No Jockey Club Brasileiro, em pleno coração do Rio de Janeiro, dois monumentos vivos da música brasileira voltaram a dividir o mesmo palco depois de mais de meio século de caminhos separados. Paulinho da Viola e Maria Bethânia, artistas de escolas distintas por sua própria admissão, encontraram no festival Doce Maravilha um espaço raro para que o tempo se dobrasse sobre si mesmo. O reencontro, precedido pelo cancelamento do primeiro dia do festival por ventos ameaçadores, lembrou que a cultura resiste às intempéries — e que certas memórias coletivas esperam pacientemente pela hora certa de se
Reencontro raro de Paulinho da Viola e Maria Bethânia emociona público no Doce Maravilha
Cinquenta anos depois, o encontro que ninguém esperava receber duas vezes
Por que esse encontro entre Paulinho e Bethânia importa tanto? Eles não gravaram juntos, não fazem turnês juntos.
Exatamente por isso. Cinquenta anos é um tempo que apaga encontros. O fato de eles estarem no mesmo palco, cantando um para o outro, é raro demais para passar despercebido. A música brasileira não costuma oferecer esses reencontros.
O documentário de 1969 mostra Paulinho dizendo que eram "duas escolas diferentes". Isso ainda é verdade?
Parece que sim, mas de um jeito que agora faz sentido. Não é conflito — é complemento. Paulinho com seu samba mais enraizado, Bethânia com sua voz que flutua entre gêneros. Juntos, eles mostram a amplitude da música brasileira.
E o público? Como reagiu?
Esperou por eles. Leci Brandão encheu o segundo palco, mas as pessoas começaram a sair antes do fim. Todos sabiam o que queriam ver. Quando Bethânia entrou, foi êxtase puro.
O festival quase não aconteceu no primeiro dia.
Verdade. Ventos do sul, aviso emergencial, tudo cancelado. Mas o sábado funcionou como se fosse o primeiro dia — ninguém sentiria falta do que não viu. O importante é que chegou ao show que importava.
Eles vão fazer isso de novo?
Improvável. Reencontros assim não se repetem. Cinquenta anos é muito tempo. O que aconteceu no sábado foi um presente que ninguém esperava receber duas vezes.
El Pulso
- O festival perdeu seu primeiro dia antes mesmo de começar: um alerta emergencial da prefeitura do Rio sobre ventos intensos derrubou os shows de Fresno, Raimundos e Dibob na véspera.
- O sábado arrancou com apresentações de abertura que aqueceram o público, mas a atenção real estava concentrada em um único momento que todos sabiam estar chegando.
- Quando a silhueta de Bethânia surgiu no telão durante a execução de 'Canção Para Maria', o Jockey Club inteiro explodiu — o reencontro de 50 anos se materializava diante dos olhos do público.
- Os dois artistas navegaram juntos por um repertório que misturou intimidade e celebração, de 'Falsa Baiana' a 'Reconvexo', transformando a diferença de escolas em complementaridade.
- O festival segue domingo com Falamansa, Os Paralamas do Sucesso e Caetano Veloso ao lado de Emicida, mantendo o peso cultural do evento mesmo após o contratempo inicial.
No Jockey Club Brasileiro, em pleno coração do Rio de Janeiro, dois monumentos vivos da música brasileira voltaram a dividir o mesmo palco depois de mais de meio século de caminhos separados. Paulinho da Viola e Maria Bethânia, artistas de escolas distintas por sua própria admissão, encontraram no festival Doce Maravilha um espaço raro para que o tempo se dobrasse sobre si mesmo. O reencontro, precedido pelo cancelamento do primeiro dia do festival por ventos ameaçadores, lembrou que a cultura resiste às intempéries — e que certas memórias coletivas esperam pacientemente pela hora certa de se completar.
O sábado no Jockey Club Brasileiro começou carregando uma ausência: o primeiro dia do festival Doce Maravilha havia sido cancelado por alerta emergencial da prefeitura do Rio sobre ventos vindos do sul, levando embora os shows de Fresno, Raimundos e Dibob. Quem chegou no dia 8 de agosto encontrou, portanto, um festival que já havia sobrevivido a seu primeiro obstáculo.
A programação foi ganhando corpo aos poucos. Amanda Magalhães e Chico Chico abriram o caminho, seguidos pelo Cortejo Afro, grupo ligado ao candomblé baiano, que lotou o palco principal com percussão intensa e a participação da ministra Margareth Menezes puxando 'Faraó, Divindade do Egito'. Leci Brandão e Rappin' Hood dividiram o segundo palco ao anoitecer, mas o público já sabia onde queria estar a seguir.
Paulinho da Viola subiu ao palco com cavaquinho e viola, acompanhado por oito músicos, e percorreu a linhagem do samba com reverência — Paulo da Portela, Candeia, Zé Keti, Jovelina Pérola Negra desfilaram no telão. Em determinado momento, imagens do documentário 'Saravah', de 1969, mostraram um Paulinho de 26 anos tocando ao lado de uma jovem Bethânia. Na gravação, ele explicava ao cineasta francês Pierre Barouh que os dois pertenciam a 'duas escolas diferentes' — uma distância que o próprio artista reconhecia.
Quando chegou a 'Canção Para Maria', a silhueta de Bethânia apareceu no telão e o Jockey Club explodiu. Ela entrou cantando 'Falsa Baiana', de Geraldo Pereira, e o que se seguiu foi uma apresentação de rara leveza e cumplicidade. 'Desde que o Samba É Samba', 'Reconvexo' e 'As Canções Que Você Fez Para Mim' embalaram um público completamente presente. Bethânia encerrou com 'Foi um Rio que Passou em Minha Vida', sob ovação. Paulinho se despediu com 'Timoneiro' e confessou sua emoção ao público.
O festival continua domingo com Falamansa, Os Paralamas do Sucesso e Caetano Veloso recebendo Emicida — uma programação que, apesar do tropeço inicial, mantém intacto seu peso cultural.
O sábado no Jockey Club Brasileiro, na zona sul do Rio, começou com uma ilusão de normalidade. Quem chegou para os shows do festival Doce Maravilha naquele 8 de agosto não teria como saber que estava, na verdade, presenciando o primeiro dia do evento — o segundo havia sido cancelado na véspera por um aviso emergencial da prefeitura alertando para a intensificação de ventos vindos do sul. Os shows de Fresno, Raimundos e Dibob não aconteceram.
A programação do sábado começou modestamente, com Amanda Magalhães e depois Chico Chico ao lado de Juliana Linhares revisitando a obra de Belchior. O Cortejo Afro, grupo ligado ao terreiro de candomblé Ilê Axé Oyá e ativo desde 1998, foi quem primeiro lotou o palco principal. A apresentação celebrou a Bahia com a participação de Luedji Luna e da ministra da Cultura Margareth Menezes, que puxou "Faraó, Divindade do Egito", um dos sucessos do Olodum que o grupo reinterpretou com a percussão em primeiro plano. Antes disso, Leci Brandão havia tomado o segundo palco ao anoitecer, convidando Rappin' Hood para uma saudação ao rap e sua importância na música brasileira — mas o público começou a se esvaziar antes do fim do show, sinalizando para onde realmente estava a atenção.
O encontro entre Paulinho da Viola e Maria Bethânia era o que todos esperavam. Mais de 50 anos haviam passado desde a única turnê que fizeram juntos, e este seria apenas o segundo encontro artístico documentado entre os dois. Paulinho subiu ao palco com sua elegância contida, cavaquinho e viola em mãos, acompanhado por oito músicos. Homenageou a linhagem do samba — Paulo da Portela, Jovelina Pérola Negra, Martinho da Vila, Candeia, Zé Keti — cujos rostos apareceram no telão junto a outros grandes nomes. Foi naquele mesmo telão que trechos do documentário "Saravah", de 1969, mostraram um Paulinho de apenas 26 anos tocando num bar ao lado de uma jovem Bethânia. Naquele vídeo antigo, o próprio Paulinho explicava ao cineasta francês Pierre Barouh: "São duas escolas diferentes". A frase marcava uma distância que o próprio artista reconhecia entre ele e a cantora baiana.
No início, Paulinho percorreu seu repertório clássico — "Argumento", "Pecado Capital", "Coração Imprudente", "Coração Errante", "Coisas do Mundo, Minha Nega". Quando chegou a "Canção Para Maria", a silhueta de Bethânia apareceu no telão e o público explodiu. Ela entrou cantando "Falsa Baiana", composição de Geraldo Pereira dos anos 1940, e o momento ganhou uma leveza que o show anterior não tinha. A intersecção entre os dois artistas nunca havia resultado em uma gravação inédita com participação um do outro, mas Bethânia havia registrado duas composições de Paulinho em seu álbum "A Cena Muda", de 1974 — "Sinal Fechado" e "Num Samba Curto" — em um trabalho de clima mais sombrio.
O que se seguiu foi uma apresentação que fluiu entre sucessos e momentos de intimidade. "Desde que o Samba É Samba", de Caetano Veloso e Gilberto Gil, "As Canções Que Você Fez Para Mim" e "Reconvexo" embalaram um público agora completamente solto e presente. Bethânia encerrou sua participação com "Foi um Rio que Passou em Minha Vida", deixando o palco sob ovação. Paulinho, antes de se despedir, cantou "Timoneiro" e confessou sua emoção com o reencontro para a plateia.
O festival segue no domingo com Falamansa, Os Paralamas do Sucesso e Caetano Veloso — que receberá Emicida — consolidando uma programação que, apesar do contratempo do primeiro dia, mantém seu peso cultural intacto.
Citas Notables
São duas escolas diferentes— Paulinho da Viola, no documentário 'Saravah' de 1969