Quilombola vota em quem conhece: Lula e prefeito de centro-direita

Eu voto no que eu conheço mais
Angelita explica sua lógica de voto pragmático, rejeitando polarização ideológica.
Mark

Por que Angelita vota em Lula para presidente mas apoia um prefeito que está no campo oposto?

Mimi

Porque para ela, o voto não é sobre ideologia ou partido. É sobre quem fez algo concreto por ela. Lula trouxe a transposição do São Francisco, programas sociais que a ajudaram. Fabinho, o prefeito, é alguém que ela conhece, que está perto, que ela vê agindo.

Mark

Mas isso não é contraditório? Votar em candidatos que se combatem?

Mimi

Só é contraditório se você acredita que a política funciona como um sistema coerente de ideias. Para Angelita, funciona como uma série de transações: você vota em quem te ajudou, em quem você conhece, em quem você vê resultados.

Mark

E seus filhos? Eles votam como ela?

Mimi

Saíram da comunidade, vivem na cidade. Votam em Lula também, mas a vida deles é diferente. Três sobrinhos dela são policiais e bolsonaristas. A família não é monolítica, mas Angelita segue seu próprio caminho.

Mark

Ela se sente isolada por isso?

Mimi

Não parece. Na comunidade, Bolsonaro é pouco falado. Ela está no lugar onde a maioria pensa como ela sobre Lula. O que a torna diferente é que ela não deixa isso determinar tudo. Ela vota em quem conhece, independentemente do partido.

Mark

O que muda se entendermos que há milhões de Angelitas?

Mimi

Muda tudo. Significa que a polarização que vemos nas cidades, entre Lula e Bolsonaro, não é a história real do Brasil rural. A história real é sobre água, sobre roça, sobre quem aparece quando você precisa.

  • A narrativa da polarização esquerda-direita chega às comunidades quilombolas do sertão pernambucano, mas encontra resistência silenciosa e pragmática.
  • Angelita, aos 69 anos, desafia militantes que batem em sua porta: vota em Lula para presidente e em Fabinho, empresário de centro-direita, para prefeito — sem sentir contradição.
  • A transposição do São Francisco e a cisterna abastecida por programa federal ancoram sua fidelidade a Lula, enquanto ações locais visíveis garantem o voto no prefeito.
  • Seu padrão de voto — presidente petista, governadora do campo oposto, deputados do centrão — sugere um eleitorado rural que navega por benefícios concretos, não por siglas.
  • O fenômeno observado em Jurema desafia estrategistas: comunidades historicamente vulneráveis podem ser mais voláteis e menos capturáveis por identidades partidárias do que se imagina.

No sertão de Pernambuco, entre caminhos de terra vermelha e roças de feijão, Angelita Alzira dos Santos encarna uma sabedoria política que escapa às categorias da polarização moderna: ela vota em quem conhece, em quem deixou marca concreta em sua vida. Sua lealdade a Lula coexiste com o apoio a um prefeito de centro-direita, revelando que, para muitos brasileiros rurais, a política não é ideologia — é memória de água, de colheita, de presença.

Caminhos de terra vermelha cortam a caatinga do sertão central de Pernambuco até a comunidade quilombola Jurema, onde Angelita Alzira dos Santos, 69 anos, cultiva milho e feijão com as mãos e aguarda as chuvas do inverno para molhar sua roça. A colheita deste ano foi magra — espigas murchas, duas sacas e meia de feijão guardadas em garrafas de refrigerante —, mas seu otimismo permanece intacto.

Angelita é lulista convicta. Lula nasceu em Garanhuns, não tão longe dali, veio de origem parecida com a sua, e ela votou nele sempre. A transposição do rio São Francisco, cujo canal passa a poucos quilômetros de sua casa, é o símbolo maior dessa lealdade. "Essa água aí todinha foi força de Lula", afirma com convicção. Uma cisterna abastecida por programa federal completa o abastecimento doméstico; para o cultivo, ela depende do céu.

Mas sua política não cabe nas categorias da polarização. Dois anos atrás, quando militantes pediram seu voto para o candidato de esquerda à prefeitura, ela foi direta: votaria em Fabinho, empresário que disputou pelo PRD em coligação de centro-direita. "Eu voto no que eu conheço mais", explicou. Fabinho depois migrou para o PSD da governadora Raquel Lyra, campo oposto ao PT — e isso não a incomoda.

Neste ano eleitoral, Angelita planeja votar em Raquel Lyra para governadora, apoiar deputados aliados do prefeito e manter Lula para presidente. Na família, quase todos seguem o mesmo caminho, exceto três sobrinhos policiais e bolsonaristas. Na comunidade, o apoio ao bolsonarismo é raro. "Aqui no pedaço não se fala em Bolsonaro, não", diz ela.

Na parede de sua casa, um adesivo desbotado de uma candidata a vereadora — colado por uma conhecida que pediu autorização — sobrevive desde a eleição anterior. Na hora de votar, porém, Angelita escolheu outro nome. Sua lealdade é feita de memória concreta, não de promessas ou rótulos: ela vota em quem reconhece, em quem deixou rastro visível em sua vida.

Caminhos de terra vermelha cortam a caatinga do sertão central de Pernambuco, ligando pequenas povoações espalhadas pela zona rural de Salgueiro, uma cidade de sessenta mil habitantes. Um desses caminhos leva até a comunidade quilombola Jurema, onde as casas ficam distantes umas das outras e não existe propriamente um centro urbano. Ali vive Angelita Alzira dos Santos, uma mulher de sessenta e nove anos que passa os dias com as mãos na enxada, cultivando milho e feijão em sua roça.

A colheita deste ano não foi generosa. As espigas de milho nasceram murchas, mas o feijão rendeu duas sacas e meia, que ela transferiu pacientemente para garrafas de refrigerante vazias. Apesar das dificuldades, Angelita mantém um otimismo que parece enraizado em sua própria natureza. Quando perguntada sobre a situação do Brasil, ela responde sem hesitar: o governo atual lhe parece a melhor coisa que Deus enviou. Lula, nascido em Garanhuns, não tão longe dali, veio de uma origem parecida com a sua, e ela votou nele sempre.

Mas a política de Angelita não se encaixa nas categorias que costumamos usar. Ela não é simplesmente lulista ou bolsonarista, não se deixa prender pela polarização que domina as conversas nas cidades. Dois anos atrás, quando militantes bateram em sua porta pedindo votos para o prefeito da esquerda, Marcones Sá, ela respondeu com clareza: votaria em Fabinho, o empresário Fábio Lisandro, que disputou a eleição pelo PRD em uma coligação de centro-direita. "Eu voto no que eu conheço mais", disse ela. Fabinho depois migrou para o PSD da governadora Raquel Lyra, permanecendo no campo oposto ao PT de Lula, mas isso não a incomoda.

Neste ano eleitoral, Angelita planeja votar em Raquel Lyra para governadora, apoiar candidatos a deputado aliados do prefeito, do centrão, e manter seu voto em Lula para presidente. Para ela, não há qualquer contradição nessas escolhas. Sua lealdade não segue linhas ideológicas, mas a memória de quem fez algo por ela e por sua comunidade. A transposição do rio São Francisco marca essa memória de forma indelével. O canal passa a poucos quilômetros de sua casa, e ela credita a obra inteiramente a Lula. "Essa água aí todinha foi força de Lula. Não foi de Bolsonaro não, foi Lula", afirma com convicção.

A água do São Francisco não chega às suas torneiras, mas uma cisterna abastecida por um programa federal coleta água da chuva e dos caminhões-pipa da prefeitura. É suficiente para beber, lavar roupas e pratos. Para o resto, ela busca em um riacho próximo. Para o cultivo, depende das chuvas do inverno: "Minha roça, eu planto e Deus molha". Seus cinco filhos deixaram a comunidade e vivem na zona urbana de Salgueiro. A caçula está construindo uma casa nos arredores, mas não pretende morar lá permanentemente; será um sítio para os momentos de descanso.

Angelita divide a casa com o ex-marido, que saiu anos atrás para ganhar o mundo e depois voltou. Ela o aceitou como pai de seus filhos, mas não mais como marido. Vivem juntos sem grandes conflitos. Na família, todos costumam votar em Lula, exceto três sobrinhos que são policiais e bolsonaristas. Na comunidade, o senador Flávio Bolsonaro tem raros apoiadores. "Aqui no pedaço não se fala em Bolsonaro, não. Ele pode até ganhar, mas o pessoal daqui para ele é pouco", comenta.

Na entrada de sua casa, um adesivo de campanha de uma candidata a vereadora, já desbotado, permanece na parede desde a eleição anterior. Uma conhecida da família bateu em sua porta pedindo para colar o material, e Angelita não hesitou em autorizar. Mas quando chegou o momento de votar, a história foi diferente: ela votou em outro candidato. Sua lealdade é pragmática, baseada no que ela conhece e no que viu acontecer em sua vida, não em promessas ou em rótulos políticos.

O governo Lula, acho que foi a melhor coisa que Deus mandou
— Angelita Alzira dos Santos
Essa água aí todinha foi força de Lula. Não foi de Bolsonaro não, foi Lula
— Angelita Alzira dos Santos
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