No sertão de Pernambuco, entre caminhos de terra vermelha e roças de feijão, Angelita Alzira dos Santos encarna uma sabedoria política que escapa às categorias da polarização moderna: ela vota em quem conhece, em quem deixou marca concreta em sua vida. Sua lealdade a Lula coexiste com o apoio a um prefeito de centro-direita, revelando que, para muitos brasileiros rurais, a política não é ideologia — é memória de água, de colheita, de presença.
Quilombola vota em quem conhece: Lula e prefeito de centro-direita
Eu voto no que eu conheço mais
Por que Angelita vota em Lula para presidente mas apoia um prefeito que está no campo oposto?
Porque para ela, o voto não é sobre ideologia ou partido. É sobre quem fez algo concreto por ela. Lula trouxe a transposição do São Francisco, programas sociais que a ajudaram. Fabinho, o prefeito, é alguém que ela conhece, que está perto, que ela vê agindo.
Mas isso não é contraditório? Votar em candidatos que se combatem?
Só é contraditório se você acredita que a política funciona como um sistema coerente de ideias. Para Angelita, funciona como uma série de transações: você vota em quem te ajudou, em quem você conhece, em quem você vê resultados.
E seus filhos? Eles votam como ela?
Saíram da comunidade, vivem na cidade. Votam em Lula também, mas a vida deles é diferente. Três sobrinhos dela são policiais e bolsonaristas. A família não é monolítica, mas Angelita segue seu próprio caminho.
Ela se sente isolada por isso?
Não parece. Na comunidade, Bolsonaro é pouco falado. Ela está no lugar onde a maioria pensa como ela sobre Lula. O que a torna diferente é que ela não deixa isso determinar tudo. Ela vota em quem conhece, independentemente do partido.
O que muda se entendermos que há milhões de Angelitas?
Muda tudo. Significa que a polarização que vemos nas cidades, entre Lula e Bolsonaro, não é a história real do Brasil rural. A história real é sobre água, sobre roça, sobre quem aparece quando você precisa.
El Pulso
- A narrativa da polarização esquerda-direita chega às comunidades quilombolas do sertão pernambucano, mas encontra resistência silenciosa e pragmática.
- Angelita, aos 69 anos, desafia militantes que batem em sua porta: vota em Lula para presidente e em Fabinho, empresário de centro-direita, para prefeito — sem sentir contradição.
- A transposição do São Francisco e a cisterna abastecida por programa federal ancoram sua fidelidade a Lula, enquanto ações locais visíveis garantem o voto no prefeito.
- Seu padrão de voto — presidente petista, governadora do campo oposto, deputados do centrão — sugere um eleitorado rural que navega por benefícios concretos, não por siglas.
- O fenômeno observado em Jurema desafia estrategistas: comunidades historicamente vulneráveis podem ser mais voláteis e menos capturáveis por identidades partidárias do que se imagina.
No sertão de Pernambuco, entre caminhos de terra vermelha e roças de feijão, Angelita Alzira dos Santos encarna uma sabedoria política que escapa às categorias da polarização moderna: ela vota em quem conhece, em quem deixou marca concreta em sua vida. Sua lealdade a Lula coexiste com o apoio a um prefeito de centro-direita, revelando que, para muitos brasileiros rurais, a política não é ideologia — é memória de água, de colheita, de presença.
Caminhos de terra vermelha cortam a caatinga do sertão central de Pernambuco até a comunidade quilombola Jurema, onde Angelita Alzira dos Santos, 69 anos, cultiva milho e feijão com as mãos e aguarda as chuvas do inverno para molhar sua roça. A colheita deste ano foi magra — espigas murchas, duas sacas e meia de feijão guardadas em garrafas de refrigerante —, mas seu otimismo permanece intacto.
Angelita é lulista convicta. Lula nasceu em Garanhuns, não tão longe dali, veio de origem parecida com a sua, e ela votou nele sempre. A transposição do rio São Francisco, cujo canal passa a poucos quilômetros de sua casa, é o símbolo maior dessa lealdade. "Essa água aí todinha foi força de Lula", afirma com convicção. Uma cisterna abastecida por programa federal completa o abastecimento doméstico; para o cultivo, ela depende do céu.
Mas sua política não cabe nas categorias da polarização. Dois anos atrás, quando militantes pediram seu voto para o candidato de esquerda à prefeitura, ela foi direta: votaria em Fabinho, empresário que disputou pelo PRD em coligação de centro-direita. "Eu voto no que eu conheço mais", explicou. Fabinho depois migrou para o PSD da governadora Raquel Lyra, campo oposto ao PT — e isso não a incomoda.
Neste ano eleitoral, Angelita planeja votar em Raquel Lyra para governadora, apoiar deputados aliados do prefeito e manter Lula para presidente. Na família, quase todos seguem o mesmo caminho, exceto três sobrinhos policiais e bolsonaristas. Na comunidade, o apoio ao bolsonarismo é raro. "Aqui no pedaço não se fala em Bolsonaro, não", diz ela.
Na parede de sua casa, um adesivo desbotado de uma candidata a vereadora — colado por uma conhecida que pediu autorização — sobrevive desde a eleição anterior. Na hora de votar, porém, Angelita escolheu outro nome. Sua lealdade é feita de memória concreta, não de promessas ou rótulos: ela vota em quem reconhece, em quem deixou rastro visível em sua vida.
Caminhos de terra vermelha cortam a caatinga do sertão central de Pernambuco, ligando pequenas povoações espalhadas pela zona rural de Salgueiro, uma cidade de sessenta mil habitantes. Um desses caminhos leva até a comunidade quilombola Jurema, onde as casas ficam distantes umas das outras e não existe propriamente um centro urbano. Ali vive Angelita Alzira dos Santos, uma mulher de sessenta e nove anos que passa os dias com as mãos na enxada, cultivando milho e feijão em sua roça.
A colheita deste ano não foi generosa. As espigas de milho nasceram murchas, mas o feijão rendeu duas sacas e meia, que ela transferiu pacientemente para garrafas de refrigerante vazias. Apesar das dificuldades, Angelita mantém um otimismo que parece enraizado em sua própria natureza. Quando perguntada sobre a situação do Brasil, ela responde sem hesitar: o governo atual lhe parece a melhor coisa que Deus enviou. Lula, nascido em Garanhuns, não tão longe dali, veio de uma origem parecida com a sua, e ela votou nele sempre.
Mas a política de Angelita não se encaixa nas categorias que costumamos usar. Ela não é simplesmente lulista ou bolsonarista, não se deixa prender pela polarização que domina as conversas nas cidades. Dois anos atrás, quando militantes bateram em sua porta pedindo votos para o prefeito da esquerda, Marcones Sá, ela respondeu com clareza: votaria em Fabinho, o empresário Fábio Lisandro, que disputou a eleição pelo PRD em uma coligação de centro-direita. "Eu voto no que eu conheço mais", disse ela. Fabinho depois migrou para o PSD da governadora Raquel Lyra, permanecendo no campo oposto ao PT de Lula, mas isso não a incomoda.
Neste ano eleitoral, Angelita planeja votar em Raquel Lyra para governadora, apoiar candidatos a deputado aliados do prefeito, do centrão, e manter seu voto em Lula para presidente. Para ela, não há qualquer contradição nessas escolhas. Sua lealdade não segue linhas ideológicas, mas a memória de quem fez algo por ela e por sua comunidade. A transposição do rio São Francisco marca essa memória de forma indelével. O canal passa a poucos quilômetros de sua casa, e ela credita a obra inteiramente a Lula. "Essa água aí todinha foi força de Lula. Não foi de Bolsonaro não, foi Lula", afirma com convicção.
A água do São Francisco não chega às suas torneiras, mas uma cisterna abastecida por um programa federal coleta água da chuva e dos caminhões-pipa da prefeitura. É suficiente para beber, lavar roupas e pratos. Para o resto, ela busca em um riacho próximo. Para o cultivo, depende das chuvas do inverno: "Minha roça, eu planto e Deus molha". Seus cinco filhos deixaram a comunidade e vivem na zona urbana de Salgueiro. A caçula está construindo uma casa nos arredores, mas não pretende morar lá permanentemente; será um sítio para os momentos de descanso.
Angelita divide a casa com o ex-marido, que saiu anos atrás para ganhar o mundo e depois voltou. Ela o aceitou como pai de seus filhos, mas não mais como marido. Vivem juntos sem grandes conflitos. Na família, todos costumam votar em Lula, exceto três sobrinhos que são policiais e bolsonaristas. Na comunidade, o senador Flávio Bolsonaro tem raros apoiadores. "Aqui no pedaço não se fala em Bolsonaro, não. Ele pode até ganhar, mas o pessoal daqui para ele é pouco", comenta.
Na entrada de sua casa, um adesivo de campanha de uma candidata a vereadora, já desbotado, permanece na parede desde a eleição anterior. Uma conhecida da família bateu em sua porta pedindo para colar o material, e Angelita não hesitou em autorizar. Mas quando chegou o momento de votar, a história foi diferente: ela votou em outro candidato. Sua lealdade é pragmática, baseada no que ela conhece e no que viu acontecer em sua vida, não em promessas ou em rótulos políticos.
Citas Notables
O governo Lula, acho que foi a melhor coisa que Deus mandou— Angelita Alzira dos Santos
Essa água aí todinha foi força de Lula. Não foi de Bolsonaro não, foi Lula— Angelita Alzira dos Santos