Regulação do BC força consolidação no setor de criptoativos com saídas e fusões

Continuar com a operação já não é mais viável
Bitnuvem, que operou por sete anos com 80 mil clientes, anuncia saída do Brasil.
Mark

Por que o Banco Central decidiu aumentar tanto os requisitos de capital? Isso não parecia necessário em 2024.

Mimi

A regulação evoluiu. O BC viu o mercado crescer para R$ 283 bilhões no primeiro semestre de 2026 e decidiu que precisava de mais solidez. Os números finais foram bem maiores que os propostos nas consultas públicas.

Luke

Mas ninguém sabe quantas empresas realmente existem nesse mercado, certo? Porque não é regulado ainda. Então como o BC calibrou esses números?

Mimi

Boa pergunta. O comunicado não explica a metodologia. Sabemos que as exigências subiram de R$ 1-3 milhões para R$ 10,8-37,2 milhões, mas o raciocínio específico não está documentado aqui.

Mark

E as empresas que saíram — Bitnuvem, Coinext, NovaDAX — elas realmente não tinham capital para se adequar?

Mimi

Bitnuvem tinha 80 mil clientes e R$ 1,5 bilhão negociado. Coinext tinha 420 mil clientes e R$ 14 bilhões. Então não é que fossem pequenas. Mas ambas disseram que os custos não se justificavam.

Luke

Espera. Coinext explorou parcerias e nenhuma funcionou. Bitnuvem citou concorrência também. Então não é só regulação — é regulação mais concorrência. Elas poderiam ter se adequado, mas não viram futuro.

Mimi

Exato. E Vanessa Butalla do Mercado Bitcoin deixa claro que o capital mínimo é só o começo. Tem segurança cibernética, compliance, gestão de riscos. O custo total de operação é bem maior.

Mark

Então quantas das 45 associadas da ABcripto vão realmente pedir autorização?

Mimi

Diego Pérez estima entre 15 e 30. Menos da metade, possivelmente.

Luke

Mas isso é estimativa dele. Não há confirmação de quantas realmente vão solicitar até 30 de outubro. E não sabemos quantas serão aprovadas.

Mimi

Verdade. O prazo termina em 30 de outubro, mas o artigo não diz quantas já solicitaram ou quantas o BC espera aprovar.

Mark

E os bancos entrando no mercado — isso vai ajudar ou prejudicar?

Mimi

Provavelmente ambos. Ajuda porque traz mais capital e confiança. Prejudica porque as corretoras menores não conseguem competir com a escala de um banco.

Luke

Nildson Alves da Onda Finance diz que o desafio é manter-se competitivo e oferecer experiência personalizada. Mas ele também é o CEO de uma empresa em processo de autorização. Então há um interesse ali em mostrar que a regulação é boa.

  • Quatro corretoras — Bitnuvem, NovaDAX, Digitra.com e Coinext — já encerraram operações em 2026, incapazes de absorver os novos custos regulatórios.
  • O capital mínimo exigido pelo Banco Central saltou de pisos simbólicos de R$ 1 a 3 milhões para faixas entre R$ 10,8 milhões e R$ 37,2 milhões, surpreendendo o setor.
  • Fusões e parcerias emergem como saída: Mercado Bitcoin absorveu clientes da Bitso e da Bity, sinalizando que a consolidação já está em curso antes mesmo do prazo de 30 de outubro.
  • Entre 15 e 30 das 45 associadas da ABcripto devem pedir autorização ao BC, enquanto bancos aguardam para entrar num mercado que movimentou R$ 283 bilhões no primeiro semestre de 2026.

O Brasil atravessa um momento de reordenamento silencioso no universo dos criptoativos: as novas exigências do Banco Central — capital mínimo elevado e autorização obrigatória — funcionam como um filtro que separa quem tem escala de quem não tem. Corretoras encerram portas, fusões se anunciam e bancos aguardam na entrada, enquanto o setor se prepara para emergir menor em número, mas mais institucionalizado. É a velha tensão entre a liberdade que fundou um mercado e a ordem que pretende consolidá-lo.

O mercado brasileiro de criptoativos vive uma reconfiguração forçada. Depois que o Banco Central estabeleceu exigências de capital mínimo e autorização obrigatória para empresas do setor, o cenário mudou rapidamente: algumas corretoras saíram do país, outras buscaram fusões para sobreviver e poucas têm condições de cumprir os requisitos sozinhas.

O tamanho do mercado em jogo é expressivo — R$ 283 bilhões circularam pelo setor no primeiro semestre de 2026, com R$ 177,6 bilhões negociados por corretoras, segundo a Receita Federal. Mas essa movimentação está sendo redefinida pelas novas regras. Quatro corretoras já anunciaram encerramento de atividades: Bitnuvem, NovaDAX, Digitra.com e Coinext. A Bitnuvem, com mais de 80 mil clientes e R$ 1,5 bilhão negociado em sete anos, afirmou que "continuar com a operação já não é mais viável". A Coinext, com 420 mil clientes e R$ 14 bilhões em volume, explorou alternativas mas não encontrou nenhuma viável.

O cerne do problema está nos números. O BC dividiu as prestadoras de serviços em três categorias — intermediárias, custodiantes e corretoras — com exigências de capital entre R$ 10,8 milhões e R$ 37,2 milhões. Os valores são muito superiores aos propostos nas consultas públicas de 2024, que previam pisos de R$ 1 a 3 milhões. Diego Pérez, vice-presidente da ABcripto, estima que apenas 15 a 30 dos cerca de 45 associados planejam pedir autorização até o prazo de 30 de outubro. Ele reconhece que as regras trazem solidez ao setor, mas admite que o salto no capital exigido força mudanças de rota: fusões para alguns, encerramento para outros.

A consolidação já está em andamento. Em setembro, Mercado Bitcoin e Bitso anunciaram fusão, direcionando clientes brasileiros da Bitso para a plataforma nacional. Em outubro, o Mercado Bitcoin firmou parceria para absorver clientes de varejo da Bity — corretora com 850 mil usuários e mais de R$ 1 bilhão em custódia — que decidiu não investir no novo marco regulatório. Vanessa Butalla, vice-presidente do Mercado Bitcoin, lembra que o desafio vai além do capital: segurança cibernética, compliance e gestão de riscos somam custos consideráveis. O setor que emergirá dessa transição será menor em número de players, mas potencialmente mais sólido — e com bancos prontos para disputar espaço.

O setor de criptoativos no Brasil enfrenta um momento de reconfiguração forçada. Depois que o Banco Central estabeleceu regras mais rigorosas para empresas que operam com ativos virtuais — incluindo exigências de capital mínimo e autorização de funcionamento obrigatória — o mercado começou a se reorganizar. Algumas corretoras simplesmente saíram do país. Outras buscaram fusões e parcerias para sobreviver. Poucas têm condições de cumprir os novos requisitos sozinhas.

O tamanho do mercado em questão é considerável. No primeiro semestre de 2026, R$ 283 bilhões circularam pelo setor de criptoativos no Brasil, com R$ 177,6 bilhões negociados especificamente por meio de corretoras, conforme dados da Receita Federal. As operações concentraram-se em stablecoins como USDT e USDC, além de bitcoin. Mas essa movimentação está sendo redefinida pelas novas regras.

Quatro corretoras já anunciaram o encerramento de atividades em 2026: Bitnuvem, NovaDAX, Digitra.com e Coinext. Outras — Crypto.com, Bitso e Bity — comunicaram ajustes significativos em seus serviços. A Bitnuvem, que havia acumulado mais de 80 mil clientes cadastrados e negociado mais de R$ 1,5 bilhão em sete anos de operação, atribuiu o fechamento à regulação e à concorrência, afirmando em comunicado que "continuar com a operação já não é mais viável". A Coinext, que contava com 420 mil clientes e R$ 14 bilhões em volume negociado, explorou alternativas e conversou com potenciais parceiros, mas concluiu que nenhuma das opções analisadas se mostrou viável.

O cerne do problema está nos números. O Banco Central estabeleceu que as Sociedades Prestadoras de Serviços de Ativos Virtuais (SPSAVs) serão divididas em três categorias, cada uma com exigências de capital mínimo distintas. Intermediárias — empresas que medeiam negociações e distribuem ativos virtuais — precisarão de capital entre R$ 10,8 milhões e R$ 25,9 milhões. Custodiantes, responsáveis pela guarda dos ativos, deverão ter entre R$ 12,4 milhões e R$ 37,2 milhões. Corretoras, que acumulam ambas as funções, precisarão de capital entre R$ 16,8 milhões e R$ 37,2 milhões. Esses valores são significativamente superiores aos propostos nas consultas públicas realizadas pelo BC em 2024, que estabeleciam pisos de R$ 1 milhão para intermediárias, R$ 2 milhões para custodiantes e R$ 3 milhões para corretoras.

Diego Pérez, vice-presidente da ABcripto (Associação Brasileira de Criptoeconomia), estima que entre 15 e 30 dos cerca de 45 associados da entidade planejam solicitar autorização ao Banco Central. O prazo para as empresas já atuantes no setor pedirem licença de operação termina em 30 de outubro. Pérez reconhece que as novas regras reforçam a solidez e a segurança do setor, mas pondera que o aumento expressivo do capital mínimo exigido pesa significativamente nos cofres das corretoras. "Isso faz com que algumas dessas empresas tenham que mudar a rota. Em alguns casos, elas vão se juntar com outras; em outros, empresas menores vão encerrar atividades, porque não têm investimento disponível para cumprir os requisitos."

O movimento de consolidação já está em andamento. Em setembro, Mercado Bitcoin e Bitso anunciaram uma fusão, direcionando clientes da Bitso no Brasil para a plataforma brasileira. Nicolás Alonso, responsável pela Bitso Brasil, descreveu a medida como parte de uma decisão estratégica de focar em serviços de maior valor agregado, reconhecendo que o ambiente regulatório brasileiro é dinâmico. No início de outubro, Mercado Bitcoin também firmou parceria para atender clientes de varejo da Bity, corretora com 850 mil usuários cadastrados e mais de R$ 1 bilhão em ativos sob custódia. A Bity afirmou que "manter uma corretora de varejo sob o novo marco exige um investimento dedicado que escolhemos não fazer neste momento".

Vanessa Butalla, vice-presidente de jurídico, compliance e riscos do Mercado Bitcoin, aponta que o desafio vai além do capital mínimo. As empresas precisam se estruturar em segurança cibernética, controles internos, compliance e gestão de riscos. Quando se soma a manutenção de um determinado capital regulatório com investimentos nessas outras áreas, o custo de operação aumenta consideravelmente. Erik Oioli, sócio da área de mercado de capitais do VBSO Advogados, observa que as exigências tendem a favorecer empresas com escala suficiente para absorver esses custos, enquanto empresas menores — especialmente aquelas para as quais criptoativos não é a atividade principal — podem optar por não buscar licença própria.

Há também expectativa de maior concorrência com a entrada de bancos no setor. Para Nildson Alves, CEO da fintech Onda Finance (primeira em processo de autorização formal no Banco Central), o desafio agora é manter-se competitivo, continuar atraindo serviços para os clientes e desenvolver um atendimento mais personalizado. O cliente, segundo Alves, buscará o que melhor o atende em termos de experiência. O setor que emerge dessa consolidação será menor em número de players, mas potencialmente mais sólido e institucionalizado.

Isso faz com que algumas dessas empresas tenham que mudar a rota. Em alguns casos, elas vão se juntar com outras; em outros, empresas menores vão encerrar atividades, porque não têm investimento disponível para cumprir os requisitos.
— Diego Pérez, vice-presidente da ABcripto
Esses players, além de ter que manter um capital mínimo, ainda precisam se estruturar em termos de segurança cibernética, controles internos, compliance e gestão de riscos. Se você tem que manter um determinado capital regulatório e ainda investir na construção dessas outras áreas, o custo de manutenção da atividade aumenta.
— Vanessa Butalla, vice-presidente de jurídico, compliance e riscos do Mercado Bitcoin
Möchten Sie die ganze Geschichte? Das Original lesen bei Folha de S.Paulo ↗
Kontakt FAQ