Romance sobre virgem jurada búlgara conquista prêmios internacionais

A protagonista Bekia sacrifica sua família ao assumir o papel de virgem jurada para escapar do casamento arranjado, condenando-os a um ciclo de vinganças no vilarejo.
Estamos nos salvando mesmo, quando os sacrificamos?
Karabash questiona o preço da liberdade quando conquistada à custa dos mais próximos.
Mark

Como uma escritora búlgara encontrou uma história tão específica dos Bálcãs?

Mimi

Karabash estava procurando há anos. Viu fotografias de virgens juradas na Albânia e soube que havia encontrado o que precisava — uma situação radical para explorar o patriarcado.

Luke

Mas por que essas fotografias a tocaram especificamente? Havia outras histórias sobre mulheres e poder nos Bálcãs.

Mimi

Porque a prática era real e ainda existia. Não era história, era presente. E porque ela cresceu em um vilarejo búlgaro com tradições semelhantes — seu avó frustrado por não ter filhos homens.

Mark

O livro é sobre gênero e sexualidade, então?

Mimi

É sobre isso, mas Karabash recusa o rótulo. Bekia está apaixonada por uma amiga, sim, mas em uma sociedade onde essas palavras não existem. O que importa são as dinâmicas familiares, a dor de viver uma performance que te machuca.

Luke

Ela diz que o livro nasceu pronto, que o editor mudou apenas duas palavras. Isso é verificável?

Mimi

Karabash afirma isso. Descreve um processo quase transcendental — recebeu o texto em uma voz que não era inteiramente sua.

Luke

Então não sabemos se é verdade. É o que ela acredita sobre seu próprio processo criativo.

Mark

E quanto ao segundo romance? Ela consegue escrever assim também?

Mimi

Leva quatro anos desenvolvendo uma ideia antes de começar. Espera até que o texto lhe desça na voz certa. Será sobre uma refugiada síria em um monastério.

Luke

Ela nunca visitou um monastério sírio?

Mimi

Não pode. Mas diz que sua protagonista vai no seu lugar. É uma forma de dizer que a imaginação substitui a experiência.

Mark

Isso funciona? Consegue contar uma história verdadeira sem estar lá?

Mimi

Para Karabash, sim. O caminho criativo é igual ao espiritual — depende de quão conectado consigo mesmo você está.

  • Romance 'Aquela que Restou' venceu prêmio Elias Canetti na Bulgária em 2018
  • Tradução para inglês foi finalista do Prêmio Booker Internacional
  • Apenas algumas dezenas de virgens juradas existem hoje na Albânia
  • Karabash trabalha há quatro anos em segundo romance ambientado em monastério sírio

O livro 'Aquela que Restou' venceu o prêmio Elias Canetti na Bulgária e foi finalista do Booker Internacional, agora publicado em português. A prática das virgens juradas permite que mulheres assumam papel social masculino nos Bálcãs, gozando de direitos e liberdades negadas às mulheres naquela sociedade.

A escritora búlgara Rene Karabash conquistou prêmios com seu romance de estreia sobre uma jovem que se torna virgem jurada para escapar do patriarcado nos Bálcãs, explorando gênero e liberdade.

Rene Karabash, escritora búlgara, passou anos em busca de uma história que valesse a pena contar. Quando a encontrou, estava do outro lado dos Bálcãs, na Albânia, em fotografias de mulheres que haviam feito um voto de castidade e passavam a viver socialmente como homens em seus vilarejos. Essas mulheres, conhecidas como virgens juradas, pareciam a Karabash andróginas, envelhecidas pela vida que escolheram. Naquele momento, ela soube que havia encontrado o que procurava.

A prática é antiga na região. Permite que mulheres assumam um papel social masculino, ganhando direitos e responsabilidades que de outro modo lhes seriam negados — o direito de chefiar o lar, de carregar armas, de usar relógios de pulso. Não é necessariamente uma transição física, mas uma transformação social radical. Hoje, especialistas estimam que apenas algumas dezenas de virgens juradas existem na Albânia, mas para Karabash, a possibilidade abriu portas literárias que a fascinavam há anos. Ela decidiu usar aquela situação extrema para explorar as leis do patriarcado, para investigar como o masculino e o feminino se refletem nos corpos e nas vidas das pessoas.

O romance de estreia que resultou dessa obsessão, "Aquela que Restou", publicado em 2018, conta a história de Bekia, uma jovem que tenta satisfazer um pai que teria preferido ter um filho homem. Ela busca adotar os comportamentos socialmente esperados de um menino, mas fracassa. Quando a família lhe arranja um casamento, Bekia toma uma decisão radical: faz um voto de castidade e se torna uma ostáinitsa, uma virgem jurada. É uma fuga, mas também uma prisão. A performance da masculinidade que a libertaria do casamento arranjado acaba a machucando e isolando cada vez mais, transformando-se em uma amarra em vez de uma libertação.

O livro tocou profundamente os leitores búlgaros. Karabash recebeu o prêmio Elias Canetti, um dos mais prestigiosos de seu país. Quando a tradução para o inglês foi finalizada, o romance chegou à lista de finalistas do Prêmio Booker Internacional. Agora, a tradução para o português, realizada por Amélia Bonfim e Rada Gankova, chega ao Brasil pela editora Ercolano, trazendo consigo toda a complexidade de uma narrativa que recusa rótulos fáceis.

Karabash não quer que seu livro seja reduzido à etiqueta de "queer", embora ela mesma se defina assim. A questão, para ela, é mais profunda. Bekia está apaixonada por uma amiga, sim, mas em uma sociedade onde palavras como "gay" e "lésbica" talvez fizessem pouco sentido. O que importa, segundo a autora, são as dinâmicas familiares, aquilo que está sob a pele de Bekia. Classificar o livro como queer reforçaria a ideia de que esses personagens habitam outros mundos. "Prefiro dizer que somos todos iguais", afirma. A autora cresceu em um vilarejo búlgaro com tradições conservadoras, em uma família onde era conhecida a frustração de seu avó por não ter tido filhos homens. Essa experiência pessoal permeia cada página.

O texto de Karabash é incomum. Parágrafos começam com letras minúsculas. Frases se repetem como mantras. A autora descreve o processo de criação de forma quase mística: o livro lhe veio em uma voz que não era inteiramente sua, e ela apenas recebeu a informação. Criou o que veio a ela, ajustou algumas passagens e enviou ao editor, que mudou apenas duas palavras. Não é o processo típico da literatura. Escritores geralmente passam meses ou anos refinando seus textos, que depois circulam por uma esteira de editores, preparadores e revisores. No caso de Karabash, o romance nasceu pronto. "Não digo isso porque seja o meu livro, mas acho que está perfeito. Se eu removesse algumas palavras, tudo entraria em colapso."

A autora percebe semelhanças entre sua cultura e a brasileira, baseando-se na leitura de Clarice Lispector e especialmente de Itamar Vieira Junior. "Há algo de parecido. Eu me sinto muito próxima quando leio. É como se ele estivesse contando as histórias do meu vilarejo." Agora trabalha em um segundo romance, há quatro anos desenvolvendo a ideia, mas ainda não começou a escrever. Espera até que o texto lhe desça em sua própria voz. O livro se passará em um monastério sírio e terá como protagonista uma refugiada. A tensão estará na presença de uma mulher em um espaço proibido. Karabash gostaria de visitar o lugar pessoalmente, mas não pode. Tudo bem. "Minha protagonista vai no meu lugar."

O que une seus trabalhos é uma pergunta fundamental: quão longe as pessoas se dispõem a ir em situações extremas? Bekia sacrifica sua família ao assumir o papel de virgem jurada, condenando-os a um ciclo de vinganças no vilarejo. "Estamos dispostos a sacrificar os mais próximos da gente para nos salvar", diz Karabash. "Mas estamos nos salvando mesmo, quando os sacrificamos?" É essa tensão, essa dor que não se resolve facilmente, que confere camadas de complexidade à sua obra.

Decidi usar aquela situação radical para explorar as leis do patriarcado. Queria falar sobre como o masculino e o feminino se refletem nos nossos corpos.
— Rene Karabash
Não digo isso porque seja o meu livro, mas acho que está perfeito. Se eu removesse algumas palavras, tudo entraria em colapso.
— Rene Karabash, sobre seu processo de escrita
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