Remoinhos solares revelam origem do clima espacial que afeta satélites

O Sol é um laboratório único onde a física fundamental se desenrola à nossa frente
Os astrónomos sublinham a importância científica das novas imagens do Telescópio Solar Inouye.
Mark

Porque é que levou tanto tempo a ver estes remoinhos? Não tínhamos telescópios antes?

Mimi

Tínhamos, mas não com este poder de ampliação. O Inouye é o mais potente do mundo. É como a diferença entre ver uma cidade de longe e conseguir contar as janelas de cada prédio.

Mark

E estes remoinhos — são novos? Apareceram recentemente no Sol?

Mimi

Não, sempre estiveram lá. O que é novo é conseguirmos vê-los. Agora que os vemos, percebemos que são a chave para entender as explosões.

Mark

Então a energia magnética acumula-se nestes remoinhos até explodir?

Mimi

Exatamente. O movimento giratório do gás quente torce o campo magnético, cria tensão, e essa tensão liberta-se em explosões que viajam até nós.

Mark

Qual é o risco real para nós aqui na Terra?

Mimi

Satélites podem deixar de funcionar. Comunicações podem cair. Redes elétricas podem sofrer danos. E isto acontece regularmente — eventos moderados a cada ciclo de 11 anos, eventos extremos menos vezes, mas ainda assim.

Mark

Agora que sabem como funciona, conseguem prever quando vai acontecer?

Mimi

Esse é o objetivo. Compreender o mecanismo é o primeiro passo para conseguir antecipar as explosões e proteger-nos.

  • Telescópio Solar Inouye captou pela primeira vez vórtices magnéticos na superfície do Sol
  • Tempestades solares extremas ocorrem em média uma vez por ciclo solar de 11 anos
  • Incidente do Dia da Bastilha (14 de julho de 2000) causou curto-circuitos em satélites e afetou comunicações rádio globais
  • Descobertas publicadas na revista Nature

Cientistas captaram pela primeira vez vórtices de atividade magnética no Sol que geram as explosões de energia responsáveis pelo clima espacial. Tempestades solares extremas ocorrem em média uma vez por ciclo solar de 11 anos e podem danificar satélites, comunicações e sistemas eletrónicos na Terra.

Imagens do Telescópio Solar Inouye revelam remoinhos magnéticos na superfície do Sol, explicando a origem das tempestades solares que afetam satélites e infraestruturas terrestres.

Os astrónomos acabam de ver algo que nunca tinham visto antes: os remoinhos magnéticos que vivem na superfície do Sol e que explicam, finalmente, por que razão o nosso planeta é periodicamente atingido por tempestades solares capazes de derrubar satélites e deixar continentes sem comunicações.

Durante décadas, os cientistas sabiam que o Sol emite ventos solares contínuos que moldam o ambiente espacial à sua volta. Sabiam também que estes ventos podem intensificar-se em explosões de energia devastadoras — tempestades solares que afetam desde o funcionamento de satélites até às infraestruturas terrestres e, em casos extremos, à saúde humana. Mas faltava-lhes a peça fundamental do puzzle: como é que estas explosões começam?

As imagens captadas pelo Telescópio Solar Inouye, instalado num pico elevado no Havai onde o céu se mantém límpido e livre de poeira, revelaram agora a resposta. O telescópio solar mais potente do mundo conseguiu ampliar a superfície do Sol com um detalhe sem precedentes, mostrando vórtices em espiral — remoinhos de atividade magnética que nunca antes tinham sido visíveis. Os cientistas puderam observar, pela primeira vez com clareza, o campo magnético do Sol a ser torcido e deslocado pelo movimento do gás quente. Este movimento giratório constante é a força motriz por trás das explosões de energia solar. David Boboltz, do Observatório Solar Nacional dos EUA, explicou à BBC que estas imagens ajudam a "compreender e, eventualmente, prever o clima espacial", porque os movimentos de torção estão constantemente a criar energia magnética que pode acumular-se até produzir explosões em grande escala.

As descobertas, publicadas na revista Nature, chegam num momento em que a compreensão destes fenómenos é cada vez mais urgente. A Agência Espacial Portuguesa sublinha que as tempestades solares apresentam "sérios riscos para os sistemas de satélites, voos espaciais tripulados e diferentes sistemas eletrónicos na Terra". Durante cada ciclo solar de 11 anos, eventos moderados ocorrem com frequência, mas os verdadeiramente preocupantes — os eventos extremos — acontecem em média apenas uma vez por ciclo. O mais recente grande evento ocorreu no final de outubro de 2003, durante o Halloween. Antes disso, no dia 14 de julho de 2000, uma explosão solar provocou curto-circuitos em satélites e afetou as comunicações rádio em todo o mundo, um incidente que ficou conhecido como o Incidente do Dia da Bastilha.

Os astrónomos da NSO sublinham que, para além da necessidade prática de nos protegermos do clima espacial, estas novas descobertas recordam-nos que o Sol é um "laboratório único" — um lugar onde a física fundamental se desenrola à nossa frente, esperando apenas que tenhamos ferramentas suficientemente poderosas para a ver. Agora que vemos os remoinhos, o próximo passo é aprender a prever quando é que vão explodir.

Estes movimentos de torção estão a criar energia magnética, que pode acumular-se até produzir essas explosões em grande escala
— David Boboltz, Observatório Solar Nacional dos EUA
As tempestades solares apresentam sérios riscos para os sistemas de satélites, voos espaciais tripulados e diferentes sistemas eletrónicos na Terra
— Agência Espacial Portuguesa
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