Rede no Camboja força brasileiros traficados a aplicar golpes fingindo ser PF

Brasileiros traficados para o Camboja são submetidos a trabalho forçado, ameaças de violência física, choques elétricos e privação de alimentos enquanto são obrigados a aplicar golpes digitais contra vítimas brasileiras.
Eles montaram estrutura igualzinha a uma sala da Polícia Federal
Alencar descreve o cenário teatral onde era forçado a aplicar golpes sofisticados contra vítimas brasileiras.
Mark

Por que o Camboja se tornou tão atrativo para essa rede criminosa?

Mimi

Porque havia infraestrutura pronta. Quando as apostas online foram proibidas em 2019, os cassinos fecharam, mas os prédios, a segurança, a tecnologia permaneceram. Os criminosos apenas mudaram o produto.

Mark

E como conseguem convencer as vítimas de que realmente são policiais?

Mimi

Usam nomes reais de delegados, citam artigos do Código Penal, enviam fotos de mandados falsos. Mas o mais importante é que criam urgência e medo. Ninguém pensa com clareza quando acredita que está sendo investigado por crime.

Mark

Os brasileiros traficados como Alencar — eles sabem que estão cometendo crimes?

Mimi

Sabem perfeitamente. Recebem roteiros, entendem o que estão fazendo. Mas a escolha não é deles. É participar ou sofrer violência.

Mark

Qual é a escala disso?

Mimi

A indústria movimenta entre 12 e 19 bilhões de dólares. No Brasil, foram 347 mil estelionatos eletrônicos em um ano. Não é um problema marginal.

Mark

As autoridades conseguem fazer algo?

Mimi

Estão tentando. Houve esvaziamento de complexos em Sihanoukville após pressão de China e Estados Unidos. Mas a rede é descentralizada e se reconstrói rapidamente em outros lugares.

  • Pedro Alencar, 25 anos, traficado para Laos, Filipinas e Camboja
  • Rede criminosa em Sihanoukville simula Polícia Federal, órgãos públicos e empresas privadas
  • Indústria de golpes no Camboja movimenta entre US$ 12,5 bilhões e US$ 19 bilhões anualmente
  • 347 mil estelionatos eletrônicos registrados no Brasil em 2025, equivalente a 15% de todos os estelionatos

Rede criminosa em Sihanoukville força traficados brasileiros a executar golpes elaborados simulando Polícia Federal, órgãos públicos e empresas privadas com roteiros teatrais e tecnologia de emulação de voz. Camboja tornou-se polo de fraudes digitais após proibição de apostas online em 2019, com criminosos aproveitando infraestrutura de cassinos fechados para montar centrais de golpes sofisticados.

Brasileiros vítimas de tráfico humano no Camboja são forçados a aplicar golpes sofisticados fingindo ser policiais federais e autoridades públicas, com roteiros detalhados e tecnologia de deepfake para enganar vítimas.

Pedro Alencar, 25 anos, atendente de telemarketing, recebeu uma promessa que o levaria a três países e a uma prisão sem grades. Ele foi traficado para o Sudeste Asiático com a promessa de trabalho bem remunerado e digno. O que encontrou foi um circuito de exploração que começou no Laos, passou pelas Filipinas e terminou em Sihanoukville, no Camboja, onde foi forçado a participar de um dos esquemas criminosos mais sofisticados do continente.

Nos primeiros destinos, o trabalho forçado estava ligado a plataformas de cassinos. No Laos, Alencar produzia conteúdo para sites de apostas. Nas Filipinas, sua tarefa era inserir anúncios de bets em material pornográfico e subtrair saldos de usuários em plataformas de apostas. Nenhum desses trabalhos gerava lucro suficiente para seus captores. Quando lhe ofereceram escolher entre Indonésia e Camboja, ele optou pelo segundo país, sem saber que estava entrando em uma operação muito mais complexa e perigosa.

Em Sihanoukville, Alencar foi colocado em um complexo que simulava uma delegacia da Polícia Federal. Havia slogan, bandeiras, mesa, distintivo e até farda de policial. O cenário era teatral porque o crime era teatral. Ele recebeu um roteiro detalhado, um documento que funcionava como dramaturgia criminal, com indicações de tom, expressão, possíveis objeções das vítimas e respostas para cada situação. A frase que abria o roteiro era uma ameaça velada: "Você tem de arcar com as consequências legais por cada crime que foi cometido usando sua identidade. Você entende?"

O esquema que Alencar foi forçado a executar envolvia fingir ser policial federal e convencer vítimas de que estavam envolvidas em crimes como falsidade ideológica, estelionato e vazamento de dados pessoais. Os criminosos forneciam emuladores de voz e filtros faciais para evitar reconhecimento. Os operadores eram instruídos a pesquisar nomes reais de delegados para não levantar suspeitas. O roteiro citava nomes como o do delegado Ronaldo Augusto Comar Marão Sayeg, titular do Deic, além de decretos e artigos do Código Penal. Fotos de mandados de prisão falsos e autorizações de bloqueio de bens eram enviadas. A conversa acontecia por videoconferência, frequentemente no WhatsApp, onde o falso investigador mencionava um suposto acordo de confidencialidade entre a Secretaria de Segurança Pública e a Meta. Quando a vítima cooperava, um falso promotor enviava dados bancários. A transferência era solicitada sob o argumento de que era necessária para identificar a fonte do dinheiro em conta, e que o valor seria guardado até o fim da investigação. As vítimas eram obrigadas a fazer a operação durante a videoconferência e apresentar o comprovante.

Sihanoukville se tornou um dos principais polos dessa indústria criminosa após a proibição de apostas online em agosto de 2019. Quando o governo cambojano fechou os cassinos, criminosos aproveitaram a infraestrutura física e de segurança dos espaços para montar centrais de golpes. Hoje, muitos desses complexos estão esvaziados. Câmeras desativadas e muros com arame farpado permanecem, mas a presença constante de seguranças armados desapareceu. Áreas inteiras da cidade se tornaram regiões fantasma. O esvaziamento ocorreu após ações das autoridades cambojanas, que intensificaram operações quando China e Estados Unidos começaram a exercer pressão em decorrência do tráfico humano e das fraudes.

A rede criminosa não se limita a simular a Polícia Federal. Ela também falsifica órgãos públicos como polícias civil e militar, Ministério Público Federal, Banco Central, Tribunal de Contas da União, Secretaria Nacional de Justiça e empresas privadas como a Meta. Há roteiros diferentes para diferentes cidades. Em Poipet, na fronteira com a Tailândia, o esquema começa com um falso agente da polícia civil exigindo comparecimento a uma delegacia a centenas de quilômetros de distância, criando a desculpa perfeita para que o depoimento seja prestado por videoconferência.

Para Alencar e outros brasileiros traficados, a recusa em participar tinha consequências claras. Corria-se o risco de ser espancado, levar choques elétricos e ficar sem comida. A Polícia Federal afirmou à Folha que tem conhecimento do golpe e que o enfrentamento se dá de forma ampla e contínua, empregando mecanismos de cooperação policial e jurídica internacional. Um relatório da organização britânica Humanity Research Consultancy de maio de 2025 aponta que a indústria de golpes no Camboja movimenta entre 12,5 bilhões e 19 bilhões de dólares. No Brasil, o Anuário de Segurança Pública divulgado em julho de 2026 contabilizou cerca de 347 mil estelionatos por meio eletrônico no ano anterior, equivalente a 15% dos 2,26 milhões de estelionatos registrados no país.

Você tem de arcar com as consequências legais por cada crime que foi cometido usando sua identidade. Você entende?
— Roteiro usado pelos criminosos para intimidar vítimas
Quando começaram os trabalhos, a gente começou a entender que não era mais site pornô, que não era mais cassino. E ali começou o golpe da Polícia Federal
— Pedro Alencar
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