Dose máxima de 12 mg resultou em perda média de 20,8% do peso (22,5 kg) e 59,5% dos pacientes saíram da obesidade após 80 semanas. Diarreia atingiu 33,6% dos pacientes na dose mais alta, náusea 28%, e disestesia (formigamento na pele) apareceu em 7,3%, sem causa conhecida.
Retatrutida tira metade dos diabéticos da obesidade, mas efeitos colaterais aumentam com dose
Melhorias em exames não significam necessariamente menos doenças
Como um medicamento que causa diarreia em um terço dos pacientes consegue ser considerado promissor?
Porque a perda de peso e o controle da diabetes são tão significativos que muitos pacientes acham que vale a pena. E esses sintomas gastrointestinais aparecem principalmente quando a dose está sendo aumentada — nem sempre persistem.
Mas o estudo acompanhou as pessoas por menos de dois anos. Não sabemos se a disestesia, aquele formigamento na pele que apareceu em 7,3% dos pacientes, desaparece ou piora com o tempo. Isso é um buraco real nos dados.
Verdade. E também não sabemos se o peso volta quando as pessoas param de tomar o medicamento. Esses são os próximos passos que a Lilly precisa investigar.
Por que a dose de 9 miligramas teve mais desistências do que a de 12 miligramas, se a dose maior deveria ter mais efeitos colaterais?
Excelente pergunta. O estudo não explica isso. Pode ser variação estatística, pode ser que os participantes da dose de 9 miligramas tivessem características diferentes. Sem uma análise detalhada, não dá para tirar conclusão.
E isso mostra por que esses números precisam ser contextualizados. Não é que a dose de 9 miligramas seja menos segura — é que ainda há muita coisa que não entendemos completamente.
Se o medicamento melhora tanto os marcadores de risco cardiovascular, ele previne infarto?
Não. Melhorias em exames não significam necessariamente menos eventos. Só um estudo feito especificamente para acompanhar infartos e derrames pode responder isso. A Lilly está fazendo pesquisas desse tipo, mas os resultados ainda não foram divulgados.
É a diferença entre ter números melhores no laboratório e ter vidas realmente salvas. Um é promissor, o outro é prova.
E quanto aos medicamentos falsificados que estão circulando?
Esse é talvez o problema mais imediato. Mais de 11 milhões de reais em canetas falsas foram apreendidas em Foz do Iguaçu no primeiro trimestre de 2026. Ninguém sabe o que essas canetas contêm, e nenhum dos resultados de segurança do estudo vale para elas.
The Pulse
- Dose de 12 mg resultou em perda média de 20,8% do peso (22,5 kg) em 80 semanas
- 59,5% dos pacientes na dose máxima saíram da obesidade; até 40% normalizaram glicemia
- Diarreia atingiu 33,6% na dose mais alta; disestesia (formigamento na pele) apareceu em 7,3%, sem causa conhecida
- Medicamento ainda aguarda aprovação regulatória; Lilly planeja solicitar registro à FDA no primeiro trimestre de 2027
- Mais de R$ 11 milhões em canetas falsificadas foram apreendidas em Foz do Iguaçu no primeiro trimestre de 2026
Dose máxima de 12 mg resultou em perda média de 20,8% do peso (22,5 kg) e 59,5% dos pacientes saíram da obesidade após 80 semanas. Diarreia atingiu 33,6% dos pacientes na dose mais alta, náusea 28%, e disestesia (formigamento na pele) apareceu em 7,3%, sem causa conhecida.
Estudo TRIUMPH-2 mostra que retatrutida leva mais da metade dos pacientes com diabetes tipo 2 à remissão da obesidade, com até 40% normalizando glicemia, mas efeitos colaterais gastrointestinais e neurológicos aumentam com a dose.
Um medicamento experimental chamado retatrutida conseguiu tirar mais da metade dos adultos com diabetes tipo 2 da obesidade em 80 semanas de tratamento. Os resultados, apresentados nesta terça-feira em congresso europeu e publicados simultaneamente na revista The Lancet, mostram que até 40% dos participantes normalizaram seus níveis de glicose no sangue. Mas o mesmo remédio que produz essas perdas de peso significativas também traz efeitos colaterais que aumentam conforme a dose sobe.
O estudo TRIUMPH-2 é um ensaio de fase 3 da farmacêutica Eli Lilly, a última etapa de testes antes de um medicamento poder ser pedido para aprovação regulatória. Participaram 1.152 pessoas que começaram o estudo pesando em média 106,4 quilos, com índice de massa corporal de 38,2 — o que corresponde à obesidade grau 2. Na dose mais alta, de 12 miligramas, os pacientes perderam em média 20,8% do peso, ou cerca de 22,5 quilos. Ao fim do tratamento, 59,5% de todos os que receberam essa dose estavam com índice de massa corporal abaixo de 30, o limite que define a obesidade. Entre aqueles que começaram ainda mais pesados, com índice igual ou superior a 35, a redução foi ainda maior: 23,4% do peso, ou 27,5 quilos.
A retatrutida pertence à mesma família de medicamentos do Ozempic e do Mounjaro, remédios que imitam hormônios produzidos pelo intestino e aumentam a sensação de saciedade. Mas ela vai além: enquanto a semaglutida age sobre um desses hormônios e a tirzepatida sobre dois, a retatrutida é a primeira a agir também sobre o glucagon, um hormônio que faz o corpo gastar mais energia. Segundo Clayton Macedo, doutor em endocrinologia e diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, os resultados ganham relevância justamente porque foram obtidos em pessoas com diabetes tipo 2, população em que a resistência à insulina e o uso de outros medicamentos costumam limitar o efeito dos remédios para obesidade.
O controle da diabetes melhorou junto com o peso. A hemoglobina glicada, exame que mostra a média de açúcar no sangue nos últimos três meses, caiu cerca de 1,5 ponto percentual em todas as doses. Com as doses mais altas, quase oito em cada dez participantes ficaram abaixo do valor usado para diagnosticar diabetes, contra um em cada quatro no grupo que recebeu placebo. O medicamento também melhorou marcadores de risco cardiovascular: os triglicerídeos caíram 39,5%, o colesterol não-HDL diminuiu 19,6%, a pressão arterial máxima caiu 10,8 milímetros de mercúrio, a proteína C-reativa — que indica inflamação — caiu 58,3%, e a circunferência da cintura diminuiu 16,9 centímetros. Esses resultados, porém, ainda não permitem afirmar que a retatrutida previne infarto, acidente vascular cerebral ou doença renal. Melhorias em exames não significam necessariamente menos casos dessas doenças, e só estudos feitos especificamente para acompanhar esses eventos podem dar essa resposta.
Os efeitos colaterais mais comuns foram gastrointestinais e aumentaram com a dose. Na dose de 12 miligramas, diarreia atingiu 33,6% dos pacientes, contra 13,2% no grupo placebo. Náusea afetou 28% dos pacientes, contra 8% no placebo. Vômitos atingiram 15,7%, contra 4,2%. Segundo Macedo, esses sintomas são característicos dos tratamentos baseados em incretinas, os hormônios intestinais sobre os quais o remédio atua, e aparecem sobretudo nas semanas em que a dose é aumentada. Um efeito menos conhecido também surgiu com mais frequência: a disestesia, uma alteração da sensibilidade que provoca formigamento, queimação ou desconforto ao toque sem nenhum estímulo que justifique a sensação. Entre os que tomaram 4 miligramas, 4,5% tiveram disestesia. Entre os que tomaram 9 miligramas, 5,6%. Entre os que tomaram 12 miligramas, foram 7,3%. No grupo placebo, apenas 0,7% relataram o problema. A causa dessa alteração ainda não é conhecida, e os dados não permitem atribuí-la à ação da molécula sobre o glucagon.
Parte dos participantes interrompeu o tratamento por causa dos efeitos adversos. Na dose de 4 miligramas, 3,8% dos pacientes pararam. Na de 9 miligramas, 11,6% interromperam. Na de 12 miligramas, 7,7% pararam. No grupo placebo, 4,9% interromperam. Segundo o especialista, não há base para concluir que a dose de 9 miligramas seja menos segura — a diferença pode refletir variação estatística ou características dos participantes de cada grupo. Sete mortes foram registradas ao longo do estudo e consideradas sem relação com o medicamento, mas um número tão pequeno de eventos não permite medir o efeito do remédio sobre a mortalidade.
Um estudo com pouco mais de mil pessoas acompanhadas por menos de dois anos deixa perguntas sem resposta. Ainda não se sabe se a disestesia persiste com o uso prolongado, se a pressão baixa aumenta o risco de quedas, se o peso perdido se mantém depois que o tratamento é interrompido, ou se o medicamento realmente previne doenças cardiovasculares. A Eli Lilly planeja pedir o registro da retatrutida à Food and Drug Administration, agência reguladora dos Estados Unidos, no primeiro trimestre de 2027. Pedidos em outros países, como o Brasil, devem vir depois. Hoje, a única forma legal de receber a substância é participar de um dos estudos clínicos da fabricante. Mesmo assim, canetas vendidas com esse nome circulam no país — as apreensões de canetas emagrecedoras irregulares feitas pela Receita Federal e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária na região de Foz do Iguaçu passaram de 11 milhões de reais só no primeiro trimestre de 2026. Fora dos estudos, não há controle sobre o que o produto contém.
Notable Quotes
Tratar as duas condições — diabetes e obesidade — ao mesmo tempo sempre foi um desafio, e resultados nesse patamar podem mudar o que se espera de uma única terapia para esses pacientes— Juan P. Frías, investigador principal do estudo TRIUMPH-2
Esses sintomas são característicos dos tratamentos baseados em incretinas e aparecem sobretudo nas semanas em que a dose é aumentada— Clayton Macedo, endocrinologista e diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia