Em um país onde o custo do dinheiro atingiu patamares raramente vistos, as empresas brasileiras recorrem à proteção judicial em números sem precedentes — 6.341 companhias em recuperação judicial no segundo trimestre de 2026, contra 3.823 três anos antes. O agronegócio, historicamente avesso aos tribunais, lidera essa onda, revelando que a crise não poupa nem os alicerces da economia nacional. O que se desenha não é apenas uma estatística financeira, mas um retrato de um tecido produtivo sob tensão extrema, onde ganhar tempo virou estratégia de sobrevivência.
Recuperações judiciais crescem 66% com juros altos e crédito restrito
O agro nada mais é do que uma empresa a céu aberto
Por que o agronegócio está liderando essa onda de recuperações? Parecia um setor mais resiliente.
O agro é uma empresa a céu aberto — exposto a tudo ao mesmo tempo. Juros altos, crédito restrito, queda nos preços internacionais, custos de insumos disparados, e ainda tem a seca que destrói a safra. Historicamente não recorria a recuperações porque negociava bilateralmente. Mudou quando o produtor rural virou pessoa jurídica na lei, em 2021.
Então é uma questão de ter acesso a um instrumento que antes não tinha?
Parcialmente. O instrumento existe, mas o que realmente mudou foi a situação econômica. Antes, mesmo com dificuldades, conseguiam rolar as dívidas. Agora, com juros em 14% e capital de giro acima de 23%, é impossível.
E as pequenas empresas? Elas também estão entrando em recuperação?
Não na mesma proporção. O mecanismo é caro e complexo. Uma microempresa tem 0,07 casos a cada mil, enquanto uma grande tem 14,4. É 250 vezes menos. Muitas pequenas simplesmente não conseguem pagar pelos custos do processo.
Então elas desaparecem sem nem tentar?
Muitas sim. Há 9,1 milhões de empresas negativadas no Brasil. A maioria são micro e pequenas. Para elas, a recuperação judicial não é uma opção real.
Isso significa que a reestruturação só funciona para quem já tem tamanho?
Funciona melhor, pelo menos. Mas mesmo para as grandes, a recuperação resolve problemas de balanço, não de modelo de negócio. Uma empresa que perdeu mercado ou competitividade não se salva só com reestruturação.
Então estamos vendo o começo de uma seleção natural?
Estamos vendo o resultado de dois anos de pressão econômica acumulada. Empresas que não se prepararam para a turbulência estão vivendo as consequências agora.
Le Pouls
- A Selic em 14% ao ano e taxas de capital de giro acima de 23% estrangulam o fluxo de caixa de empresas de todos os portes, tornando o crédito um privilégio cada vez mais inacessível.
- O agronegócio, que raramente batia às portas da Justiça, agora lidera as reestruturações com crescimento de 66% em 12 meses — pressionado por preços internacionais em queda, insumos caros e quebras de safra.
- Recuperações extrajudiciais quase dobraram em um ano, sinalizando que grandes empresas buscam acordos antes que a crise se torne pública — mas o caminho da Casas Bahia mostra que a reestruturação financeira não resolve problemas de modelo de negócio.
- Micro e pequenas empresas, que somam 8,6 milhões de negativadas, ficam à margem dos mecanismos formais de reestruturação — o custo e a complexidade do processo as excluem justamente quando mais precisariam de proteção.
- Especialistas alertam que a pressão migra da estrutura financeira para a geração de receita, sugerindo que o pico de recuperações judiciais ainda está por vir.
Em um país onde o custo do dinheiro atingiu patamares raramente vistos, as empresas brasileiras recorrem à proteção judicial em números sem precedentes — 6.341 companhias em recuperação judicial no segundo trimestre de 2026, contra 3.823 três anos antes. O agronegócio, historicamente avesso aos tribunais, lidera essa onda, revelando que a crise não poupa nem os alicerces da economia nacional. O que se desenha não é apenas uma estatística financeira, mas um retrato de um tecido produtivo sob tensão extrema, onde ganhar tempo virou estratégia de sobrevivência.
O Brasil vive uma onda sem precedentes de recuperações judiciais. Entre o segundo trimestre de 2023 e o mesmo período de 2026, o número de empresas nessa situação saltou de 3.823 para 6.341 — alta de 65,8%. A explicação está em um ambiente econômico que se deteriorou progressivamente: a Selic foi de 2% para 14% ao ano, as taxas de capital de giro ultrapassaram 23%, o crédito encolheu e a inadimplência empresarial chegou a 4%, quase o triplo do registrado em 2020. Para muitas companhias, recorrer à Justiça virou a única forma de suspender cobranças e ganhar tempo para renegociar dívidas.
O agronegócio é o protagonista inesperado dessa crise. Com 1.265 empresas em recuperação judicial e crescimento de 66% em 12 meses, o setor enfrenta uma combinação devastadora: juros altos, queda nos preços internacionais das commodities, custos elevados de insumos e quebras de safra. Historicamente, os produtores rurais resolviam suas dívidas de forma bilateral, sem envolver a Justiça. Isso mudou com a reforma legislativa de 2021, que equiparou o produtor rural a uma pessoa jurídica. Transporte e logística e o comércio também registram altas expressivas.
As recuperações extrajudiciais — usadas por grandes empresas que negociam com credores antes da homologação judicial — quase dobraram, passando de 43 para 82 casos em 2025. Uma mudança na lei de falências em 2020, que reduziu o quórum de aprovação de credores, tornou o instrumento mais acessível. Mas o caso da Casas Bahia, que saiu de uma recuperação extrajudicial em 2024 e precisou recorrer à judicial em 2026, ilustra um limite claro: a reestruturação resolve problemas de balanço, não de modelo de negócio.
O acesso desigual ao sistema é um problema estrutural grave. Enquanto grandes empresas usam o mecanismo em proporção muito maior — até 250 vezes mais do que microempresas —, os pequenos negócios simplesmente não têm como arcar com os custos do processo. São 9,1 milhões de empresas negativadas no Brasil, a grande maioria micro e pequenas. Com a desaceleração econômica adicionando pressão sobre a geração de receita, especialistas preveem que o pior ainda está por vir.
As empresas brasileiras estão batendo às portas dos tribunais em números sem precedentes. Entre o segundo trimestre de 2023 e o mesmo período de 2026, o número de companhias em recuperação judicial cresceu 65,8% — saltando de 3.823 para 6.341 casos. O cenário que explica essa onda é conhecido: juros em dois dígitos, crédito encolhendo, e um ambiente econômico que vem se deteriorando há pelo menos dois anos. Para muitas dessas empresas, a recuperação judicial virou a única forma de ganhar tempo, suspender cobranças de credores e tentar renegociar dívidas enquanto mantêm as portas abertas.
A taxa básica de juros, a Selic, está em 14% ao ano — um salto vertiginoso desde a mínima histórica de 2% entre o final de 2020 e início de 2021. Esse aumento teve efeito cascata. As taxas de juros para capital de giro, que ficavam abaixo de 11% ao ano no final de 2020, ultrapassaram os 26% no final do ano passado e hoje rondam 23%. Ao mesmo tempo, o total de dinheiro emprestado vem encolhendo: nos primeiros seis meses de 2026, houve queda de 0,9% na comparação com o mesmo período do ano anterior. A taxa de inadimplência das empresas está em 4%, bem acima dos 1,5% registrados em dezembro de 2020. Os bancos, assustados com o risco crescente, adotaram uma postura mais cautelosa.
O agronegócio lidera essa onda de reestruturações. O número de empresas agrícolas em recuperação judicial cresceu 66% nos últimos 12 meses encerrados no segundo trimestre de 2026, chegando a 1.265 companhias. Hoje, 26 a cada mil empresas do setor recorrem ao instrumento. Transporte e logística aparecem em segundo lugar, com aumento de 24%, seguidos pelo comércio, com alta de 22%. O campo enfrenta uma tempestade perfeita: além dos juros altos e do acesso restrito a crédito, sofre com a queda nos preços internacionais das commodities, custos elevados de insumos e quebras de safra causadas por problemas climáticos. Historicamente, o agronegócio brasileiro não recorria a recuperações judiciais — as negociações aconteciam de forma bilateral, sem envolvimento da Justiça. Isso mudou quando a legislação foi reformada no início de 2021, equiparando o produtor rural a uma pessoa jurídica.
As recuperações extrajudiciais, usadas por grandes companhias que negociam com grupos de credores antes da aprovação final da Justiça, também cresceram significativamente. O número saltou de 43 casos para 82 em 2025, uma alta de 90%. Até 18 de agosto de 2026, havia 44 casos. Esse crescimento foi impulsionado por uma mudança na legislação de falências em 2020, que reduziu o quórum de aprovação de 60% dos credores para metade mais um, tornando o instrumento mais acessível. Diferentemente da recuperação judicial, em que todas as dívidas do grupo são renegociadas na Justiça, na extrajudicial a empresa escolhe um grupo específico de credores para negociar.
Mas há um problema estrutural: o mecanismo é caro e complexo. Pequenas e médias empresas representam a maior parte das recuperações judiciais em números absolutos, mas quando se considera a proporção em relação ao total de companhias, as grandes empresas usam muito mais o instrumento. A incidência vai de 0,07 a cada mil empresas no caso das microempresas a 14,4 a cada mil nas grandes e 17,4 a cada mil nas muito grandes — cerca de 250 vezes mais. Muitas pequenas e médias empresas simplesmente não têm condições de arcar com os custos do processo. Atualmente, há 9,1 milhões de empresas negativadas no Brasil, 8,6 milhões delas micro e pequenas.
Os especialistas apontam que a situação tende a piorar. Com a desaceleração econômica, a pressão deixa de estar apenas na estrutura financeira das empresas e passa também pela geração de receita. Há expectativa de mais casos como o da Casas Bahia, que saiu de uma recuperação extrajudicial em 2024 mas precisou recorrer à recuperação judicial em agosto de 2026. A reestruturação pode resolver problemas de balanço, mas não aqueles relacionados ao modelo de negócio. Empresas que perderam competitividade, mercado ou capacidade de gerar valor dificilmente encontrarão na recuperação judicial uma solução definitiva para seus desafios. O que se vê agora é um sistema de reestruturação empresarial sob pressão máxima, com milhões de companhias lutando para sobreviver em um ambiente onde o custo do dinheiro nunca esteve tão alto.
Citations marquantes
A conjuntura ruim machuca as empresas fragilizadas. O desenho que temos hoje é de um volume de empresas que não se prepararam corretamente para a turbulência e vão viver as consequências— Claudio Damasceno, especialista em reestruturação e coordenador do monitor da RGF
Empresas que perderam competitividade, mercado ou capacidade de geração de valor dificilmente encontrarão na recuperação judicial, por si só, uma solução definitiva para seus desafios— Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa Experian