tinha 10 anos. O texto não traz registro oficial nem confirmação dos bombeiros.

Mark

E o que mudou na prática depois do CEP Digital?

Mimi

Segundo ele, ambulâncias, entregas de e-commerce e de farmácia chegam por geolocalização, e as pessoas não precisam mais emprestar endereço de parentes.

Luke

Mais uma vez, é o testemunho de quem apoiou o projeto. Não há números sobre tempo de atendimento ou quantas casas foram mapeadas.

Mark

Por que os moradores desconfiavam?

Mimi

Temiam perder o terreno ao ter a casa identificada. Por isso Leo passou um ano, em 2024, andando pelas vielas, conversando com cada um.

Luke

Isso mostra que o endereço mexe com medo de remoção, não só com serviço. O texto não diz se esse receio foi total ou parcial.

Mark

E daqui para frente?

Mimi

A questão é se o projeto será mantido e se os serviços de fato chegarão.

Luke

Exato: o relato descreve melhora, mas não mede a durabilidade.

  • Um incêndio consumiu uma casa no morro sem que os bombeiros conseguissem localizá-la, e quatro pessoas morreram.
  • Sem endereço formal, moradores perdiam cartas, remédios e empregos, e precisavam tomar emprestado o CEP de parentes para matricular os filhos.
  • Um líder comunitário percorreu as vielas por um ano, enfrentando o medo de famílias que temiam perder o terreno ao ser registradas.
  • Com a geolocalização do CEP Digital, ambulâncias e entregas já chegam sem guia humano, mas o projeto ainda depende de manutenção para se sustentar.

Em Santo André, na Grande São Paulo, um morro que levou o nome de uma antiga fábrica de sorvetes passa a existir oficialmente nos mapas. Por décadas, a ausência de endereço postal deixou famílias do Morro da Kibon à margem do socorro, das entregas e dos serviços públicos, a ponto de uma tragédia ter ocorrido sem que a casa fosse encontrada a tempo. Agora, com o CEP Digital, uma parceria entre prefeitura, empresas e organizações sociais, a invisibilidade começa a dar lugar ao reconhecimento, ainda que a durabilidade dessa mudança dependa de quem a sustentar.

Leandro Mendes dos Reis, o Leo da Kibon, tem 34 anos e cresceu no Morro da Kibon, em Santo André, desde que chegou da Bahia aos três anos. Viu a família reconstruir a casa mais de dez vezes, derrubada por chuvas e reintegrações de posse, numa infância marcada pela terra que entrava pelas frestas e pela torneira comunitária que era a única fonte de água.

O que mais doía, conta ele, era a invisibilidade. Sem CEP, faltavam cartas, remédios e saneamento, e parentes se perdiam se ninguém os guiasse. Leo era, muitas vezes, esse guia. Aos dez anos, presenciou um incêndio que matou a mãe, uma tia e três crianças de um colega de escola. Segundo ele, os bombeiros passaram pela avenida sem encontrar a casa a tempo.

A liderança nasceu nas reuniões comunitárias e se fortaleceu no apoio à fundação do Instituto Kibon e à instalação de 300 famílias no morro. Depois veio o CEP Digital, parceria entre a Prefeitura de Santo André, o Google e a naPorta. O maior obstáculo foi a desconfiança: moradores temiam perder o terreno ao ser registrados. Leo percorreu as vielas por um ano, explicando o projeto e instalando placas, repetindo que cada endereço marcado mostra que ali vive uma família com direito à atenção pública.

Hoje, as ambulâncias chegam pela geolocalização e ninguém precisa mais mentir o endereço. Para os filhos de Leo, Christopher e Sofia, o projeto representa a chance de existir no mapa. O relato é de um apoiador do programa, e a durabilidade dos resultados dependerá de sua manutenção.

Leandro Mendes dos Reis, conhecido como Leo da Kibon, tem 34 anos e aprendeu da forma mais dolorosa o que significa não constar no mapa. Ele mora no Morro da Kibon, em Santo André, na Grande São Paulo, desde os três anos, quando chegou de Irecê, na Bahia. Na infância e na adolescência, nos anos 1980 e 1990, viu a família reconstruir a casa mais de dez vezes, derrubada por chuvas e por reintegrações de posse, num dos bairros mais violentos da cidade.

O nome do morro vem de uma fábrica de sorvetes que existia no local. A falta de endereço, porém, é o que marcou a memória de quem vive ali. Leo tinha 10 anos quando um incêndio destruiu a casa de um colega de escola. Não havia água encanada para conter o fogo nem CEP para orientar o socorro. Morreram a mãe, uma tia e três crianças. Segundo ele, os bombeiros passaram pela avenida e não encontraram a casa a tempo.

A história de Leo começa na vinda do pai, que chegou antes e, conforme o relato, trabalhou um ano sem almoçar para juntar o dinheiro da passagem da família. Reunidos em Santo André, foram morar num barraco no barranco. Em dias de tempestade, o vento arrancava o telhado, e a mãe abrigava Leo e os quatro irmãos embaixo da beliche. De dia, as crianças tiravam a terra que entrava na casa; à noite, o pai voltava do trabalho e ainda removia barro e fazia escoras. Leo catava material reciclável com a mãe, vendia tudo no mesmo dia para comprar comida e corria com garrafas até a única torneira comunitária do morro. Roupas e calçados vinham de doação.

O que mais machucava, diz ele, era a invisibilidade. Faltavam entregas, cartas, remédios e saneamento. Parentes se perdiam se ninguém os guiasse, e esse guia costumava ser o próprio Leo, que conhecia cada viela por causa da coleta. Moradores não conseguiam emprego por não ter endereço, e famílias emprestavam o CEP de parentes para matricular os filhos na creche e no posto de saúde. O poder público, segundo ele, nem sabia quantas pessoas viviam no morro. "Não ter CEP é não ter dignidade", resume.

Dessas reuniões comunitárias, a que ia com o pai, nasceu a liderança. Leo apoiou a fundação do Instituto Kibon e ajudou a assentar 300 famílias no morro, a dele incluída. Depois, apoiou a implantação do CEP Digital, parceria da Prefeitura de Santo André com o Google e a logitech naPorta, comandada por Sanderson Pajeú e Leonardo Medeiros, finalistas do Prêmio Empreendedor Social 2026, na categoria Inovadores Sociais do Ano.

O maior obstáculo foi a desconfiança. Os moradores temiam perder o terreno ao ter a casa registrada. Em 2024, Leo percorreu as vielas com os técnicos durante um ano, explicando o projeto, mapeando as moradias, colando adesivos e instalando as placas. Dizia a cada morador que a plaqueta e a geolocalização mostram que há uma família naquele lugar e que todos merecem a atenção das políticas públicas.

Hoje, ele afirma, não precisa mais correr até a entrada do morro para guiar ambulâncias. Os socorristas chegam pela geolocalização, assim como as entregas de e-commerce e de farmácia, e ninguém mais precisa mentir o endereço. Os pais de Leo continuam no morro, onde ele formou a própria família. Para os filhos, Christopher e Sofia, ele vê no CEP Digital a semente de dignidade e o direito de existir no mapa.

O relato é de um morador e apoiador do projeto, e a durabilidade dos resultados dependerá da manutenção do programa.

Não ter CEP é não ter dignidade.
— Leandro Mendes dos Reis, o Leo da Kibon
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