Réu ofereceu R$ 2,5 mil para executar ataque com fogo contra morador de rua

Ludierley Satyro José sofreu queimaduras de terceiro grau em 60% do corpo, necessitando internação prolongada com procedimentos dolorosos de limpeza de ferimentos e remoção de tecido queimado.
Acordei em chamas. Não tinha ninguém na rua.
Ludierley relembrou o momento do ataque enquanto se recuperava no hospital com queimaduras graves.
Mark

Por que esse crime específico gerou tanta repercussão? Parece haver muitos crimes graves no Rio.

Mimi

A transmissão ao vivo foi decisiva. Não foi um crime cometido nas sombras — foi exibido em tempo real pela internet, para um grupo que celebrava violência. Isso mudou a escala do dano.

Luke

Mas precisamos ser claros: sabemos que Gabriel ofereceu o dinheiro porque o MPRJ afirma isso na denúncia. Não sabemos ainda se ele será condenado. A investigação inicial apontava R$ 2 mil oferecidos por alguém não identificado — depois identificaram Gabriel. Isso é importante porque mostra como a investigação evoluiu.

Mark

E o adolescente? Ele será julgado como adulto?

Mimi

Não. Ele foi apreendido e responde por ato infracional, não por crime. Mas as acusações são graves — tentativa de homicídio triplamente qualificado e também armazenamento de imagens de abuso sexual infantil encontradas no celular dele.

Luke

Isso é um detalhe que merece atenção. O crime de incêndio é o que chamou atenção pública, mas a investigação descobriu outras coisas no dispositivo dele. Não sabemos ainda como isso vai impactar o julgamento.

Mark

Ludierley sobreviveu. Como ele está agora?

Mimi

Sobreviveu, mas com sequelas graves. Queimaduras de terceiro grau em 60% do corpo. Passou por procedimentos muito dolorosos de limpeza e remoção de tecido queimado. Quando falou com a imprensa, ainda estava internado e em recuperação.

Luke

O que não sabemos é como ele está hoje. A reportagem é de 2025, quando ele estava no hospital. Não temos informações sobre sua recuperação completa, se conseguiu voltar a trabalhar como pretendia, se ainda está vivo. Isso é uma lacuna importante.

Mark

O que a Justiça temia ao manter os acusados presos?

Mimi

Que a soltura gerasse sensação de impunidade e inspirasse novos ataques. A juíza escreveu explicitamente sobre o risco de que outras pessoas em situação de rua fossem atacadas da mesma forma, transmitido ao vivo nas redes.

Luke

Isso é uma preocupação legítima, mas também é especulativa. A decisão se baseia em um cenário possível, não em evidência de que novos ataques estavam sendo planejados. É importante distinguir entre o que é fato confirmado e o que é risco antecipado.

  • Ludierley Satyro José, 46 anos, atacado com coquetéis molotov em fevereiro de 2025 em Jacarepaguá
  • Gabriel Utrini da Veiga Carvalho Silva ofereceu R$ 2,5 mil para executar o crime
  • Ataque transmitido ao vivo pelo Discord; vítima sofreu queimaduras de terceiro grau em 60% do corpo
  • Crime fazia parte de desafio em grupo de internet que fomentava crimes de ódio e apologia ao nazismo

Homem em situação de rua sofreu queimaduras graves após ser atacado com coquetéis molotov enquanto dormia, em crime transmitido ao vivo pela internet. Investigação apontou que o ataque fazia parte de desafio em grupo de internet que fomentava crimes de ódio e apologia ao nazismo.

Gabriel Utrini da Veiga Carvalho Silva ofereceu R$ 2,5 mil para que dois indivíduos incendiassem Ludierley Satyro José enquanto dormia em Jacarepaguá. O ataque foi transmitido ao vivo pelo Discord e deixou a vítima com queimaduras de terceiro grau em 60% do corpo.

Na madrugada de fevereiro de 2025, Ludierley Satyro José acordou em chamas. Dormia em uma calçada em Jacarepaguá, na Zona Sudoeste do Rio, quando ouviu um barulho e sentiu o corpo queimando. Coquetéis molotov foram lançados contra ele enquanto dormia — um ataque que seria transmitido ao vivo pelo Discord para uma audiência invisível na internet. Ludierley, então com 46 anos, sofreu queimaduras de terceiro grau em 60% do corpo. Correu pela rua tentando apagar as chamas, tirando a roupa para se livrar do fogo. Não havia ninguém para ajudar.

O crime não foi espontâneo. Segundo denúncia do Ministério Público do Rio, Gabriel Utrini da Veiga Carvalho Silva planejou o ataque e ofereceu R$ 2,5 mil para que Miguel Felipe dos Santos Guimarães da Silva e um adolescente de 17 anos o executassem. Miguel aparece nas imagens filmando a ação enquanto o adolescente, vestido de preto, acende os artefatos incendiários e os lança contra a vítima. Depois fogem. Ludierley corre pela rua em chamas.

A investigação policial revelou que o ataque fazia parte de um desafio em um grupo de internet onde eram fomentados crimes de ódio e conteúdos de apologia ao nazismo. Os envolvidos buscavam se vangloriar diante dos demais participantes. Horas depois do crime, as imagens começaram a circular. Familiares do adolescente o reconheceram nas imagens e procuraram a polícia. O Discord, plataforma onde a transmissão ocorreu, afirmou ter política de tolerância zero para discurso de ódio e violência — as contas foram banidas, o servidor encerrado, o caso comunicado às autoridades.

Ludierley foi internado no Hospital do Andaraí com dificuldades para falar, respirar e se movimentar. Durante o tratamento, passou diariamente por balneoterapia, procedimento em que é sedado para que os ferimentos sejam limpos e o tecido queimado seja retirado. "Eu não desejo isso nem para o meu pior inimigo. É muita dor", disse ao G1 na época. Mineiro de Juiz de Fora, havia se mudado para o Rio mais de dez anos antes. Trabalhou como auxiliar de serviços gerais, mas enfrentou problemas com drogas e passou a viver nas ruas. Durante uma tentativa de recuperação, conheceu a mulher com quem se casou e teve um filho. Depois voltou a usar drogas e retornou às ruas.

A Justiça manteve a prisão preventiva de Gabriel e Miguel. A juíza Lucia Mothe Glioche destacou a extrema gravidade do caso e a repercussão provocada pela transmissão pela internet. "A transmissão, em tempo real, do crime fez com que ele chegasse ao conhecimento de muitos", escreveu. A decisão também considerou que a soltura poderia gerar sensação de impunidade e estimular ataques semelhantes contra pessoas em situação de rua e vulnerabilidade.

Gabriel e Miguel serão julgados por tentativa de homicídio qualificado por promessa de recompensa, motivo fútil, emprego de fogo e recurso que dificultou a defesa da vítima, além de associação criminosa e corrupção de menor. O adolescente foi apreendido e responde por ato infracional análogo à tentativa de homicídio triplamente qualificado e por armazenamento de imagens de abuso sexual infantil encontradas em seu celular.

No hospital, Ludierley disse ao G1 que pretendia reconstruir a vida. "Quero ter uma vida digna, largar essa maldita droga que só come dinheiro. Quero voltar a trabalhar", afirmou. Quando questionado sobre o que pensava dos responsáveis pelo ataque, respondeu com uma reflexão sobre consequências: "A vida nos ensina muita coisa. O que se planta, se colhe. É o círculo da vida. Se planta o bem, colhe o bem. Se planta o mal, colhe o mal."

Eu não desejo isso nem para o meu pior inimigo. É muita dor.
— Ludierley Satyro José, durante tratamento no hospital
A transmissão, em tempo real, do crime fez com que ele chegasse ao conhecimento de muitos.
— Juíza Lucia Mothe Glioche, na decisão de manutenção da prisão preventiva
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