Em tempos em que o preço da gasolina volta a pesar no bolso do brasileiro, um automóvel de 1956 ressurge como símbolo de uma sabedoria esquecida: fazer mais com menos. O Romi-Isetta, primeiro carro fabricado no Brasil, pesava 350 quilogramas e percorria 25 quilômetros com um único litro de combustível — números que desafiam até os padrões atuais. Nascido em Santa Bárbara d'Oeste e produzido por apenas cinco anos, esse pequeno veículo de porta frontal atravessa décadas para lembrar que a eficiência não é uma invenção do presente, mas uma lição que o passado já havia aprendido.
Romi-Isetta: o menor carro do Brasil é solução para gasolina cara
Um carro que roda 25 km com um litro, pesando 350 kg
Por que o Romi-Isetta importa agora, em 2022, se foi fabricado há 66 anos?
Porque os preços da gasolina subiram 5,18% numa única semana, e de repente um carro que roda 25 quilômetros com um litro deixa de ser curiosidade histórica. É eficiência pura.
Mas espera — esses 25 quilômetros por litro são números oficiais ou promessas de anúncio? Os anúncios de 1957 prometiam 33.
Boa pergunta. Os 25 quilômetros por litro estão nos dados técnicos preservados pela Fundação Romi. Os 33 eram promessas de marketing da época.
E quantos Romi-Isetta ainda existem?
Poucos. A maioria está com colecionadores. Quando um aparece à venda em bom estado, passa de 100 mil reais.
Mas como você sabe que "poucos" é a quantidade certa? O texto não diz quantos existem.
Verdade. Sabemos que foram fabricados cerca de 3 mil entre 1956 e 1961, mas não há registro de quantos sobreviveram.
E essa versão elétrica, o Microlino, é uma cópia ou uma reinterpretação?
É uma reinterpretação moderna. Mantém a porta única frontal, mas adiciona motor elétrico, 230 quilômetros de autonomia e 230 litros de porta-malas.
Quanto custa?
12,5 mil euros, cerca de 67,5 mil reais. Mas isso é conversão direta — o preço real em reais pode variar.
Então o Isetta original era tão bom que 66 anos depois alguém decidiu fazer de novo?
Exatamente. A ideia era tão sólida que ressurgiu quando os problemas urbanos — congestionamento, estacionamento, combustível caro — voltaram a ser urgentes.
O Pulso
- Com o reajuste de 5,18% anunciado pela Petrobras em junho de 2022, o custo do combustível reacende a busca por alternativas mais econômicas no cotidiano dos brasileiros.
- O Romi-Isetta, com apenas 2,28 metros de comprimento e consumo de 25 km/l, emerge como referência histórica de eficiência em meio ao debate sobre mobilidade urbana e custos de transporte.
- Dos cerca de 3 mil exemplares produzidos entre 1956 e 1961, pouquíssimos sobreviveram — e os que restam circulam discretamente entre colecionadores, valendo mais de R$ 100 mil e chegando a R$ 150 mil.
- A escassez é tão grande que especialistas do mercado de clássicos afirmam não ver o modelo em anúncios públicos há muito tempo, tornando cada transação um evento raro e quase silencioso.
- O conceito ressurge em forma elétrica com o Microlino 2.0 suíço, que preserva a porta frontal icônica e oferece até 230 km de autonomia, sinalizando que a lógica do Isetta ainda encontra espaço no mundo contemporâneo.
Em tempos em que o preço da gasolina volta a pesar no bolso do brasileiro, um automóvel de 1956 ressurge como símbolo de uma sabedoria esquecida: fazer mais com menos. O Romi-Isetta, primeiro carro fabricado no Brasil, pesava 350 quilogramas e percorria 25 quilômetros com um único litro de combustível — números que desafiam até os padrões atuais. Nascido em Santa Bárbara d'Oeste e produzido por apenas cinco anos, esse pequeno veículo de porta frontal atravessa décadas para lembrar que a eficiência não é uma invenção do presente, mas uma lição que o passado já havia aprendido.
A gasolina voltou a encarecer no Brasil em junho de 2022, e com ela ressurgiu a memória de um carro que parecia ter resolvido esse problema décadas atrás. O Romi-Isetta, lançado em 5 de setembro de 1956 em Santa Bárbara d'Oeste, no interior de São Paulo, foi o primeiro automóvel fabricado no Brasil — e continua sendo o menor. Com apenas 2,28 metros de comprimento e 350 quilogramas, ele rodava 25 quilômetros com um litro de gasolina, enquanto os anúncios da época chegavam a prometer mais de 33 km/l.
Produzido sob licença da italiana Iso pela Máquinas Agrícolas Romi, o veículo saiu de linha em abril de 1961, após cerca de 3 mil unidades fabricadas. Sua característica mais singular era a porta única, localizada na dianteira — onde também ficava o volante, que se dobrava para permitir a entrada dos ocupantes. Essa peculiaridade gerou até controvérsia: alguns especialistas argumentam que o primeiro carro genuinamente brasileiro teria sido o DKW Universal, lançado meses depois. O Romi-Isetta usou dois motores ao longo de sua vida: um Iso de dois tempos até 1958, e um BMW de quatro tempos a partir de 1959, ambos limitando a velocidade máxima a 85 km/h.
Hoje, os exemplares sobreviventes raramente aparecem em anúncios públicos. Silvio Luiz, da Old is Cool Motors, conta que faz tempo que não vê o modelo à venda. Quando surge um em bom estado, o preço ultrapassa facilmente R$ 100 mil. O leiloeiro Joel Picelli não considera absurdo cobrar R$ 150 mil por um Romi-Isetta, dada a escassez extrema.
A ideia, porém, não morreu. O Microlino 2.0, fabricado na Suíça, retoma os mesmos princípios — incluindo a porta frontal — mas com motor elétrico de 17,2 cavalos e autonomia de até 230 quilômetros. Custa a partir de 12,5 mil euros e já acumula reservas na Europa, provando que a lógica compacta do Isetta continua sendo uma resposta válida para os desafios das cidades modernas.
A gasolina disparou novamente. Na última sexta-feira de junho de 2022, a Petrobras anunciou um reajuste de 5,18%, e o brasileiro voltou a contar centavos no posto de combustível. Nesse cenário, um automóvel capaz de rodar 25 quilômetros com um litro de gasolina, pesando apenas 350 quilogramas, deixa de ser curiosidade histórica e vira referência de bom senso.
Esse carro existe. Não é invenção recente. Trata-se do Romi-Isetta, lançado em 5 de setembro de 1956 em Santa Bárbara d'Oeste, no interior de São Paulo. Foi o primeiro automóvel fabricado no Brasil e permanece o menor com produção nacional. Enquanto isso, o Fiat Mobi, já considerado compacto, mede 3,60 metros de comprimento. O Romi-Isetta? Apenas 2,28 metros. Sua largura é de 1,38 metro, altura de 1,34 metro, e a distância entre eixos, minúscula, de 1,50 metro.
O veículo foi produzido sob licença da italiana Iso pela Máquinas Agrícolas Romi até 13 de abril de 1961, quando saiu do mercado após cerca de 3 mil unidades fabricadas. Sua característica mais marcante é a única porta, localizada na dianteira, onde fica o volante. A coluna de direção se dobrava para permitir entrada e saída dos ocupantes. Essa singularidade gerou até debate entre especialistas sobre se o Isetta seria, de fato, um automóvel — alguns argumentam que o primeiro carro feito no Brasil foi o DKW Universal, lançado em novembro de 1956.
A eficiência vinha de duas fontes: peso reduzido e motor minúsculo. De 1956 a 1958, o Romi-Isetta usava motor Iso de dois tempos, 236 centímetros cúbicos, com 9,6 cavalos de potência. A partir de 1959, recebeu motor BMW de quatro tempos, 298 centímetros cúbicos, gerando 13,2 cavalos. Independentemente do propulsor, a velocidade máxima era 85 quilômetros por hora. O câmbio era manual de quatro marchas com tração traseira. Os anúncios de 1957 prometiam consumo superior a 33 quilômetros por litro, mas os dados técnicos preservados pela Fundação Romi apontam 25 quilômetros por litro como a média oficial.
Hoje, poucos exemplares do Isetta brasileiro permanecem. A maioria está em poder de colecionadores. Silvio Luiz, proprietário da loja Old is Cool Motors, especializada em veículos clássicos, relata que há muito tempo não vê o modelo sendo anunciado. Quando surge algum em bom estado, o preço facilmente ultrapassa 100 mil reais. Joel Picelli, leiloeiro da Picelli Leilões, concorda: não acha absurdo cobrar 150 mil reais por um Romi-Isetta, considerando a escassez e a raridade. Os exemplares existentes são negociados diretamente entre colecionadores, raramente aparecendo em anúncios públicos.
A ideia do Isetta provou ser tão sólida que ressurgiu em forma elétrica. O Microlino 2.0, fabricado na Suíça pela Micro, retoma os conceitos do original — incluindo a única porta frontal — mas com propulsão elétrica. Custa a partir de 12,5 mil euros, cerca de 67,5 mil reais na conversão direta. O motor elétrico rende 17,2 cavalos e 9,1 quilograma-força por metro. Pesa 535 quilogramas e atinge velocidade máxima de 90 quilômetros por hora. As versões oferecem autonomia de 95 a 230 quilômetros. Mede 2,52 metros de comprimento, 1,47 metro de largura e 1,50 metro de altura, com compartimento de bagagens de 230 litros. As reservas começaram na Europa, sinalizando que a eficiência compacta continua sendo uma resposta válida para os desafios urbanos contemporâneos.
Citações Notáveis
Há muito tempo não vejo esse veículo sendo anunciado. Lembro que não demorava muito para vender os que apareciam, com preço na faixa de cento e poucos mil reais— Silvio Luiz, proprietário da Old is Cool Motors
Não acho um absurdo cobrarem R$ 150 mil, considerando a escassez e a raridade do Romi-Isetta. Os que existem são negociados diretamente entre os colecionadores— Joel Picelli, leiloeiro da Picelli Leilões