Se os bancos exigirem R$ 15 bilhões, eles vão deixar a Americanas falir
No coração do capitalismo brasileiro, uma varejista centenária tornou-se palco de um confronto entre o poder financeiro dos bancos credores e a teimosia histórica de três dos homens mais ricos do país. A descoberta de um rombo contábil de R$ 20 bilhões nas contas da Americanas expôs décadas de opacidade e levantou questões sobre responsabilidade, controle e os limites da lealdade institucional. Como em toda crise de proporções épicas, são os mais vulneráveis — funcionários, pequenos credores, consumidores — que aguardam o desfecho de uma negociação travada entre gigantes.
- Um buraco de R$ 20 bilhões surgiu nos balanços da Americanas em menos de duas semanas, revelando que a dívida real da empresa era o dobro do que os bancos acreditavam.
- O BTG Pactual, credor de mais de R$ 3 bilhões, foi o primeiro a bloquear recursos e a acusar fraude, elevando o tom e transformando uma crise financeira em batalha jurídica e moral.
- Luiz Cezar Fernandes, ex-sócio do trio bilionário, avisa que Beto Sicupira jamais cederá a uma capitalização de R$ 15 bilhões — e que o trio preferiria deixar a empresa falir a negociar em desvantagem.
- A contraproposta do trio, de apenas R$ 6 bilhões, é considerada insuficiente pelos bancos, mantendo a negociação completamente travada e o futuro de milhares de funcionários em suspense.
- O cenário mais provável, segundo Fernandes, envolve perdas para os credores, venda de ativos estratégicos e uma Americanas muito menor — com o trio perdendo boa parte de seu controle acionário.
A Americanas vive uma crise sem precedentes desde que um rombo contábil de R$ 20 bilhões veio à tona, revelando que sua dívida real era o dobro do que os bancos credores conheciam. A disputa que se seguiu não é apenas financeira: é um confronto entre instituições furiosas e três dos homens mais poderosos do capitalismo brasileiro — Jorge Paulo Lemann, Beto Sicupira e Marcel Telles, donos de um império avaliado em mais de R$ 180 bilhões.
Luiz Cezar Fernandes, empresário de 78 anos que foi sócio do trio no antigo banco Garantia, recebeu jornalistas em sua casa em São Paulo para dar sua leitura do conflito. Sua conclusão é direta: se os bancos exigirem uma capitalização de R$ 15 bilhões, o trio deixará a Americanas falir. Fernandes conhece bem esses homens — e foi justamente uma briga com Sicupira, sobre a venda da Americanas, que encerrou a sociedade entre eles. Sicupira chegou a recusar uma oferta de US$ 170 milhões do Walmart pela rede, anos após tê-la comprado por apenas US$ 27 milhões. Sua ligação com a empresa era quase afetiva.
Durante quarenta anos, Sicupira exerceu controle absoluto sobre a varejista — da escolha do presidente às decisões operacionais mais triviais. Saiu do comando apenas meses antes de a crise estourar, o que Fernandes interpreta como sinal de que os problemas no balanço já eram conhecidos internamente. No mercado, há consenso de que os dados foram manipulados para apresentar uma situação financeira melhor do que a real, possivelmente para inflar a distribuição de lucros. O trio nega ter tido ciência do problema e aponta responsabilidade compartilhada com bancos e auditores.
A negociação permanece travada. Os bancos querem até R$ 20 bilhões em capitalização; o trio oferece R$ 6 bilhões. Para Fernandes, a saída realista passa por um meio-termo doloroso: perdas para os credores, venda de ativos como a rede Local e o hortifrúti Natural da Terra, e uma capitalização modesta. Os bancos recuperariam menos da metade do que emprestaram e provavelmente trocariam parte da dívida por ações, diluindo a participação do trio de 31% para muito menos. No fim, Fernandes sugere que talvez isso seja até um alívio para Lemann, Sicupira e Telles — tudo o que querem, a esta altura, é se livrar do problema.
A Americanas está presa numa queda de braço que promete ser longa e desgastante. De um lado, uma varejista que descobriu, há pouco mais de dez dias, um buraco contábil de R$ 20 bilhões em suas contas. Do outro, bancos credores que perceberam que a dívida real da empresa era o dobro do que lhes havia sido informado. A disputa não é apenas sobre recuperar R$ 41 bilhões em crédito — é sobre negociar com três dos homens mais poderosos do capitalismo brasileiro.
Jorge Paulo Lemann, Beto Sicupira e Marcel Telles construíram um império que inclui a Ambev, Kraft Heinz e Burger King, acumulando uma fortuna superior a R$ 180 bilhões. Conduziram seus negócios com autoridade absoluta. Esperar uma postura diferente na mesa de negociação seria ingenuidade. Luiz Cezar Fernandes, empresário de 78 anos que foi sócio do trio no antigo banco Garantia, conhece bem esses homens. Sua previsão é clara: se os bancos exigirem uma capitalização de cerca de R$ 15 bilhões, o trio deixará a Americanas falir.
Fernandes recebeu a reportagem em sua casa em São Paulo numa terça-feira à noite, afastado do trio há anos por desentendimentos que encerraram a sociedade no Garantia. Sua trajetória o coloca numa posição única para avaliar o conflito. Quando saiu da sociedade com Lemann, Sicupira e Telles, fundou o Pactual. Entre seus aprendizes estava André Esteves, hoje sócio do BTG Pactual, o maior banco de investimentos da América Latina — e agora adversário direto do trio na crise da Americanas. O BTG é credor de mais de R$ 3 bilhões e foi o primeiro a bloquear recursos da varejista, tentando executar antecipadamente as dívidas. Também foi o primeiro a elevar o tom, acusando fraude e afirmando que Lemann, Sicupira e Telles foram apanhados com a mão no caixa.
Fernandes acompanhou a aquisição da Americanas pelo trio em 1982, quando a operação custou apenas US$ 27 milhões. Um ano depois, a varejista distribuiu mais de US$ 27 milhões em lucro aos sócios — a operação se pagou sozinha. Desde o início, porém, Sicupira assumiu o comando absoluto. Lemann e Telles entregaram a ele as rédeas. Durante quarenta anos, Sicupira concentrou todo o poder de decisão, desde a nomeação do presidente até as menores escolhas operacionais. Se ele decidisse pintar uma parede de verde, aquela era a palavra final. Quem questionasse era demitido. Essa rigidez foi uma das razões pela qual Fernandes se desentendeu com Sicupira e saiu da sociedade. Ele queria vender a Americanas, mas Sicupira recusou — mesmo quando o Walmart ofereceu US$ 170 milhões pela rede, poucos anos após a compra inicial. Sicupira se apaixonou pela Americanas no dia em que entrou na primeira loja e nunca conseguiu abrir mão dela. Saiu do comando apenas alguns meses atrás, quando, na avaliação de Fernandes, os problemas no balanço começaram a desandar.
Como um buraco de R$ 20 bilhões passou despercebido por executivos, presidente, conselho e auditorias interna e externa permanece uma questão para investigação. Há consenso no mercado de que os dados foram manipulados para maquiar a situação financeira e apresentar um quadro melhor do que a realidade. Fernandes compartilha essa visão. Acredita que o trio tentou criar liquidez artificial, melhorando o balanço para que a divisão de lucros fosse maior. Os bancos estão furiosos porque concederam muito crédito nos últimos anos, acreditando que a Americanas era uma grande empresa bem administrada. O trio publicou uma nota negando ciência do problema e sugerindo que bancos e auditoria também compartilham responsabilidade.
A negociação está travada. Os bancos pressionam o trio a injetar até R$ 20 bilhões na empresa para pagar dívidas e reestruturar. A contraproposta dos sócios é uma capitalização muito mais modesta, em torno de R$ 6 bilhões — insuficiente na visão das instituições financeiras. Fernandes acredita que a única saída viável combina perdas para credores, venda de ativos e uma capitalização modesta. Os bancos recuperariam menos de 50% da dívida total. A Americanas teria que vender ativos como a rede de conveniência Local e o hortifrúti Natural da Terra. Após essa reestruturação, a empresa seria apenas uma sombra do que foi, e os bancos provavelmente trocariam parte da dívida por ações, reduzindo a participação do trio de 31% para muito menos. Fernandes termina com uma observação: talvez isso fosse até um alívio para eles. Tudo o que querem é se livrar do problema.
Notable Quotes
Conhecendo os três, posso dizer que, se os bancos exigirem uma capitalização de mais ou menos R$ 15 bilhões, eles vão deixar a Americanas falir— Luiz Cezar Fernandes, ex-sócio do trio
Desde o princípio, o Jorge e o Marcel entregaram ao Beto o comando da Americanas. Era ele quem mandava em tudo e ditava as cartas por lá. Foi assim nos últimos 40 anos— Luiz Cezar Fernandes
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que Fernandes acredita que o trio deixaria a Americanas falir em vez de capitalizar com R$ 15 bilhões?
Porque conhece a personalidade deles. Não é sobre lógica financeira — é sobre poder. Sicupira especialmente não negocia, não cede. Para ele, perder o controle é pior que perder o dinheiro.
Mas eles têm R$ 180 bilhões. Por que não simplesmente pagam?
Porque não é sobre capacidade. É sobre princípio. Esses homens construíram impérios com mão de ferro. Ceder a um banco é admitir derrota, e eles não fazem isso.
E se a Americanas realmente falir? Qual é o custo real?
Milhares de funcionários perdem emprego. A empresa que foi um símbolo do varejo brasileiro desaparece. Mas para o trio, talvez seja preferível a um cenário onde perdem o controle.
Fernandes parece acreditar que a manipulação contábil foi intencional. Como ele chegou a essa conclusão?
Pela história. Sicupira controlava tudo absolutamente. Se havia manipulação, ele sabia. E Fernandes conhece bem como esses homens operam — sempre buscam maximizar ganhos, sempre encontram maneiras criativas de contornar problemas.
O que mudaria se os bancos conseguissem reduzir suas exigências?
Talvez nada. Fernandes sugere que o trio preferiria uma reestruturação onde perde o controle a uma onde perde dinheiro. É uma questão de ego, não de economia.