Nas florestas e estradas do leste da República Democrática do Congo, uma epidemia de ébola já somou 5021 casos e 2378 mortes, e o mundo volta a medir a fragilidade das suas defesas contra vírus que ainda não têm vacina nem tratamento para a estirpe em causa. A Organização Mundial da Saúde, reunida em comité de emergência, avisa que o combate está longe de terminar e que o perigo de o vírus atravessar fronteiras continua elevado. Como tantas vezes na história das doenças, o que mais pesa não é apenas o vírus, mas a vida das pessoas que fogem da guerra e da fome e, ao fugirem, levam consigo a do
RDCongo ultrapassa 5 mil casos de ébola e OMS alerta para risco internacional
Longe de estar controlada: a epidemia ultrapassa quem tenta travá-la
Os números são enormes, mas o que torna este surto diferente dos anteriores?
A velocidade. Desde o primeiro caso detetado, propagou-se cerca de três vezes mais depressa do que o surto de 2014-2016 na África Ocidental, que matou mais de 11 mil pessoas.
E porque se espalha tão depressa?
As equipas de resposta falam de insegurança, deslocações forçadas e grande movimento de pessoas. Tudo isso dificulta chegar às regiões remotas.
Convém separar as coisas. Os 5021 casos e 2378 mortes vêm do Ministério da Saúde. A comparação de velocidade com a África Ocidental é apresentada como uma conclusão, mas o texto não explica como foi calculada.
Há também a questão de quando tudo começou.
A OMS diz fevereiro. Uma investigação na Science, no final de julho, sugeriu que as primeiras infeções foram pelo menos em janeiro.
Ou seja, a data de início não está fechada. É uma sugestão de um estudo, não uma conclusão confirmada.
E a estirpe Bundibugyo?
Tem letalidade entre 30% e 50% e, segundo a OMS, não há vacina autorizada nem tratamento específico.
Aquela letalidade é um intervalo, e o texto não diz como se aplica a este surto. Também não sabemos quantos casos são confirmados e quantos suspeitos, nem como a propagação internacional poderá evoluir. O alerta da OMS fala de risco, não de factos consumados.
El Pulso
- O ébola da estirpe Bundibugyo espalha-se mais depressa do que o surto da África Ocidental de 2014-2016, com 5021 casos confirmados.
- A insegurança e as deslocações forçadas de populações tornam cada contacto mais difícil de seguir e cada aldeia mais vulnerável.
- Não existe vacina autorizada nem tratamento específico, e a letalidade situa-se entre 30% e 50%, deixando a resposta dependente da contenção.
- A OMS mantém a emergência internacional e alerta que a epidemia está longe de controlada, com o Uganda já afetado e o risco de novos saltos de fronteira.
Nas florestas e estradas do leste da República Democrática do Congo, uma epidemia de ébola já somou 5021 casos e 2378 mortes, e o mundo volta a medir a fragilidade das suas defesas contra vírus que ainda não têm vacina nem tratamento para a estirpe em causa. A Organização Mundial da Saúde, reunida em comité de emergência, avisa que o combate está longe de terminar e que o perigo de o vírus atravessar fronteiras continua elevado. Como tantas vezes na história das doenças, o que mais pesa não é apenas o vírus, mas a vida das pessoas que fogem da guerra e da fome e, ao fugirem, levam consigo a doença.
Os números mais recentes do Ministério da Saúde da República Democrática do Congo são duros: 5021 casos de ébola e 2378 mortes. As equipas de resposta descrevem uma epidemia que avança depressa demais, sobretudo nas regiões mais remotas, onde chegar a quem adoeceu se torna uma corrida contra o tempo.
Três fatores alimentam a propagação: a insegurança, as deslocações forçadas de populações e os movimentos intensos de pessoas. Quando as famílias se deslocam por necessidade e não por escolha, perde-se o rasto aos contactos e às cadeias de infeção.
A OMS, por sua vez, não esconde a gravidade. O diretor Tedros Adhanom Ghebreyesus disse que a epidemia está "longe de estar controlada" e que o risco de propagação nacional e internacional continua alto, três meses depois de a organização a ter declarado emergência de saúde pública de interesse internacional. O vírus começou a circular no leste do país em fevereiro, possivelmente antes, e já chegou ao Uganda, que se declarou "livre do ébola" a 28 de julho, após 20 casos confirmados.
Os números mais recentes do Ministério da Saúde da República Democrática do Congo são estes: 5021 casos de ébola e 2378 mortes. É a contagem de uma epidemia que, segundo as equipas de resposta, avança a uma velocidade sem precedentes e vai ultrapassando os esforços para a travar, sobretudo nas regiões mais remotas do país.
As equipas apontam três fatores que alimentam a propagação: a insegurança, as deslocações forçadas de populações e os intensos movimentos de pessoas. Em zonas onde muita gente se desloca, por necessidade e não por escolha, torna-se mais difícil seguir os contactos e chegar a quem adoeceu.
A comparação histórica sublinha a dimensão do problema. Segundo a informação divulgada, esta epidemia infetou e matou mais pessoas, e a um ritmo mais acelerado, do que qualquer outro surto de que há registo. Desde o primeiro caso detetado, propagou-se cerca de três vezes mais depressa do que o surto da África Ocidental entre 2014 e 2016, o mais mortífero até hoje, com mais de 11 mil mortes.
Na terça-feira, o diretor da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, abriu uma reunião do comité de emergência sobre o ébola com um aviso claro: a epidemia está "longe de estar controlada" e o risco de propagação internacional é elevado. Lembrou que, há três meses, declarara a epidemia da doença pelo vírus Bundibugyo uma emergência de saúde pública de interesse internacional. Desde então, disse, o vírus espalhou-se rapidamente, e o risco de uma disseminação nacional e internacional maior mantém-se alto.
Quanto à origem, a OMS indica que o vírus começou a circular no leste da RDCongo em fevereiro. Uma investigação publicada na revista Science, no final de julho, sugeriu que as primeiras infeções poderão ter ocorrido antes, pelo menos em janeiro. Depois de o surto ser declarado em Ituri, o vírus alastrou a várias regiões do país e chegou à vizinha Uganda.
O Uganda declarou-se "livre do ébola" a 28 de julho, depois de registar 20 casos confirmados. Quinze foram considerados importados do país vizinho, e entre o total contaram-se duas mortes.
A epidemia está ligada à estirpe Bundibugyo, cuja taxa de letalidade varia entre 30% e 50%. Segundo a OMS, não existe vacina autorizada nem tratamento específico para esta estirpe, o que deixa a resposta assente sobretudo na contenção. O vírus transmite-se por contacto direto com fluidos corporais de pessoas ou animais infetados e provoca febre hemorrágica grave, vómitos, diarreia e hemorragias internas.
O que se segue depende em grande parte do terreno: a emergência internacional mantém-se, e a insegurança e as deslocações forçadas continuam a ser os obstáculos centrais para conter o vírus onde ele já ultrapassou as equipas de resposta.
Citas Notables
A epidemia está longe de estar controlada e o risco de propagação nacional e internacional maior continua elevado.— Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor da OMS