O Brasil atravessa um momento de reordenamento silencioso no universo dos criptoativos: as novas exigências do Banco Central — capital mínimo elevado e autorização obrigatória — funcionam como um filtro que separa quem tem escala de quem não tem. Corretoras encerram portas, fusões se anunciam e bancos aguardam na entrada, enquanto o setor se prepara para emergir menor em número, mas mais institucionalizado. É a velha tensão entre a liberdade que fundou um mercado e a ordem que pretende consolidá-lo.
Regulação do BC força consolidação no setor de criptoativos com saídas e fusões
Continuar com a operação já não é mais viável
Por que o Banco Central decidiu aumentar tanto os requisitos de capital? Isso não parecia necessário em 2024.
A regulação evoluiu. O BC viu o mercado crescer para R$ 283 bilhões no primeiro semestre de 2026 e decidiu que precisava de mais solidez. Os números finais foram bem maiores que os propostos nas consultas públicas.
Mas ninguém sabe quantas empresas realmente existem nesse mercado, certo? Porque não é regulado ainda. Então como o BC calibrou esses números?
Boa pergunta. O comunicado não explica a metodologia. Sabemos que as exigências subiram de R$ 1-3 milhões para R$ 10,8-37,2 milhões, mas o raciocínio específico não está documentado aqui.
E as empresas que saíram — Bitnuvem, Coinext, NovaDAX — elas realmente não tinham capital para se adequar?
Bitnuvem tinha 80 mil clientes e R$ 1,5 bilhão negociado. Coinext tinha 420 mil clientes e R$ 14 bilhões. Então não é que fossem pequenas. Mas ambas disseram que os custos não se justificavam.
Espera. Coinext explorou parcerias e nenhuma funcionou. Bitnuvem citou concorrência também. Então não é só regulação — é regulação mais concorrência. Elas poderiam ter se adequado, mas não viram futuro.
Exato. E Vanessa Butalla do Mercado Bitcoin deixa claro que o capital mínimo é só o começo. Tem segurança cibernética, compliance, gestão de riscos. O custo total de operação é bem maior.
Então quantas das 45 associadas da ABcripto vão realmente pedir autorização?
Diego Pérez estima entre 15 e 30. Menos da metade, possivelmente.
Mas isso é estimativa dele. Não há confirmação de quantas realmente vão solicitar até 30 de outubro. E não sabemos quantas serão aprovadas.
Verdade. O prazo termina em 30 de outubro, mas o artigo não diz quantas já solicitaram ou quantas o BC espera aprovar.
E os bancos entrando no mercado — isso vai ajudar ou prejudicar?
Provavelmente ambos. Ajuda porque traz mais capital e confiança. Prejudica porque as corretoras menores não conseguem competir com a escala de um banco.
Nildson Alves da Onda Finance diz que o desafio é manter-se competitivo e oferecer experiência personalizada. Mas ele também é o CEO de uma empresa em processo de autorização. Então há um interesse ali em mostrar que a regulação é boa.
Der Puls
- Quatro corretoras — Bitnuvem, NovaDAX, Digitra.com e Coinext — já encerraram operações em 2026, incapazes de absorver os novos custos regulatórios.
- O capital mínimo exigido pelo Banco Central saltou de pisos simbólicos de R$ 1 a 3 milhões para faixas entre R$ 10,8 milhões e R$ 37,2 milhões, surpreendendo o setor.
- Fusões e parcerias emergem como saída: Mercado Bitcoin absorveu clientes da Bitso e da Bity, sinalizando que a consolidação já está em curso antes mesmo do prazo de 30 de outubro.
- Entre 15 e 30 das 45 associadas da ABcripto devem pedir autorização ao BC, enquanto bancos aguardam para entrar num mercado que movimentou R$ 283 bilhões no primeiro semestre de 2026.
O Brasil atravessa um momento de reordenamento silencioso no universo dos criptoativos: as novas exigências do Banco Central — capital mínimo elevado e autorização obrigatória — funcionam como um filtro que separa quem tem escala de quem não tem. Corretoras encerram portas, fusões se anunciam e bancos aguardam na entrada, enquanto o setor se prepara para emergir menor em número, mas mais institucionalizado. É a velha tensão entre a liberdade que fundou um mercado e a ordem que pretende consolidá-lo.
O mercado brasileiro de criptoativos vive uma reconfiguração forçada. Depois que o Banco Central estabeleceu exigências de capital mínimo e autorização obrigatória para empresas do setor, o cenário mudou rapidamente: algumas corretoras saíram do país, outras buscaram fusões para sobreviver e poucas têm condições de cumprir os requisitos sozinhas.
O tamanho do mercado em jogo é expressivo — R$ 283 bilhões circularam pelo setor no primeiro semestre de 2026, com R$ 177,6 bilhões negociados por corretoras, segundo a Receita Federal. Mas essa movimentação está sendo redefinida pelas novas regras. Quatro corretoras já anunciaram encerramento de atividades: Bitnuvem, NovaDAX, Digitra.com e Coinext. A Bitnuvem, com mais de 80 mil clientes e R$ 1,5 bilhão negociado em sete anos, afirmou que "continuar com a operação já não é mais viável". A Coinext, com 420 mil clientes e R$ 14 bilhões em volume, explorou alternativas mas não encontrou nenhuma viável.
O cerne do problema está nos números. O BC dividiu as prestadoras de serviços em três categorias — intermediárias, custodiantes e corretoras — com exigências de capital entre R$ 10,8 milhões e R$ 37,2 milhões. Os valores são muito superiores aos propostos nas consultas públicas de 2024, que previam pisos de R$ 1 a 3 milhões. Diego Pérez, vice-presidente da ABcripto, estima que apenas 15 a 30 dos cerca de 45 associados planejam pedir autorização até o prazo de 30 de outubro. Ele reconhece que as regras trazem solidez ao setor, mas admite que o salto no capital exigido força mudanças de rota: fusões para alguns, encerramento para outros.
A consolidação já está em andamento. Em setembro, Mercado Bitcoin e Bitso anunciaram fusão, direcionando clientes brasileiros da Bitso para a plataforma nacional. Em outubro, o Mercado Bitcoin firmou parceria para absorver clientes de varejo da Bity — corretora com 850 mil usuários e mais de R$ 1 bilhão em custódia — que decidiu não investir no novo marco regulatório. Vanessa Butalla, vice-presidente do Mercado Bitcoin, lembra que o desafio vai além do capital: segurança cibernética, compliance e gestão de riscos somam custos consideráveis. O setor que emergirá dessa transição será menor em número de players, mas potencialmente mais sólido — e com bancos prontos para disputar espaço.
O setor de criptoativos no Brasil enfrenta um momento de reconfiguração forçada. Depois que o Banco Central estabeleceu regras mais rigorosas para empresas que operam com ativos virtuais — incluindo exigências de capital mínimo e autorização de funcionamento obrigatória — o mercado começou a se reorganizar. Algumas corretoras simplesmente saíram do país. Outras buscaram fusões e parcerias para sobreviver. Poucas têm condições de cumprir os novos requisitos sozinhas.
O tamanho do mercado em questão é considerável. No primeiro semestre de 2026, R$ 283 bilhões circularam pelo setor de criptoativos no Brasil, com R$ 177,6 bilhões negociados especificamente por meio de corretoras, conforme dados da Receita Federal. As operações concentraram-se em stablecoins como USDT e USDC, além de bitcoin. Mas essa movimentação está sendo redefinida pelas novas regras.
Quatro corretoras já anunciaram o encerramento de atividades em 2026: Bitnuvem, NovaDAX, Digitra.com e Coinext. Outras — Crypto.com, Bitso e Bity — comunicaram ajustes significativos em seus serviços. A Bitnuvem, que havia acumulado mais de 80 mil clientes cadastrados e negociado mais de R$ 1,5 bilhão em sete anos de operação, atribuiu o fechamento à regulação e à concorrência, afirmando em comunicado que "continuar com a operação já não é mais viável". A Coinext, que contava com 420 mil clientes e R$ 14 bilhões em volume negociado, explorou alternativas e conversou com potenciais parceiros, mas concluiu que nenhuma das opções analisadas se mostrou viável.
O cerne do problema está nos números. O Banco Central estabeleceu que as Sociedades Prestadoras de Serviços de Ativos Virtuais (SPSAVs) serão divididas em três categorias, cada uma com exigências de capital mínimo distintas. Intermediárias — empresas que medeiam negociações e distribuem ativos virtuais — precisarão de capital entre R$ 10,8 milhões e R$ 25,9 milhões. Custodiantes, responsáveis pela guarda dos ativos, deverão ter entre R$ 12,4 milhões e R$ 37,2 milhões. Corretoras, que acumulam ambas as funções, precisarão de capital entre R$ 16,8 milhões e R$ 37,2 milhões. Esses valores são significativamente superiores aos propostos nas consultas públicas realizadas pelo BC em 2024, que estabeleciam pisos de R$ 1 milhão para intermediárias, R$ 2 milhões para custodiantes e R$ 3 milhões para corretoras.
Diego Pérez, vice-presidente da ABcripto (Associação Brasileira de Criptoeconomia), estima que entre 15 e 30 dos cerca de 45 associados da entidade planejam solicitar autorização ao Banco Central. O prazo para as empresas já atuantes no setor pedirem licença de operação termina em 30 de outubro. Pérez reconhece que as novas regras reforçam a solidez e a segurança do setor, mas pondera que o aumento expressivo do capital mínimo exigido pesa significativamente nos cofres das corretoras. "Isso faz com que algumas dessas empresas tenham que mudar a rota. Em alguns casos, elas vão se juntar com outras; em outros, empresas menores vão encerrar atividades, porque não têm investimento disponível para cumprir os requisitos."
O movimento de consolidação já está em andamento. Em setembro, Mercado Bitcoin e Bitso anunciaram uma fusão, direcionando clientes da Bitso no Brasil para a plataforma brasileira. Nicolás Alonso, responsável pela Bitso Brasil, descreveu a medida como parte de uma decisão estratégica de focar em serviços de maior valor agregado, reconhecendo que o ambiente regulatório brasileiro é dinâmico. No início de outubro, Mercado Bitcoin também firmou parceria para atender clientes de varejo da Bity, corretora com 850 mil usuários cadastrados e mais de R$ 1 bilhão em ativos sob custódia. A Bity afirmou que "manter uma corretora de varejo sob o novo marco exige um investimento dedicado que escolhemos não fazer neste momento".
Vanessa Butalla, vice-presidente de jurídico, compliance e riscos do Mercado Bitcoin, aponta que o desafio vai além do capital mínimo. As empresas precisam se estruturar em segurança cibernética, controles internos, compliance e gestão de riscos. Quando se soma a manutenção de um determinado capital regulatório com investimentos nessas outras áreas, o custo de operação aumenta consideravelmente. Erik Oioli, sócio da área de mercado de capitais do VBSO Advogados, observa que as exigências tendem a favorecer empresas com escala suficiente para absorver esses custos, enquanto empresas menores — especialmente aquelas para as quais criptoativos não é a atividade principal — podem optar por não buscar licença própria.
Há também expectativa de maior concorrência com a entrada de bancos no setor. Para Nildson Alves, CEO da fintech Onda Finance (primeira em processo de autorização formal no Banco Central), o desafio agora é manter-se competitivo, continuar atraindo serviços para os clientes e desenvolver um atendimento mais personalizado. O cliente, segundo Alves, buscará o que melhor o atende em termos de experiência. O setor que emerge dessa consolidação será menor em número de players, mas potencialmente mais sólido e institucionalizado.
Bemerkenswerte Zitate
Isso faz com que algumas dessas empresas tenham que mudar a rota. Em alguns casos, elas vão se juntar com outras; em outros, empresas menores vão encerrar atividades, porque não têm investimento disponível para cumprir os requisitos.— Diego Pérez, vice-presidente da ABcripto
Esses players, além de ter que manter um capital mínimo, ainda precisam se estruturar em termos de segurança cibernética, controles internos, compliance e gestão de riscos. Se você tem que manter um determinado capital regulatório e ainda investir na construção dessas outras áreas, o custo de manutenção da atividade aumenta.— Vanessa Butalla, vice-presidente de jurídico, compliance e riscos do Mercado Bitcoin