O Peru é o único lugar do mundo onde os resultados demoram trinta dias
No Peru, onde a democracia tem sido testada por uma sucessão de crises institucionais, o segundo turno presidencial de 2026 reproduz com precisão inquietante o drama de 2021: dois candidatos separados por uma fração de votos, um país em suspense e o tempo como árbitro involuntário. Com 98% dos votos apurados, Keiko Fujimori lidera Roberto Sánchez por apenas 1,6 mil cédulas em um universo de mais de 18 milhões, enquanto dezenas de jurados eleitorais deliberam sobre impugnações que podem, ou não, alterar o destino de uma nação acostumada à incerteza no poder.
- A margem de 0,01 ponto percentual entre Fujimori e Sánchez transforma cada voto impugnado em um objeto de tensão política e jurídica.
- Sánchez rompe o protocolo ao pedir publicamente uma recontagem completa, alegando falta de transparência — gesto que seus adversários rejeitam como politicamente motivado.
- Sessenta Jurados Eleitorais Especiais já analisam milhares de votos contestados pelos dois partidos, seguindo os canais institucionais que existem independentemente da vontade dos candidatos.
- O cronograma de duas a três semanas para o resultado final irrita Sánchez, que critica o Peru por ser, segundo ele, o único país do mundo onde eleições levam trinta dias para ser decididas.
- O vencedor assumirá como nono presidente peruano em uma década, herdando não apenas o cargo, mas o peso de uma instabilidade política que nenhum resultado eleitoral, por si só, resolve.
Com 98% dos votos apurados na sexta-feira, 12 de junho, o segundo turno presidencial peruano revelou uma diferença de apenas 1,6 mil votos entre Keiko Fujimori, com 50,005%, e Roberto Sánchez, com 49,995%, de um total superior a 18 milhões de cédulas contabilizadas. Diante desse cenário de extrema proximidade, Sánchez propôs publicamente uma revisão completa da votação, argumentando que a transparência não havia sido assegurada em todos os locais de votação.
A resposta da chapa adversária foi imediata e firme. Luis Galarreta, candidato a vice-presidente por Fujimori, afirmou que recontagens não ocorrem por sugestão de candidatos, mas seguem protocolos específicos de impugnação e nulidade previstos na legislação eleitoral. O processo institucional, porém, já estava em curso: sessenta Jurados Eleitorais Especiais foram designados para decidir sobre a validade de milhares de votos contestados pelos representantes da Força Popular e do Juntos pelo Peru. Entre os casos analisados, havia cédulas com frases ofensivas dirigidas aos candidatos.
Fujimori, em sua quarta candidatura presidencial, havia recebido impulso decisivo dos votos da diáspora peruana nos Estados Unidos e no Japão. Ela reconheceu que o processo exigia paciência, mas afirmou que geraria confiança. As autoridades eleitorais estimaram entre duas e três semanas para a divulgação do resultado final — prazo que Sánchez criticou publicamente.
O cenário evocava diretamente o segundo turno de 2021, quando Castillo e Fujimori também ficaram separados por uma margem mínima e o resultado levou seis semanas. Agora, o vencedor substituirá o presidente interino José María Balcázar e se tornará o nono presidente peruano em uma década, símbolo de uma instabilidade política que transcende qualquer candidatura.
A contagem dos votos do segundo turno presidencial peruano chegou a 98% na sexta-feira, 12 de junho, com Keiko Fujimori mantendo uma vantagem tão estreita que cabe em pouco mais de mil cédulas. Com 50,005% contra 49,995% de seu rival Roberto Sánchez, a margem entre eles é de aproximadamente 1,6 mil votos de um total de mais de 18 milhões já contabilizados. Foi nesse contexto de incerteza que Sánchez, aos 57 anos, propôs publicamente uma revisão completa de toda a votação, argumentando que a transparência não havia sido garantida em todos os locais.
A proposta encontrou rejeição imediata. Luis Galarreta, candidato a vice-presidente na chapa de Fujimori, respondeu que seu partido respeitaria os procedimentos estabelecidos pela legislação eleitoral e aguardaria a contagem final com prudência. Segundo ele, recontagens de votos não ocorrem simplesmente porque alguém as sugere; elas seguem protocolos específicos de impugnação e nulidade. Para que a proposta de Sánchez avançasse, seria necessário primeiro a aceitação de Fujimori e depois a apresentação às autoridades eleitorais competentes.
O processo de revisão já estava em andamento através de canais institucionais. Sessenta Jurados Eleitorais Especiais foram designados para decidir, em primeira instância, sobre a validade de milhares de votos que haviam sido impugnados pelos representantes de ambos os partidos — a Força Popular de Fujimori e Juntos pelo Peru de Sánchez. O jurado presidido pelo magistrado Víctor Arbulú, responsável pela região de Lima Oeste 3, iniciou audiências públicas para analisar essas impugnações enquanto a Onpe, o Escritório Nacional de Processos Eleitorais, prosseguia com a etapa final da contagem. Alguns votos foram contestados por conterem frases ofensivas dirigidas aos candidatos.
Fujimori, aos 51 anos, havia recebido impulso decisivo dos votos de peruanos residentes nos Estados Unidos e no Japão. Em declaração à imprensa, ela afirmou estar acompanhando as audiências nos jurados especiais e reconheceu que o processo exigia paciência, mas geraria confiança nos candidatos. O resultado final, segundo as autoridades eleitorais, poderia levar entre duas e três semanas para ser divulgado — um cronograma que Sánchez criticou, observando que o Peru era o único lugar do mundo onde resultados demoravam trinta dias.
Esta era a quarta candidatura presidencial de Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori que governou entre 1990 e 2000. Para Sánchez, aos 57 anos, tratava-se da primeira vez. Ele era considerado herdeiro político do ex-presidente Pedro Castillo, que havia sido preso após uma tentativa fracassada de autogolpe em 2022. O segundo turno havia ocorrido em 7 de junho, colocando frente a frente esses dois polos políticos opostos.
O processo de revisão das atas observadas ou impugnadas fazia parte do procedimento eleitoral padrão no Peru, embora ganhasse importância extraordinária diante da diferença mínima entre os candidatos. Não era a primeira vez que o país enfrentava uma situação assim. No segundo turno de 2021, também entre Castillo e Fujimori, o resultado final havia levado seis semanas para ser conhecido, com Castillo vencendo com 50,12% dos votos contra 49,87% de Fujimori. Agora, em 2026, o vencedor substituiria o presidente interino José María Balcázar e se tornaria o nono presidente peruano em uma década — um indicador da instabilidade política que marcava o país.
Notable Quotes
Proponho que solicitemos conjuntamente uma revisão exaustiva, uma recontagem de todo o processo, sobretudo onde haja indícios de que não tenha ocorrido a transparência devida— Roberto Sánchez
A recontagem de votos não acontece porque alguém teve a ideia. Nós vamos respeitar o que diz a legislação eleitoral— Luis Galarreta, candidato a vice de Fujimori
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que Sánchez pediu uma revisão completa se o processo já estava seguindo os procedimentos normais?
Porque a margem é tão pequena que qualquer irregularidade poderia mudar o resultado. Com apenas 1,6 mil votos de diferença em 18 milhões, ele estava sinalizando que não confiava que o sistema capturasse a verdade.
E por que Fujimori rejeitou a proposta através de seu vice?
Não rejeitou exatamente. Galarreta disse que respeitariam a legislação, o que é uma forma de dizer que não fariam nada fora dos protocolos. Fujimori mesma disse estar acompanhando as audiências. Era uma resposta institucional, não uma recusa.
Qual é a diferença entre o que Sánchez propôs e o que já estava acontecendo nos jurados?
Sánchez queria uma revisão exaustiva de tudo, conjunta, como um gesto de confiança mútua. Os jurados estavam analisando apenas os votos impugnados pelos próprios partidos. É a diferença entre uma auditoria completa e um processo de contestação normal.
Isso já tinha acontecido antes no Peru?
Sim, em 2021, quando Castillo venceu Fujimori por margem parecida. Aquilo levou seis semanas. Agora as autoridades dizem que podem levar duas ou três semanas, mas Sánchez apontou que o Peru demora mais que qualquer outro país.
O que está realmente em jogo aqui?
O nono presidente em dez anos. O Peru está em crise política crônica. Quem vencer vai herdar um país fraturado, e a legitimidade dessa vitória depende de como o resultado é apurado e aceito.