Em San Sebastián, uma proibição municipal encerrou seis anos de jantares solidários oferecidos por voluntários a cerca de 300 pessoas sem-abrigo, substituindo a generosidade espontânea por um programa oficial mais financiado. A decisão do alcaide Jon Insausti, justificada por razões de saúde pública e convivência urbana, levanta uma questão que atravessa todas as sociedades: a quem pertence o dever de cuidar dos mais vulneráveis — ao Estado ou à comunidade? O que se ganha em organização pode perder-se em humanidade visível.
San Sebastián proíbe distribuição voluntária de comida a sem-abrigo
Distribuir jantares não é crime, diziam os cartazes nas ruas
Por que é que uma cidade com recursos suficientes para oferecer 416 refeições diárias sentiria necessidade de proibir voluntários que serviam 300?
Porque 300 refeições voluntárias eram visíveis. Aconteciam nas ruas, em quatro pontos diferentes, todas as noites. As pessoas viam-nas. Os vizinhos viam-nas. E alguns vizinhos reclamavam.
A câmara diz que é por questões de saúde. Acredita nisso?
A saúde pública é uma preocupação legítima. Mas se fosse apenas isso, a solução seria regular, não proibir. Treinar os voluntários, inspecionar o processo, estabelecer regras. Não fechar a porta.
O Partido Popular pediu isto há anos, segundo o artigo.
Sim. E agora conseguiu. A questão é se a proibição resolve o problema ou apenas o tira da vista. As pessoas sem-abrigo continuam lá. A fome continua lá. Agora apenas não há voluntários a servir refeições nas ruas.
Mas a câmara aumentou o orçamento em 500 mil euros.
Aumentou. Mas 416 refeições diárias é menos do que as 300 que os voluntários serviam. E o dinheiro público é importante, claro. Mas não substitui o que aqueles voluntários representavam — pessoas que escolhiam estar ali, sem serem pagas, porque acreditavam que era certo.
Então a cidade perdeu algo que não se pode comprar.
Exatamente. Perdeu a visibilidade da solidariedade. Agora a ajuda é oficial, burocrática, controlada. É mais segura, talvez. Mas é menos humana.
Il Polso
- Voluntários que serviam 300 refeições noturnas por dia foram proibidos de continuar, deixando centenas de sem-abrigo dependentes exclusivamente de serviços municipais.
- Os cartazes nas ruas — 'Distribuir jantares não é crime' — revelam a tensão entre cidadãos que recusam aceitar que alimentar quem tem fome possa ser ilegal.
- O coletivo Kaleko Afari Solidarioak acusa o alcaide de ter cedido a pressões do Partido Popular, que há anos exigia o fim desta prática cidadã.
- A câmara compromete-se a aumentar o orçamento para dois milhões de euros anuais, oferecendo 416 refeições diárias — mais do que os voluntários serviam, mas sem a presença humana que os distinguia.
- A cidade fica com mais recursos oficiais e menos solidariedade visível, num equilíbrio que os números não conseguem medir.
Em San Sebastián, uma proibição municipal encerrou seis anos de jantares solidários oferecidos por voluntários a cerca de 300 pessoas sem-abrigo, substituindo a generosidade espontânea por um programa oficial mais financiado. A decisão do alcaide Jon Insausti, justificada por razões de saúde pública e convivência urbana, levanta uma questão que atravessa todas as sociedades: a quem pertence o dever de cuidar dos mais vulneráveis — ao Estado ou à comunidade? O que se ganha em organização pode perder-se em humanidade visível.
No final de julho, o alcaide de San Sebastián, Jon Insausti, assinou uma proibição que pôs fim a quase seis anos de jantares solidários nas ruas da cidade. O coletivo Kaleko Afari Solidarioak — jantares solidários de rua, em basco — nasceu em novembro de 2020, em plena pandemia, quando um grupo de cidadãos começou a cozinhar em casa e a servir refeições quentes em quatro pontos da cidade todas as noites. Cerca de 300 pessoas sem-abrigo dependiam daquelas refeições, pagas com dinheiro próprio e donativos de vizinhos.
A justificativa oficial invocou riscos de insalubridade e conflitos com moradores. Os voluntários responderam com cartazes: 'Não se proíbe a comida' e 'Distribuir jantares não é crime'. Em paralelo, a câmara anunciou um reforço de 500 mil euros nos programas oficiais, elevando o orçamento anual para dois milhões de euros e garantindo 416 refeições diárias através dos serviços municipais.
Mas por detrás dos números, o coletivo acusa o alcaide de ter cedido a pressões do Partido Popular, que há anos exigia o fim da prática. A questão, no fundo, nunca foi apenas de higiene ou logística: era sobre quem tem o direito — e o dever — de cuidar dos mais vulneráveis. San Sebastián ganhou um programa mais financiado, mas perdeu a presença noturna de vizinhos que escolhiam estar ali, simplesmente porque acreditavam que ninguém deveria dormir com fome.
No final de julho deste ano, San Sebastián tomou uma decisão que dividiu a cidade. O alcaide Jon Insausti assinou uma proibição contra voluntários que, durante quase seis anos, vinham oferecendo refeições noturnas a pessoas sem-abrigo nas ruas. A justificativa foi clara nos documentos oficiais: risco de insalubridade e necessidade de evitar conflitos com os vizinhos. Para quem distribuía a comida, a medida soou como uma traição disfarçada de burocracia.
Tudo começou em novembro de 2020, quando a pandemia ainda apertava o mundo. Um grupo de cidadãos organizou-se sob o nome Kaleko Afari Solidarioak — jantares solidários de rua, em basco — e começou a aparecer em quatro pontos diferentes da cidade todas as noites. Eles compravam os ingredientes com o próprio dinheiro, cozinhavam em casa, e depois serviam refeições quentes a quem dormia na rua. Os donativos de vizinhos generosos ajudavam a pagar os pratos de cartão, as colheres, os guardanapos. Era um trabalho de formiga, repetido noite após noite, sem glamour, sem reconhecimento oficial. Cerca de 300 pessoas dependiam daquelas refeições.
Quando a proibição chegou, os voluntários responderam da forma que sabiam: com cartazes nas ruas. "Não se proíbe a comida", diziam. "Distribuir jantares não é crime", completavam. Não era uma revolta barulhenta, mas uma recusa silenciosa em aceitar que alimentar quem tem fome pudesse ser ilegal.
O alcaide, porém, tinha um plano alternativo — ou assim dizia. A câmara municipal comprometeu-se a reforçar os programas oficiais de refeições com mais 500 mil euros anuais. O orçamento total subiria para dois milhões de euros por ano, permitindo oferecer 416 refeições diárias através dos pontos oficiais da cidade. A matemática parecia funcionar: mais dinheiro público, mais refeições garantidas, mais controle sobre a qualidade e a higiene. A partir de agora, as pessoas sem-abrigo teriam de recorrer apenas aos serviços municipais.
Mas havia um detalhe que os números não capturavam. Os voluntários acusaram o alcaide de ter cedido a pressões do Partido Popular, que há vários anos exigia o fim daquela prática cidadã. Não era apenas sobre saúde pública ou convivência. Era sobre quem tinha o direito de cuidar dos mais vulneráveis — o Estado, ou a comunidade. Era sobre se a solidariedade espontânea era bem-vinda ou incómoda.
A cidade agora tinha mais recursos oficiais, isso era verdade. Mas perdeu também algo que não se mede em euros: a presença visível de pessoas que escolhiam estar ali, noite após noite, porque acreditavam que ninguém deveria dormir com fome. Aqueles voluntários não eram funcionários públicos. Eram vizinhos. E agora, legalmente, não podiam mais fazer o que faziam.
Citazioni salienti
Não se proíbe a comida. Distribuir jantares não é crime.— Cartazes dos voluntários de San Sebastián
O alcaide submeteu-se aos interesses do Partido Popular, que há vários anos exige a proibição da prática cidadã.— Coletivo solidário Kaleko Afari Solidarioak