Outsider em política, insider nos poderes reais
Na Colômbia, um advogado e empresário que se autodenomina 'Tigre' emergiu do primeiro turno presidencial com um recorde de votos, carregando consigo a promessa de ordem severa e o eco de lideranças autoritárias que redesenham o mapa político das Américas. Abelardo de la Espriella, com 43% dos sufrágios e o apoio declarado de figuras como Flávio Bolsonaro e setores republicanos americanos, avança para o segundo turno em um país exausto pela violência e pela desconfiança na política tradicional. Sua possível vitória não é apenas uma questão colombiana: ela ameaça reconfigurar o equilíbrio geopolítico sul-americano, estreitando o espaço dos governos progressistas e devolvendo a Washington uma influência que havia recuado sob Gustavo Petro.
- Com mais de 10 milhões de votos — um recorde histórico —, De la Espriella transformou o descontentamento colombiano em força eleitoral capaz de mudar o destino regional.
- Seu programa inclui bombardeios de acampamentos armados, megacárceres e fumigação em massa de plantações de coca, sinalizando uma escalada de violência que preocupa analistas de direitos humanos.
- O apoio explícito de republicanos americanos e de Flávio Bolsonaro revela que sua candidatura é também uma peça em um tabuleiro geopolítico mais amplo, no qual Washington busca recuperar influência sobre Bogotá.
- Para o governo Lula, o avanço do 'Tigre' representa a possível formação de um cinturão regional de extrema-direita alinhado à agenda Trump, reduzindo a autonomia progressista no continente.
- No segundo turno, De la Espriella enfrentará Iván Cepeda, candidato de esquerda, numa disputa que definirá se a Colômbia aprofunda a ruptura com Washington ou retorna ao alinhamento que marcou governos anteriores.
No domingo 31 de maio, Abelardo de la Espriella — advogado, empresário e autoproclamado 'Tigre' — celebrou uma vitória histórica no primeiro turno das eleições presidenciais colombianas. Com 43% dos votos e mais de 10 milhões de sufrágios, um recorde nacional, ele garantiu sua vaga no segundo turno, onde disputará a presidência contra Iván Cepeda, candidato de esquerda ligado ao legado de Gustavo Petro.
De la Espriella se apresenta como um outsider distante da velha política. Sua fortuna vem de dezenas de empresas nos setores imobiliário, alimentício, de vestuário e pecuária, além de uma firma de advocacia. Sua promessa central é uma 'mão de ferro' contra o crime, o narcotráfico e a corrupção — discurso que ecoa abertamente as gestões de Bukele em El Salvador, Milei na Argentina e Trump nos Estados Unidos, figuras que admira sem reservas.
Sua trajetória profissional, porém, revela conexões com os setores mais sombrios do país. Como advogado, defendeu figuras ligadas ao narcotráfico e ao paramilitarismo, incluindo Alex Saab, empresário aliado do governo venezuelano extraditado para os EUA. Ele vive sob proteção de ao menos 35 seguranças em cada evento público, justificando o aparato com ameaças de morte que diz receber com frequência.
Seu programa é radical: desmantelar a política de 'paz total' de Petro, construir megacárceres, bombardear acampamentos de grupos armados, fumigar hectares de coca e abater aeronaves suspeitas de transportar drogas — pedindo cooperação dos Estados Unidos, da Europa e de Israel. Na economia, promete cortes severos no Estado e exploração intensa de hidrocarbonetos, usando, em suas palavras, 'a motosserra', à maneira de Milei.
Para o Brasil, o avanço do 'Tigre' é um sinal de alerta geopolítico. Uma Colômbia sob De la Espriella poderia abandonar a postura soberana adotada por Petro e retornar ao alinhamento próximo a Washington, fortalecendo um cinturão regional de extrema-direita que reduziria o espaço político dos governos progressistas sul-americanos e ampliaria a capacidade dos Estados Unidos de influenciar decisões de segurança no continente.
No domingo 31 de maio, um homem de 47 anos que se autodenomina "Tigre" celebrou uma vitória eleitoral histórica na Colômbia. Abelardo de la Espriella, vestindo a camisa amarela da seleção colombiana e protegido por vidro blindado, conquistou mais de 10 milhões de votos no primeiro turno das eleições presidenciais — um recorde. Com 43% dos votos, o advogado e empresário garantiu sua passagem para o segundo turno, onde enfrentará Iván Cepeda, um líder de esquerda que busca dar continuidade às políticas do presidente Gustavo Petro.
De la Espriella se apresenta como um outsider, um homem de negócios bem-sucedido e independente da velha política. Sua fortuna vem de dezenas de empresas nos setores imobiliário, alimentício, de bebidas, vestuário e pecuária, além de sua firma de advocacia. Ele afirma financiar sua campanha com os lucros desses negócios. Sua promessa central é simples e direta: uma "mão de ferro" contra o crime, a ilegalidade, o narcotráfico e a corrupção — problemas que identifica como os principais desafios do país. Esse discurso ecoa modelos autoritários que ganham força em toda a região.
O candidato não esconde suas admirações políticas. Ele elogia abertamente as gestões de Nayib Bukele em El Salvador, Javier Milei na Argentina e Donald Trump nos Estados Unidos. Recebe apoio explícito de figuras como Flávio Bolsonaro e tem atraído a atenção de setores do Partido Republicano americano. O senador republicano Bernie Moreno visitou a Colômbia durante a campanha. Esses apoios não são casuais: para Washington, De la Espriella representa uma oportunidade de recuperar influência sobre Bogotá, influência que perdeu quando Gustavo Petro chegou à presidência em 2022 com uma agenda mais autônoma e crítica da presença americana.
A trajetória profissional de De la Espriella revela conexões profundas com os setores mais sombrios da Colômbia. Como advogado, defendeu figuras ligadas ao narcotráfico e ao paramilitarismo colombiano, alguns deles investigados ou processados pela Justiça dos Estados Unidos. Entre seus clientes estava Alex Saab, empresário colombiano aliado do governo venezuelano, que foi extraditado para os EUA após anos de disputa judicial. Ele mora em Miami e viaja protegido por pelo menos 35 seguranças em cada evento, além de esquemas policiais robustos, justificando essa segurança com ameaças de morte que diz receber frequentemente.
Seu programa político é abrangente e radical. De la Espriella promete desmantelar a política de "paz total" de Petro e chamar a esquerda de "inimiga da república". Planeja construir megacárceres, assim como Bukele fez em El Salvador. Anuncia que fumigará hectares de coca, bombardeará acampamentos de grupos armados e abaterá qualquer avião ou embarcação com drogas que saia da Colômbia, pedindo ajuda dos Estados Unidos, Europa e Israel. Combinando essa postura de homem forte com a valorização da família tradicional e do cristianismo, promete também ser implacável contra a corrupção e estimular o crescimento econômico através da exploração de hidrocarbonetos e minerais, liberdades tributárias e severos cortes estatais — usando, em suas palavras, "a motosserra", assim como Milei na Argentina.
Para o governo Lula no Brasil, uma eventual vitória de De la Espriella representa um cenário geopolítico preocupante. Significaria a formação de um entorno regional mais alinhado à extrema-direita e à agenda internacional de Donald Trump. A Colômbia, que sob Petro começou a exigir maior respeito à sua soberania e estabeleceu limites à influência de Washington em temas de segurança, poderia retornar a um modelo de alinhamento mais próximo ao que caracterizou governos anteriores. Isso alteraria o equilíbrio de poder na América do Sul, reduzindo o espaço político para governos progressistas e fortalecendo a capacidade de Washington de influenciar decisões de política interna e segurança regional.
De la Espriella anunciou suas intenções presidenciais em julho de 2025, um mês após o pré-candidato Miguel Uribe Turbay ser baleado em Bogotá. Ele soube capitalizar o momento, gerando conversas sobre segurança antes mesmo de lançar sua candidatura oficialmente. Seu movimento se chama "Defensores da Pátria" e busca canalizar o mal-estar dos colombianos que veem na velha guarda política a origem de muitos dos desafios do país. Com carisma e um discurso incisivo que apela ao espetáculo e faz declarações categóricas e provocativas, De la Espriella construiu uma candidatura que ressoa com eleitores cansados da política tradicional — e que agora o levou ao segundo turno com uma margem impressionante.
Notable Quotes
Promete uma 'mão de ferro' contra crime, ilegalidade, narcotráfico e corrupção, ecoando discursos autoritários que ganham força na região— Plataforma de campanha de Abelardo de la Espriella
Rejeita governar 'com os de sempre', referindo-se à elite política tradicional que dominou o país até a chegada de Gustavo Petro— Posicionamento de campanha de De la Espriella
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que exatamente a vitória de De la Espriella preocupa tanto o governo Lula?
Porque muda o tabuleiro geopolítico da região. Petro começou a estabelecer uma política externa mais autônoma, menos dependente de Washington. De la Espriella faria o oposto — alinharia a Colômbia novamente com os Estados Unidos e com a agenda Trump. Para Lula, isso significa menos espaço político para governos progressistas na América do Sul.
Mas ele é realmente um outsider, ou essa é apenas uma narrativa?
É uma narrativa bem construída. Ele não tem experiência política prévia, é verdade. Mas sua fortuna vem de negócios que o conectam profundamente aos setores mais problemáticos da Colômbia — defendeu narcotraficantes e paramilitares como advogado. Outsider em política, mas insider nos poderes reais.
Os planos dele para segurança parecem extremos. Bombardear acampamentos, construir megacárceres. Isso é viável?
Viável é outra questão. O que importa é que ele promete isso e as pessoas votaram nele. Os planos ecoam Bukele em El Salvador, que fez exatamente isso. A questão é: a quem isso beneficia e quem paga o preço?
Qual é o preço?
Deslocamentos em massa, intensificação da violência, erosão de direitos. Quando você bombardeia acampamentos e constrói megacárceres, pessoas morrem, famílias são deslocadas. A "mão de ferro" nunca é limpa.
E o apoio republicano americano? Isso é novo?
Não é novo, mas é explícito de um jeito que não era antes. Senadores republicanos visitando a Colômbia durante a campanha, Flávio Bolsonaro apoiando publicamente. Washington vê em De la Espriella a chance de recuperar o que perdeu sob Petro. É um investimento geopolítico claro.