Em um momento em que a medicina busca respostas mais eficazes para a intersecção entre obesidade e diabetes tipo 2, a retatrutida surge como um candidato promissor: um medicamento que age em três eixos hormonais ao mesmo tempo e que, em ensaio clínico de fase 3 publicado no The Lancet, reduziu o peso corporal em até 18,8% ao longo de 80 semanas. O estudo TRIUMPH-2, conduzido em oito países incluindo o Brasil, coloca em perspectiva os limites dos tratamentos anteriores e levanta questões sobre o que significa, de fato, tratar a obesidade em quem já convive com o diabetes. O medicamento, porém,
Retatrutida reduz peso em mais de 18% em obesos com diabetes tipo 2
Redução de 21,9% em quem mais precisava, contra 3,8% no placebo
Por que esse resultado é tão diferente do que temos visto com outros medicamentos para diabetes e obesidade?
A retatrutida funciona em três receptores ao mesmo tempo, não apenas dois como a tirzepatida. Isso parece criar um efeito mais potente, especialmente em pessoas cuja doença não responde bem aos agonistas de GLP-1 sozinhos.
Mas vale notar que o estudo não comparou retatrutida com tirzepatida diretamente. Sabemos que retatrutida perdeu mais peso, mas não sabemos se é porque é melhor ou se a população era diferente.
E quanto aos efeitos colaterais? Diarreia em 34% parece bastante alto.
É alto, mas a maioria foi leve a moderada. O que preocupa mais é que 12% dos pacientes na dose de 9 mg tiveram que parar o tratamento por efeitos adversos.
Verdade. E há três casos de pancreatite — não é um número grande, mas é algo que precisa ser monitorado quando o medicamento chegar ao mercado.
Quando esse medicamento vai estar disponível para os pacientes?
Ainda não tem aprovação em nenhuma agência regulatória. No Brasil, precisa passar pela Anvisa primeiro.
E há uma pergunta em aberto: quanto tempo o efeito dura? O estudo acompanhou os pacientes por 80 semanas, mas não sabemos se a perda de peso se mantém depois ou se o peso volta.
A população do estudo era representativa?
Tinha IMC médio de 38,2 e 92% já usava medicamentos orais para diabetes — era gente com doença bem estabelecida, não casos leves.
Exatamente. Então os resultados valem para pessoas com obesidade grave e diabetes tipo 2 mal controlado, mas não necessariamente para toda pessoa com sobrepeso.
Il Polso
- A retatrutida reduziu o peso em até 18,8% — superando os 14,7% alcançados pela tirzepatida no mesmo perfil de pacientes —, o que reacende o debate sobre o teto terapêutico dos agonistas de GLP-1 isolados.
- Três em cada quatro pacientes que receberam a dose mais alta perderam ao menos 10% do peso, um limiar considerado clinicamente relevante para alterar a progressão do diabetes tipo 2.
- Os efeitos adversos gastrointestinais foram frequentes — diarreia em 34% e náuseas em 28% —, e a taxa de abandono por efeitos colaterais chegou a 12% com a dose intermediária, sinalizando desafios reais de tolerabilidade.
- O estudo não incluiu comparador ativo e não responde se o efeito se sustenta após a interrupção do tratamento, deixando lacunas que reguladores e clínicos precisarão enfrentar.
- Sem aprovação da Anvisa nem de outras agências internacionais, a retatrutida permanece fora do alcance dos pacientes — a ciência avançou, mas o acesso ainda não.
Em um momento em que a medicina busca respostas mais eficazes para a intersecção entre obesidade e diabetes tipo 2, a retatrutida surge como um candidato promissor: um medicamento que age em três eixos hormonais ao mesmo tempo e que, em ensaio clínico de fase 3 publicado no The Lancet, reduziu o peso corporal em até 18,8% ao longo de 80 semanas. O estudo TRIUMPH-2, conduzido em oito países incluindo o Brasil, coloca em perspectiva os limites dos tratamentos anteriores e levanta questões sobre o que significa, de fato, tratar a obesidade em quem já convive com o diabetes. O medicamento, porém, ainda aguarda aprovação regulatória — e a distância entre a evidência científica e a prática clínica permanece, por ora, intacta.
Um ensaio clínico de fase 3 publicado no The Lancet no final de setembro apresenta dados que podem redefinir o tratamento da obesidade em pacientes com diabetes tipo 2. A retatrutida — que age simultaneamente nos receptores de GIP, GLP-1 e glucagon — reduziu o peso corporal em até 18,8% ao longo de 80 semanas, contra 5,1% no grupo placebo. O estudo, financiado pela Eli Lilly, recrutou 1.152 participantes em 92 centros de oito países, incluindo o Brasil.
A população estudada tinha IMC médio de 38,2 kg/m², e 92% já usavam medicamentos orais para controlar o diabetes — um perfil de doença estabelecida e de difícil manejo. Entre os pacientes com IMC igual ou superior a 35 kg/m², a perda chegou a 21,9% com a dose mais alta. Três em cada quatro participantes que receberam 12 mg perderam ao menos 10% do peso, comparado a um em cada cinco no grupo controle.
Além do emagrecimento, o medicamento melhorou o controle glicêmico: a hemoglobina glicada caiu entre 1,38% e 1,50%, e até 72% dos tratados atingiram níveis considerados de bom controle, contra 29% no placebo. Pressão arterial sistólica e triglicerídeos também recuaram de forma significativa.
Os efeitos colaterais, porém, foram frequentes. Diarreia afetou 34% dos pacientes e náuseas, 28% — geralmente leves a moderadas. A taxa de abandono por efeitos adversos chegou a 12% com a dose de 9 mg, e três casos de pancreatite foram registrados no grupo tratado. O estudo não incluiu comparador ativo e não esclarece o que ocorre com o peso após a interrupção do tratamento.
A retatrutida supera os 14,7% de perda de peso registrados pela tirzepatida no estudo SURMOUNT-2 — até então o melhor resultado documentado nessa população. Ainda assim, o medicamento não possui aprovação da Anvisa nem de outras agências regulatórias internacionais, o que significa que permanece indisponível para prescrição clínica em qualquer país.
Um ensaio clínico de fase 3 publicado no The Lancet no final de setembro apresenta resultados que podem reconfigurar o tratamento da obesidade em pacientes com diabetes tipo 2. A retatrutida, um medicamento que atua simultaneamente em três receptores hormonais distintos — GIP, GLP-1 e glucagon — conseguiu reduzir o peso corporal em até 18,8% ao longo de 80 semanas, uma melhora substancial comparada aos 5,1% observados com placebo.
O estudo TRIUMPH-2 recrutou 1.152 participantes distribuídos em 92 centros espalhados por oito países, entre eles o Brasil. Os voluntários foram divididos aleatoriamente para receber placebo ou retatrutida em doses semanais de 4 mg, 9 mg ou 12 mg. A população estudada tinha índice de massa corporal médio de 38,2 kg/m², e 92% já faziam uso de medicamentos orais para controlar o diabetes — um indicador de que se tratava de uma doença já estabelecida e de difícil controle. A Eli Lilly financiou a pesquisa.
Entre os pacientes com IMC de 35 kg/m² ou superior, a redução de peso chegou a 21,9% com a dose mais alta, contra apenas 3,8% no grupo placebo. Três em cada quatro participantes que receberam 12 mg perderam pelo menos 10% do seu peso corporal, comparado a um em cada cinco no grupo controle. Essa magnitude de perda — acima de 10% a 15% — tem potencial para alterar significativamente a progressão do diabetes, segundo os autores do estudo.
Além da redução de peso, o medicamento melhorou o controle glicêmico. A hemoglobina glicada caiu entre 1,38% e 1,50%, enquanto o placebo produziu queda de apenas 0,45%. Como resultado, até 72% dos pacientes tratados atingiram níveis de hemoglobina glicada de 6,5% ou menores — considerado um bom controle — contra 29% no grupo placebo. O tratamento também reduziu a pressão arterial sistólica em até 9,7 mmHg e os triglicerídeos em até 35,6%, ambos marcadores importantes para a saúde cardiovascular.
Os efeitos colaterais, porém, foram frequentes. Diarreia afetou 34% dos pacientes tratados e náuseas atingiram 28%, comparado a 13% e 8% no placebo, respectivamente — geralmente de intensidade leve a moderada. Hipotensão ocorreu em até 6% dos tratados e uma sensação anormal de formigamento em até 7%, contra menos de 1% no placebo para ambos os eventos. Três casos de inflamação do pâncreas foram registrados no grupo da retatrutida. A interrupção do tratamento por efeitos adversos ou morte chegou a 12% com a dose de 9 mg, contra 5% no placebo, embora todas as mortes tenham sido consideradas pelos investigadores como não relacionadas ao medicamento.
Este resultado representa um avanço notável em relação aos tratamentos anteriores. A tirzepatida, outro medicamento de ação dupla aprovado para diabetes tipo 2, havia alcançado uma perda de peso de 14,7% no estudo SURMOUNT-2 — até então o melhor resultado documentado nessa população. A retatrutida agora supera esse número, oferecendo também melhora adicional no controle glicêmico e em outros marcadores de risco cardiovascular.
Uma limitação importante do estudo é que não incluiu um comparador ativo — ou seja, não confrontou a retatrutida diretamente com outros medicamentos já disponíveis. Além disso, os dados sobre a perda de peso a longo prazo permanecem desconhecidos; o acompanhamento foi de 80 semanas, mas não está claro se o efeito se mantém indefinidamente ou se o peso volta a aumentar após a interrupção do tratamento. A retatrutida ainda não possui registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária brasileira nem aprovação de outras agências regulatórias internacionais, o que significa que o medicamento não está disponível para prescrição clínica em nenhum país por enquanto.
Citazioni salienti
A retatrutida alcança 18,8% de perda de peso, com melhora adicional do controle glicêmico e de outros marcadores cardiometabólicos, ampliando as perspectivas de tratamento para essa população— Dra. Priscila Aroucha, endocrinologista da Afya