Por uma década, o Rio de Janeiro deixou crescer suas favelas sem uma política pública contínua de urbanização — e os moradores dessas comunidades carregam, no cotidiano, o peso dessa ausência. Uma pesquisa do Ibase, que ouviu mais de dez mil vozes em dezoito comunidades, coloca em números o que muitos já vivem na pele: o crescimento acelerado sem infraestrutura, as obras prometidas e nunca concluídas, e a distância persistente entre direitos formais e realidade concreta. O que está em jogo não é apenas política urbana, mas a pergunta mais antiga das cidades — a quem elas pertencem?
Rio sem política contínua de urbanização há uma década, aponta pesquisa em 18 favelas
Urbanização não é serviço, é direito que a cidade não tem garantido
Por que uma pesquisa com dez mil pessoas em dezoito favelas importa agora, em 2026?
Porque revela um padrão que se repetiu por uma década inteira. Não é um problema novo — é um problema que nunca foi resolvido. Os moradores estão dizendo que foram feitas promessas, algumas foram parcialmente cumpridas, e depois tudo parou.
Mas não houve melhorias? Os números mostram que 76% dos moradores antigos reconhecem que os programas contribuíram.
Contribuíram, sim. Mas contribuir não é o mesmo que resolver. Você pode melhorar a água em 60% das casas e ainda deixar 49% sem acesso. Você pode construir uma via e deixar a acessibilidade para pessoas com deficiência em 5,6%. Contribuição é diferente de direito garantido.
O que muda se chamarmos isso de "direito" em vez de "serviço"?
Tudo. Um serviço pode ser interrompido, reduzido, deixado de lado quando a administração muda. Um direito é uma obrigação permanente. Quando você diz que água é um direito, não está pedindo um favor — está exigindo que a cidade cumpra uma responsabilidade.
Parque Unidos tem 84% das obras inacabadas. Como isso acontece?
Programas começam, recebem financiamento, constroem parte do que foi prometido, e depois o dinheiro acaba ou a prioridade muda. Os moradores ficam com ruas meio urbanizadas, promessas meio cumpridas. É pior do que não fazer nada, porque cria expectativa.
A população está crescendo enquanto a urbanização para. Isso é um problema de planejamento ou de vontade política?
Provavelmente os dois. Mas o que a pesquisa deixa claro é que não importa qual seja a razão — o resultado é que 68% das favelas da cidade não têm urbanização estruturada enquanto crescem. Isso é insustentável.
O Pulso
- Quase 90% dos moradores percebem crescimento populacional acelerado em suas comunidades, enquanto a cidade segue uma década sem política contínua de urbanização para acompanhar essa expansão.
- Mais da metade dos moradores mais antigos relata que obras prometidas por programas anteriores jamais foram concluídas — no Parque Unidos, esse índice chega a 84%.
- Cerca de 68% das 1.072 favelas cadastradas no Rio permanecem sem urbanização estruturada, e os déficits em água, saúde, educação infantil e mobilidade afetam dezenas de milhares de pessoas.
- Pesquisadores e moradores convergem na mesma exigência: não mais programas temporários, mas uma mudança de perspectiva que trate urbanização como compromisso permanente com direitos humanos.
Por uma década, o Rio de Janeiro deixou crescer suas favelas sem uma política pública contínua de urbanização — e os moradores dessas comunidades carregam, no cotidiano, o peso dessa ausência. Uma pesquisa do Ibase, que ouviu mais de dez mil vozes em dezoito comunidades, coloca em números o que muitos já vivem na pele: o crescimento acelerado sem infraestrutura, as obras prometidas e nunca concluídas, e a distância persistente entre direitos formais e realidade concreta. O que está em jogo não é apenas política urbana, mas a pergunta mais antiga das cidades — a quem elas pertencem?
O Rio de Janeiro completou uma década sem uma política pública contínua de urbanização de favelas — e os efeitos dessa lacuna são visíveis e mensuráveis. Uma pesquisa do Ibase, realizada com mais de dez mil moradores em dezoito comunidades entre 2022 e 2026, traduz em números uma realidade que muitos já conhecem por experiência própria.
Quase 90% dos entrevistados percebem crescimento populacional em suas comunidades, e mais de 81% notam expansão das áreas ocupadas. Ao mesmo tempo, mais da metade dos moradores mais antigos relata que as obras prometidas pelos programas anteriores nunca foram concluídas. No Parque Unidos, esse índice chega a 84%; no Chapéu Mangueira, a 72%. Dos 1.072 assentamentos cadastrados na cidade, apenas 159 são considerados urbanizados — cerca de 68% permanecem sem urbanização estruturada.
Os déficits são amplos e interligados. Quase metade dos moradores não tem acesso adequado à água; mais de 62% identificam pessoas sem acesso à saúde; o mesmo percentual aponta ausência de educação infantil suficiente. Na mobilidade, 90% dos entrevistados ainda aguardam melhorias para circular pela cidade com dignidade.
Rita Corrêa Brandão, diretora executiva do Ibase e coordenadora da pesquisa, reposiciona o debate: água, saneamento, moradia e transporte não são questões técnicas — são direitos fundamentais. A pesquisa será lançada oficialmente no Clube de Engenharia do Rio e aponta que a resposta necessária não é mais um programa parcial, mas um compromisso permanente da cidade com quem vive em suas favelas.
Rio de Janeiro passou uma década sem uma política pública contínua de urbanização de favelas. Enquanto isso, essas comunidades crescem — e crescem rapidamente — com seus moradores enfrentando dificuldades cada vez maiores para acessar água, saneamento, saúde e transporte. É o que revela uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) que conversou com mais de dez mil pessoas em dezoito favelas diferentes da cidade.
Os números são claros. Quase 90% dos entrevistados veem a população de suas comunidades aumentando. Mais de 81% percebem que as áreas ocupadas estão se expandindo. Ao mesmo tempo, mais da metade dos moradores mais antigos relata que as obras prometidas pelos programas de urbanização anteriores nunca foram completadas. A pesquisa, chamada "Novos Olhares sobre as Transformações Urbanas nas Favelas", coletou dados entre 2022 e 2023, e depois novamente entre 2025 e 2026, incluindo conversas diretas com os moradores para complementar os números com histórias reais.
O cenário é particularmente grave em algumas comunidades. No Parque Unidos, 84% dos entrevistados dizem que as intervenções prometidas não foram concluídas. No Chapéu Mangueira, esse índice chega a 72%. Na Babilônia, 66%. Esses não são números abstratos — representam promessas feitas e não cumpridas, esperança adiada ano após ano. Segundo dados do Instituto Pereira Passos, o Rio tem 1.072 favelas cadastradas. Dessas, apenas 159 são consideradas urbanizadas e 114 parcialmente urbanizadas. Isso significa que cerca de 68% das favelas da cidade permanecem sem urbanização estruturada.
A água é um exemplo particularmente revelador dessa lacuna entre o que foi feito e o que ainda falta. Embora quase 80% dos moradores reconheçam melhorias no abastecimento promovidas pelos antigos programas, quase metade ainda aponta que existem moradores sem acesso adequado à água. Mais de um terço diz que a água não chega diariamente às casas. Quase 29% reclamam da qualidade da água que recebem. A mobilidade é igualmente problemática — 90% dos entrevistados afirmam que ainda são necessárias melhorias para garantir o direito de se locomover pela cidade. Apenas 5,6% perceberam avanços na acessibilidade para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida.
Os serviços de saúde e educação também mostram lacunas profundas. Mais de 62% dos moradores identificam pessoas sem acesso adequado à saúde. O mesmo percentual aponta que crianças não têm acesso à educação infantil. Em algumas comunidades, como Parque Conquista e Vila Moretti, mais de 83% dos entrevistados dizem que não há creches ou pré-escolas suficientes. No Salgueiro, são 82%.
Rita Corrêa Brandão, diretora executiva do Ibase e coordenadora da pesquisa, reposiciona o debate. Não se trata apenas de infraestrutura ou serviços, ela argumenta. Trata-se de direitos humanos. Quando se fala de água, saneamento, moradia ou mobilidade, não são questões técnicas ou administrativas — são direitos fundamentais que a cidade não tem garantido de forma contínua e estruturada.
A pesquisa será lançada oficialmente em uma terça-feira no Clube de Engenharia do Rio, no Centro da cidade. Os dados sugerem que a próxima etapa não pode ser mais um programa temporário ou parcial. Exige-se uma mudança de perspectiva: urbanização não como projeto, mas como compromisso permanente com os direitos dos moradores.
Citações Notáveis
Quando falamos de água, saneamento, moradia ou mobilidade, não estamos falando apenas de serviços. Estamos falando de direitos.— Rita Corrêa Brandão, diretora executiva do Ibase