Congresso aprovou por 75 votos a um a redução da jornada de trabalho, que afeta 14,8 milhões de trabalhadores com carteira assinada. Produtividade do trabalho no Brasil está estagnada há décadas, crescendo apenas 0,5% ao ano desde 1981, criando pressão para reajustes via inflação ou informalidade.
Redução de jornada sem produtividade pode aumentar informalidade
A jornada menor pode custar ao trabalhador a própria carteira assinada
Por que o analista vê risco de informalidade se a jornada foi reduzida por votação praticamente unânime?
Porque a redução de jornada só funciona bem quando a produtividade cresce junto. No Brasil, a produtividade está estagnada há décadas. Então as empresas precisam fazer o ajuste em algum lugar.
Mas qual é exatamente o mecanismo? A empresa não pode simplesmente aceitar a redução?
Pode, mas aí ela perde dinheiro. Se um trabalhador gerava R$ 100 em 44 horas e passa a gerar R$ 91 em 40 horas, mas continua custando R$ 95, a margem desaparece.
E então a empresa faz o quê?
Três coisas podem acontecer: repassa o custo aos preços, causando inflação; contrata menos pessoas; ou empurra trabalhadores para a informalidade ou pejotização.
Mas isso é teoria. Tem evidência de que isso realmente acontece?
A evidência internacional mostra que o risco é maior entre trabalhadores mais vulneráveis, aqueles com margens mais estreitas.
E por que o Congresso aprovou simultaneamente a expansão do MEI?
Porque amplia uma alternativa de menor custo. O MEI agora pode faturar mais e contratar dois empregados. Isso torna mais atrativo para empresas substituir emprego formal por informal.
Então as duas políticas trabalham juntas contra o emprego formal?
Exatamente. Uma torna mais caro contratar pela CLT, a outra oferece uma saída mais barata.
Qual é a solução que o analista propõe?
Retomar uma agenda de produtividade. Sem ela, a jornada menor pode custar ao trabalhador a própria carteira assinada.
E essa agenda de produtividade, como seria? O texto não detalha.
Não, o texto deixa isso em aberto. É mais um alerta sobre o que pode acontecer se não houver mudança.
Il Polso
- Congresso aprovou por 75 votos a um redução de jornada de 44 para 40 horas, afetando 14,8 milhões de trabalhadores
- Produtividade brasileira cresceu apenas 0,5% ao ano entre 1981 e 2024; na indústria recuou 0,3% ao ano
- MEI teve teto de faturamento ampliado de R$ 81 mil para R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028
Congresso aprovou por 75 votos a um a redução da jornada de trabalho, que afeta 14,8 milhões de trabalhadores com carteira assinada. Produtividade do trabalho no Brasil está estagnada há décadas, crescendo apenas 0,5% ao ano desde 1981, criando pressão para reajustes via inflação ou informalidade.
Congresso aprovou redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas e ampliação do MEI, mas analista alerta que sem ganhos de produtividade, as medidas podem aumentar inflação e informalidade.
O Congresso aprovou na semana passada, com votação praticamente unânime de 75 votos a um, uma redução significativa da jornada de trabalho. A mudança será implementada em duas etapas: em dezembro deste ano, a jornada cairá de 44 para 42 horas semanais, e um ano depois descerá para 40 horas. A decisão afeta aproximadamente 14,8 milhões de trabalhadores com carteira assinada no país.
A demanda por redução de jornada é legítima e reflete anseios reais dos trabalhadores. Mas o economista Bruno Funchal, em análise publicada pela Folha, aponta que as consequências dessa medida dependem fundamentalmente de um fator que o Brasil não possui em quantidade suficiente: ganho de produtividade. Quanto mais valor cada hora de trabalho gera, maior o espaço para elevar salários ou reduzir jornadas sem comprometer a viabilidade econômica. O problema, segundo Funchal, é que o país está tentando fazer o caminho inverso.
Os números da produtividade brasileira são desanimadores. Entre 1981 e 2024, a produtividade por hora trabalhada cresceu apenas 0,5% ao ano — um ritmo praticamente imperceptível. Na indústria, a situação é ainda pior: entre 1995 e 2024, a produtividade recuou 0,3% ao ano, conforme dados do FGV Ibre. Sem esse ganho de eficiência, o ajuste precisa aparecer em algum lugar: as empresas precisarão aceitar margens menores, repassar custos aos preços, contratar menos pessoas ou empurrar trabalhadores para a informalidade.
Para ilustrar o dilema, Funchal oferece um exemplo concreto. Imagine um trabalhador que gera R$ 100 de valor por semana e custa R$ 95 à empresa — uma margem de R$ 5. Com a redução de jornada de 44 para 40 horas, mantendo a mesma produtividade, esse trabalhador passa a gerar apenas R$ 91 por semana, mas continua custando R$ 95, já que o salário não pode ser reduzido. A margem de R$ 5 se transforma em um prejuízo de R$ 4. A conta só fecha de quatro maneiras: o trabalhador passa a produzir mais por hora, a empresa aceita perder dinheiro, o custo é repassado aos preços, ou o emprego deixa de ser viável naquele formato. Essa regra atinge primeiro os trabalhadores menos produtivos, aqueles cujo custo já representa cerca de 91% ou mais do valor que produzem.
No curto prazo, o efeito mais provável é inflação. As empresas, especialmente nos setores que dependem intensivamente de mão de obra — como comércio e serviços — repassarão os custos aos preços. Com a inflação mais alta, os juros permanecerão elevados por mais tempo, afetando toda a economia. Mas é no médio e longo prazo que os efeitos mais profundos aparecem na dinâmica do mercado de trabalho.
Na mesma semana em que aprovou a redução de jornada, o Congresso também ampliou significativamente o MEI, o Microempreendedor Individual. O teto de faturamento subirá de R$ 81 mil para R$ 110 mil em 2027 e para R$ 140 mil em 2028. Além disso, microempreendedores na indústria e no comércio poderão contratar até dois empregados. A votação no Senado foi unânime: 78 votos a zero. O texto aguarda sanção presidencial.
Essas duas políticas — a redução de jornada e a expansão do MEI — empurram o mercado de trabalho na mesma direção: menos empregos formais com carteira assinada. Uma torna mais caro contratar pela CLT; a outra amplia uma alternativa de menor custo para as empresas. Para os trabalhadores menos produtivos, aqueles mais próximos do ponto em que o custo formal supera o valor que produzem, cresce o incentivo à substituição por pejotização ou à informalidade. A evidência internacional mostra que esse risco não é automático, mas é significativamente maior justamente entre os trabalhadores mais vulneráveis.
Reduzir a jornada de trabalho é uma conquista legítima quando a produtividade abre espaço para isso. O Brasil, porém, esqueceu há muito tempo de investir em uma agenda de produtividade. Sem retomar esse caminho, a jornada menor pode custar ao trabalhador a própria carteira assinada.
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Sem ganho de produtividade, o ajuste precisa aparecer em algum lugar: margens menores, preços mais altos, menos contratações ou mais informalidade— Bruno Funchal, economista