Reuters: Binance misturou bilhões de clientes com caixa próprio; exchange nega

Depósitos que poderiam ser resgatados, mas não eram realmente depósitos
A linguagem do site da Binance criava expectativas sobre proteção de fundos que a empresa depois negava tecnicamente.
Mark

Por que a Binance mantinha dinheiro de clientes em contas corporativas? Qual era o objetivo prático?

Mimi

Segundo a empresa, não era mistura — era um arranjo técnico para facilitar compras de criptomoedas e garantir a emissão do BUSD. Mas a questão é que o site dela dizia aos usuários que estavam fazendo "depósitos" que poderiam "resgatar", o que criava uma expectativa completamente diferente.

Mark

E o CEO tinha medo dos bancos?

Mimi

Tinha. Changpeng Zhao desconfiava profundamente das instituições financeiras tradicionais e temia congelamento de fundos. Isso explica por que ele queria converter dólares em criptomoedas o mais rápido possível — era uma estratégia de proteção, ou pelo menos assim ele via.

Mark

Mas não houve roubo de dinheiro dos clientes, certo?

Mimi

Correto. Não há evidências de desvio. Mas é exatamente isso que torna a história mais interessante: você pode ter uma prática tecnicamente legal que ainda assim viola expectativas regulatórias e cria riscos sistêmicos.

Mark

Por que o Brasil deixou isso de fora da regulação?

Mimi

As corretoras cripto estrangeiras, incluindo a Binance, apoiaram majoritariamente a exclusão da segregação patrimonial do marco legal. Elas queriam liberdade operacional. Agora o país tem uma lei que entra em vigor sem regras específicas — é um vazio regulatório.

Mark

Então qualquer exchange pode fazer isso aqui?

Mimi

Tecnicamente, sim. Até que o regulador — provavelmente o Banco Central — edite as normas específicas. E isso pode levar tempo. Enquanto isso, o setor opera numa zona cinzenta.

  • Binance misturou US$ 20 milhões de caixa próprio com US$ 15 milhões de clientes em 10 de fevereiro de 2021
  • Prática ocorreu em contas no banco Silvergate entre 2020 e 2021
  • Brasil aprovou marco legal de criptomoedas sem exigir segregação patrimonial, diferentemente de bancos e fundos de investimento

Binance teria misturado recursos de clientes com caixa da empresa quase diariamente em contas no banco Silvergate, conforme fontes da Reuters. A prática levanta preocupações similares ao caso FTX, embora não haja evidências de desvio de fundos dos usuários da Binance.

Reuters reporta que Binance mesclou bilhões em fundos de clientes com patrimônio corporativo em contas do Silvergate entre 2020-2021, violando exigências regulatórias dos EUA. Exchange nega as acusações.

A Binance, a maior plataforma de negociação de criptomoedas do mundo, teria misturado bilhões de dólares de seu próprio caixa com recursos depositados por clientes em contas mantidas no banco Silvergate entre 2020 e 2021, segundo informações que a Reuters obteve de fontes familiarizadas com as operações internas da corretora. A prática, se confirmada, violaria requisitos regulatórios do mercado de capitais americano e sinalizaria falhas graves nos controles internos da empresa. O Silvergate, que entrou em crise e encerrou operações em março deste ano, era um dos principais bancos que a Binance utilizava para suas transações.

De acordo com a reportagem publicada em 23 de maio, as misturas de fundos ocorriam com frequência quase diária. Um exemplo específico mencionado pelas fontes: em 10 de fevereiro de 2021, a Binance teria combinado US$ 20 milhões de seu patrimônio corporativo com US$ 15 milhões em depósitos de clientes em uma única transação. Embora não haja evidências de que valores de usuários tenham sido desviados — diferentemente do que ocorreu na falência da FTX em novembro anterior — a prática levanta questões fundamentais sobre como a exchange tratava o dinheiro confiado a ela.

A Binance rejeitou categoricamente as acusações. Seu porta-voz, Brad Jaffe, afirmou que as contas em questão nunca foram usadas para aceitar depósitos diretos de usuários, mas sim para facilitar compras de criptomoedas. Segundo ele, os fundos eram 100% corporativos, e qualquer dinheiro de clientes que aparecesse nos extratos havia sido depositado pela própria Binance como garantia para a emissão do token BUSD, atrelado ao dólar americano. Jaffe comparou o arranjo a comprar um produto na Amazon — uma analogia que buscava normalizar a prática.

Ex-reguladores americanos consultados pela Reuters, porém, questionam essa justificativa. Entre o final de 2020 e ao longo de 2021, o site da Binance apresentava mensagens dizendo que transferências em dólares eram "depósitos" que seriam "creditados" em contas BUSD e poderiam ser "resgatados". Essa linguagem, segundo especialistas, criava a expectativa legítima de que os fundos dos clientes receberiam a mesma proteção oferecida por depósitos bancários convencionais. A Binance argumentou que os termos eram apenas comunicação e não refletiam o tratamento técnico do dinheiro — uma distinção que os reguladores consideram insuficiente.

Duas fontes anônimas que conversaram com a Reuters afirmaram que pelo menos uma das contas da Binance no Silvergate servia especificamente para receber depósitos de clientes, contradizendo a negação da exchange. Outra pessoa com conhecimento das operações internas revelou que o CEO Changpeng "CZ" Zhao tinha desconfiança profunda dos bancos e temia que os recursos da empresa fossem congelados — o que o motivava a converter dólares em criptomoedas. Essa preocupação não era infundada: em 2022, a Binance teve R$ 450 milhões bloqueados judicialmente em disputa com a fintech Capitual, que intermediava suas operações no Brasil. Embora tenha obtido decisão favorável em maio para recuperar a maior parte do montante, o Tribunal de Justiça de São Paulo suspendeu a decisão dias depois.

No Brasil, a segregação patrimonial — a separação obrigatória entre o patrimônio da instituição e dos clientes — é exigida para bancos e fundos de investimento. Curiosamente, essa proteção foi deixada de fora do marco legal das criptomoedas aprovado em 2022, numa decisão que contou com apoio majoritário de corretoras cripto estrangeiras como a Binance. O novo marco regulatório está previsto para entrar em vigor em junho, mas sem efeitos práticos imediatos, já que as regras específicas para o setor ainda não foram definidas. O órgão regulador responsável ainda será designado pelo Poder Executivo, com o Banco Central como principal candidato. Enquanto isso, a indústria de criptomoedas no país permanece em uma zona cinzenta regulatória, onde práticas que seriam proibidas em setores financeiros tradicionais podem continuar ocorrendo sem supervisão clara.

Essas contas não eram usadas para aceitar depósitos de usuários; elas foram usadas para facilitar compras feitas por usuários
— Brad Jaffe, porta-voz da Binance
Exatamente a mesma coisa que comprar um produto da Amazon
— Brad Jaffe, comparando o arranjo de fundos da Binance
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