RD Saúde abre loja-conceito com 364 m² focada em beleza e cosméticos, com dois terços do mix de produtos dedicados a esse segmento, inspirada no modelo Sephora. Mercado de cosméticos movimenta R$ 200 bilhões no Brasil, valor próximo ao de medicamentos, e integra-se cada vez mais aos conceitos de bem-estar e longevidade.
RD Saúde lança farmácia estilo Sephora para diversificar além de medicamentos
Quando está na liderança, é preciso humildade para se reinventar
Por que uma farmácia precisa se parecer com uma Sephora? Não é estranho misturar medicamentos com cosméticos?
Não é mistura, é expansão. A farmácia sempre foi um lugar onde as pessoas iam resolver um problema específico — comprar um remédio. Mas o mercado de beleza movimenta 200 bilhões de reais no Brasil, quase tanto quanto medicamentos. As pessoas passam 15 minutos comprando um remédio, mas 20 a 30 minutos escolhendo produtos de beleza. É tempo, é dinheiro, é oportunidade.
E as consultoras treinadas como consultoras de beleza — isso muda a dinâmica da farmácia?
Completamente. Uma farmácia tradicional é transacional: você entra, pega o que precisa, paga e sai. Uma consultora de beleza cria uma experiência. Ela usa dados do aparelho Visia para mostrar ao cliente exatamente o que sua pele precisa. Isso justifica um tíquete-médio duas ou três vezes maior.
Mas o RD Saúde já é o líder absoluto do mercado. Por que se reinventar agora?
Porque a liderança é frágil quando o jogo muda. Supermercados começaram a vender medicamentos. Marketplaces como Mercado Livre compraram farmácias. A Novo Nordisk tentou vender direto. Se você não se move, alguém se move para você.
Essa história das canetas emagrecedoras — GLP-1 — parece ser o ponto de inflexão.
É. Representa 12% de todas as vendas do RD Saúde, 5,7 bilhões de reais por ano. Mas também é o que atrai competidores. Quando você tem um produto que vende assim, todos querem vender também. A Novo Nordisk testou venda direta, supermercados entraram no jogo. A farmácia precisa oferecer algo que supermercado não oferece.
E a marca própria de medicamentos, a Bwell? Por que parou?
A indústria farmacêutica não gostou. Quando você é o maior varejista e começa a vender sua própria marca de medicamentos, está competindo com seus fornecedores. Eles pressionaram, e o RD Saúde recuou. Mas mantém os produtos que já existiam. É um equilíbrio delicado.
Então a Raia Conceito é a resposta para tudo isso?
É uma resposta. Não é a resposta. É um teste de um novo modelo onde a farmácia não é só farmácia — é um destino de bem-estar. Se funcionar, abre espaço para crescimento em um mercado que a indústria farmacêutica não consegue alcançar sozinha.
El Pulso
- RD Saúde inaugura Raia Conceito em 5 de agosto de 2026 no Itaim Bibi, São Paulo
- Loja tem 364 m² com dois terços do mix dedicado a cosméticos e beleza
- Medicamentos GLP-1 representam 12% das vendas totais do grupo, equivalente a R$ 5,7 bilhões anuais
- Mercado de cosméticos no Brasil movimenta R$ 200 bilhões, valor próximo ao de medicamentos
RD Saúde abre loja-conceito com 364 m² focada em beleza e cosméticos, com dois terços do mix de produtos dedicados a esse segmento, inspirada no modelo Sephora. Mercado de cosméticos movimenta R$ 200 bilhões no Brasil, valor próximo ao de medicamentos, e integra-se cada vez mais aos conceitos de bem-estar e longevidade.
Líder do varejo farmacêutico brasileiro inaugura primeira loja Raia Conceito com foco em cosméticos e beleza, buscando diversificar receita diante de pressões competitivas de supermercados e marketplaces.
Um engenheiro naval enfrenta desafios únicos ao projetar um grande navio: cada cálculo precisa ser exato para que a embarcação flutue e mantenha estabilidade absoluta diante de ondas e ventos extremos. Não há testes em massa em linha de montagem, como ocorre com carros. O engenheiro Renato Raduan, aos 51 anos, vive experiência semelhante desde que assumiu o comando do RD Saúde em janeiro de 2025. À frente do maior varejista farmacêutico do Brasil, com 19% de participação de mercado através das bandeiras Droga Raia e Drogasil, o grupo fatura mais que o dobro do segundo colocado, o grupo DPSP. Mas manter esse transatlântico flutuando em meio à competição acirrada não tem sido fácil: supermercados começaram a vender medicamentos, marketplaces pressionam, e a indústria farmacêutica busca vender direto ao consumidor. O mar se tornou revolto.
Para assegurar novas rotas de crescimento, o grupo inaugura nesta quarta-feira, 5 de agosto, a primeira loja Raia Conceito no Itaim Bibi, zona oeste de São Paulo. Trata-se de uma farmácia onde cosméticos compõem dois terços do mix de produtos, inspirada no modelo da multinacional Sephora. Os 364 metros quadrados da loja contarão com bancadas de experimentação de produtos e dez vendedoras treinadas pela universidade corporativa do grupo para atuarem como consultoras de beleza. "Quando a gente está na liderança, é preciso ter humildade para se reinventar e se desafiar a fazer as coisas de um jeito melhor", diz Raduan à Folha. O mercado de cosméticos movimenta cerca de 200 bilhões de reais no Brasil, valor próximo ao da venda de medicamentos, e está cada vez mais em sintonia com os conceitos de bem-estar e longevidade que pautam o crescimento do varejo farmacêutico.
A Raia Conceito ocupará o espaço de uma antiga farmácia Droga Raia, especialmente reformada. Os produtos e serviços farmacêuticos continuam sendo oferecidos, mas o portfólio de beleza ganha destaque. A ideia é abrir novas lojas ainda este ano, inclusive com a bandeira Drogasil Conceito. Entre farmácias tradicionais e a nova proposta, mais de 300 pontos de venda estão sendo inaugurados em 2026. O novo modelo contará com 4.400 itens de beleza, mais que o dobro dos 2.000 de uma farmácia convencional. Além de dermocosméticos e produtos voltados para bem-estar, a loja venderá fragrâncias e marcas profissionais para cabelos, com expectativa de atingir um tíquete-médio entre duas e três vezes maior ao das demais lojas. Um consumidor que vai à farmácia comprar medicamento fica, em média, 15 minutos; se vai comprar itens de beleza, permanece entre 20 e 30 minutos.
Entre as novidades estão marcas de beleza asiática, um espaço para produção de conteúdo e um serviço de diagnóstico da pele realizado pelo aparelho Visia. O equipamento fotografa o rosto com luz normal e ultravioleta para mostrar manchas profundas, rugas e poros, comparando o resultado aos dados de milhares de pessoas da mesma idade. "As consultoras, que foram treinadas com o apoio da indústria, poderão indicar os produtos e as rotinas mais adequados para cada cliente", diz Raduan. Grandes marcas como L'Oréal Professionel, Clinique e Carolina Herrera estarão presentes com campanhas veiculadas por meio de 18 telas interativas distribuídas pela loja.
Atualmente, a perfumaria representa quase um quarto (24%) das vendas do grupo, que faturou 47,6 bilhões de reais em 2025. Remédios sem prescrição representam 20%, genéricos 12%, e medicamentos de marca somam a maior parte, 44%. Este último segmento vem crescendo, puxado pelo sucesso das canetas emagrecedoras. No RD Saúde, os medicamentos à base de GLP-1 já representam 12% das vendas totais, equivalente a 5,7 bilhões de reais ao ano. "Esse desejo pelo GLP-1 também serve como termômetro do quanto os brasileiros valorizam o mercado de estética e de beleza, que passou a integrar os cuidados com a saúde", diz Raduan.
São justamente as canetas emagrecedoras que atraem novos rivais. Além da venda de medicamentos em supermercados, iniciada em julho com a primeira loja do Assaí Farma em São Paulo, o marketplace Mercado Livre comprou uma farmácia na zona sul de São Paulo no ano passado e em março começou um projeto-piloto para vender medicamentos sem prescrição. Os fabricantes de canetas emagrecedoras também ensaiam começar venda direta ao consumidor em 2027. "O varejo farmacêutico ficou surpreso com a iniciativa da Novo Nordisk de vender canetas emagrecedoras com um outro parceiro, sendo que as farmácias têm toda a infraestrutura necessária para isso", diz Raduan, referindo-se à breve duração da NovoCare, plataforma de venda online de GLP-1 da Novo Nordisk que durou menos de uma semana em julho e teria sido suspensa por pressão do varejo farmacêutico.
Por outro lado, a indústria farmacêutica não aprovou a ideia do RD Saúde de vender medicamentos OTC de marca própria. O grupo obteve licença para produzir e comercializar mais de 20 moléculas sob a marca Bwell, mas Raduan diz que a iniciativa está sendo revista. "Os produtos que já existiam continuam sendo vendidos, mas a produção está suspensa, estamos revendo qual a dimensão queremos dar a esse negócio", afirma. O grupo navega entre oportunidades e pressões, buscando manter sua posição enquanto o mercado farmacêutico se redefine.
Citas Notables
Quando a gente está na liderança, é preciso ter humildade para se reinventar e se desafiar a fazer as coisas de um jeito melhor— Renato Raduan, presidente do RD Saúde
Esse desejo pelo GLP-1 também serve como termômetro do quanto os brasileiros valorizam o mercado de estética e de beleza, que passou a integrar os cuidados com a saúde— Renato Raduan