Rússia realiza primeiro transplante de medula espinhal com tecido de doador; especialistas questionam eficácia

Paciente com lesão medular grave, que corria risco de imobilidade completa, foi submetido a procedimento experimental com riscos de infecção e recuperação difícil.
Um paciente que corria o risco de ficar imóvel agora tem uma chance
O prefeito de Moscou, Sergei Sobyanin, comentou o estado do paciente após a cirurgia experimental.
Mark

Em termos simples, o que os médicos russos dizem ter feito?

Mimi

Eles teriam retirado o trecho lesionado da medula de um paciente e colocado no lugar um segmento de doador com morte encefálica, unindo tudo com microcirurgia e PEG, uma espécie de cola biológica.

Mark

E o paciente, como está?

Mimi

O cirurgião diz que o estado é bom, e o prefeito de Moscou, Sergei Sobyanin, também. Ele falou que quem corria risco de imobilidade completa agora tem uma chance de recuperação.

Luke

Vale separar as coisas. "Estado bom" é uma declaração de quem fez a cirurgia e de uma autoridade. Não há dado clínico publicado, nem sobre função neurológica.

Mark

Então não sabemos se ele voltou a mexer alguma parte do corpo?

Luke

A reportagem não diz isso. Fala só em chance de recuperação, o que é diferente de recuperação.

Mimi

E a equipe prometeu publicar um documento detalhando a operação, o que ainda não aconteceu.

Mark

Por que os pesquisadores desconfiam?

Mimi

Melissa Andrews, de Southampton, aponta risco de infecção e recuperação difícil. Para ela, unir as pontas não basta: seria preciso estimular a cicatrização e neutralizar moléculas que bloqueiam o crescimento das fibras.

Luke

E ela vai além: diz que, na opinião dela, a chance de regeneração funcional seria zero. É uma opinião de uma especialista, não um resultado medido neste paciente.

Mark

E os testes em animais?

Luke

Em camundongos, cães e porcos houve alguma recuperação de movimentos, mas isso não garante o mesmo em humanos, ainda mais com lesão antiga e tecido de doador.

  • Um paciente com lesão medular grave, em risco de imobilidade completa, foi submetido a uma cirurgia que a própria equipe descreve como experimental.
  • O anúncio se espalhou pela imprensa antes de qualquer publicação científica detalhada, deixando a comunidade médica em alerta.
  • Autoridades afirmam que o paciente está bem, mas pesquisadores independentes apontam riscos de infecção e baixa chance de recuperação dos movimentos.
  • A técnica se apoia em experimentos com animais que não garantem resultados em humanos, e o destino real do paciente segue dependendo do documento ainda não divulgado.

Em Moscou, uma equipe médica afirma ter feito algo inédito: trocar um trecho danificado da medula espinhal de um paciente por tecido de um doador com morte encefálica, unindo as partes com PEG, uma substância usada como cola biológica. A medula é a via por onde o cérebro conversa com o corpo, e reconstruí-la é um dos problemas mais antigos da medicina, marcado por perdas que muitas vezes são definitivas. Por isso o relato comove, mas ainda pede cautela: a palavra de autoridades e do cirurgião ainda não veio acompanhada do registro técnico que permitiria avaliar o que realmente aconteceu.

Em Moscou, médicos russos relataram o que chamam de primeiro transplante de um segmento de medula espinhal feito com tecido de doador. A informação veio por declarações do cirurgião e de autoridades, mas a equipe ainda não publicou um documento que detalhe a operação.

Segundo o relato, os cirurgiões retiraram a parte danificada da medula do paciente e a substituíram por um trecho de um doador com morte encefálica. Os tecidos foram unidos com técnicas microcirúrgicas e com polietilenoglicol, o PEG, uma substância que funciona como cola biológica. O cirurgião afirmou que o paciente foi informado dos riscos e que seu estado atual é bom, e o prefeito de Moscou confirmou que ele está bem. Para as autoridades, alguém que poderia ficar completamente imóvel agora tem uma chance de recuperação.

O PEG vem sendo estudado há anos como forma de unir fibras nervosas seccionadas, com resultados parciais em camundongos, cães e porcos. Esses experimentos, porém, não garantem que a técnica funcione em humanos, sobretudo com lesões antigas e tecido de outra pessoa.

Pesquisadores independentes têm dúvidas. A neurocientista Melissa Andrews, da Universidade de Southampton, avalia que o paciente pode enfrentar uma recuperação difícil, com poucos benefícios e alto risco de infecção. Para que o trecho transplantado se integrasse, lembra ela, seria preciso ir além de unir as pontas: estimular a cicatrização, neutralizar barreiras moleculares e criar novas conexões entre o tecido do doador e o do receptor.

Por ora, há o relato da equipe, a palavra de que o paciente está bem e o ceticismo de especialistas. O documento prometido deve mostrar o que de fato foi feito e com que resultado.

Em Moscou, médicos russos relataram ter realizado o que descrevem como o primeiro transplante de um segmento de medula espinhal feito com tecido de doador. A informação chega por meio de declarações do cirurgião e de autoridades, e a equipe ainda não publicou um documento detalhando a operação.

Segundo o relato, os cirurgiões removeram a parte danificada da medula do paciente e a substituíram por um trecho retirado de um doador com morte encefálica. Para unir os tecidos, usaram técnicas microcirúrgicas e o polietilenoglicol, o PEG, substância que funciona como uma espécie de cola biológica.

O cirurgião, identificado como Reb na reportagem, disse à revista New Scientist que o paciente foi informado de todos os riscos potenciais e dos possíveis resultados da cirurgia, e que seu estado atual é bom. Ele afirmou que a equipe pretende publicar mais tarde um documento sobre o procedimento. O prefeito de Moscou, Sergei Sobyanin, também confirmou, segundo a agência Kazinform, que o paciente está bem. Para ele, alguém que corria o risco de ficar completamente imóvel agora tem uma chance de recuperação. Sobyanin destacou ainda a participação de especialistas chineses.

A medula espinhal transmite sinais entre o cérebro e o restante do corpo, o que permite os movimentos e a percepção de estímulos. Numa lesão grave, essa comunicação é interrompida, com perda de movimento e de sensibilidade. Restabelecer a conexão é um dos maiores desafios da ciência, porque as células da medula não se regeneram com facilidade e o tecido lesionado pode se deteriorar de forma progressiva.

Há anos, o cirurgião e outros pesquisadores, entre eles o neurocirurgião Sergio Canavero, da Universidade Médica de Harbin, na China, estudam o uso do PEG para tentar unir fibras nervosas seccionadas. A ideia é aproximar as extremidades e aplicar a substância para favorecer a fusão, como alinhar as pontas de dois pedaços de espaguete seco na esperança de que algumas fibras se juntem. Em experimentos com camundongos, cães e porcos, abordagens semelhantes tiveram algum grau de recuperação de movimentos. Esses resultados, porém, não garantem que a técnica funcione em humanos, sobretudo diante de uma lesão antiga e de tecido de doador.

É aí que entram as dúvidas. Melissa Andrews, da Universidade de Southampton, na Inglaterra, disse à New Scientist estar preocupada com a segurança. Em sua avaliação, o paciente pode enfrentar uma recuperação difícil, com poucos benefícios e alto risco de infecção. Ela explicou que a integração funcional de um segmento transplantado exigiria mais do que unir as pontas da medula: seria preciso estimular a cicatrização, neutralizar moléculas que impedem o crescimento das fibras nervosas e promover novas conexões entre o tecido do doador e o do receptor. Mesmo assim, afirmou, a chance de regeneração e de recuperação funcional seria zero, na opinião dela.

Por ora, o que há são o relato da equipe, a palavra das autoridades de que o paciente está bem e o ceticismo de pesquisadores independentes. O documento prometido pelos russos deve mostrar o que de fato foi feito e com que resultado.

Mesmo assim, na minha opinião, a chance de regeneração e recuperação funcional seria zero.
— Melissa Andrews, Universidade de Southampton, à New Scientist
Informamos o paciente sobre todos os riscos potenciais e os possíveis resultados cirúrgicos; e seu estado atual é bom.
— Reb, cirurgião, à New Scientist
Quer a matéria completa? Leia o original em Globo ↗
Fale Conosco FAQ