Queiroga pede revisão de protocolo que veta 'kit Covid' no SUS

Essa discussão continua só no Brasil e é até motivo de chacota em outros países
Presidente da Associação Médica Brasileira criticava a insistência em medicamentos ineficazes contra a Covid.
Mark

Por que o ministro não simplesmente aprovou ou rejeitou o protocolo de uma vez?

Mimi

Porque aprovar significaria dizer publicamente que hidroxicloroquina não funciona — e isso contraria o presidente. Rejeitar completamente geraria revolta dos médicos e cientistas. A reformulação é uma saída que permite ao ministério parecer técnico enquanto evita o confronto direto.

Mark

Mas isso não deixa a questão em aberto indefinidamente?

Mimi

Deixa, sim. E é proposital. Ao pedir "reformulação", Queiroga ganha tempo e mantém a ambiguidade. O protocolo continua existindo, mas agora com espaço para incluir novos medicamentos — o que tecnicamente é verdade, mas também permite que a discussão sobre o "kit Covid" não seja encerrada.

Mark

Os pesquisadores que fizeram o protocolo ficaram satisfeitos?

Mimi

Parcialmente. Eles queriam aprovação integral. Mas conseguiram que o documento não fosse simplesmente descartado, como Angotti havia feito. É uma vitória incompleta.

Mark

E quanto ao público? Como fica sabendo o que funciona e o que não funciona?

Mimi

Fica confuso. Enquanto a OMS, a Anvisa e estudos internacionais dizem que certos medicamentos não funcionam, o governo brasileiro mantém a discussão aberta. Isso cria espaço para dúvida onde não deveria haver.

Mark

Isso era comum em 2022?

Mimi

Era o padrão do governo Bolsonaro com Covid. Sempre havia uma maneira de não dizer "não" diretamente aos medicamentos que o presidente apoiava. Reformulações, revisões, novas análises — tudo para adiar uma decisão clara.

  • A Conitec havia aprovado em dezembro diretrizes que contraindicavam hidroxicloroquina, ivermectina e azitromicina — e o secretário Hélio Angotti as rejeitou em janeiro, chegando a publicar nota afirmando que vacinas não tinham eficácia comprovada, enquanto a cloroquina sim.
  • Pesquisadores liderados por Carlos Carvalho, convidado pelo próprio Queiroga para coordenar o protocolo, entraram com recurso em fevereiro exigindo que a rejeição de Angotti fosse revogada.
  • A classe médica reagiu com dureza: o presidente da Associação Médica Brasileira chamou de absurdo insistir no 'kit Covid' quando novos tratamentos já estavam disponíveis e o debate havia virado motivo de chacota internacional.
  • Queiroga optou por um caminho intermediário — pedir reformulação parcial do protocolo, incluindo o baricitinibe recém-incorporado ao SUS, evitando tanto a aprovação integral quanto a rejeição total.
  • A decisão estava prevista para o Diário Oficial de quinta-feira, mantendo o protocolo como documento em aberto — recomendando boas práticas em vez de fazer contraindicações diretas aos medicamentos presidencialmente endossados.

Em meio à tensão entre ciência e política, o ministro da Saúde Marcelo Queiroga pediu, em abril de 2022, que a Conitec reformulasse um protocolo que contraindicava os medicamentos do chamado 'kit Covid' no SUS — substâncias promovidas pelo presidente Bolsonaro apesar de sua ineficácia comprovada. O argumento escolhido foi técnico: novos fármacos teriam tornado o documento desatualizado. Essa manobra revela como, em tempos de polarização, a linguagem da ciência pode ser usada tanto para iluminar quanto para desviar o olhar do que está verdadeiramente em jogo.

Em abril de 2022, o ministro Marcelo Queiroga pediu à Conitec que reformulasse um protocolo que contraindicava o 'kit Covid' no SUS. O argumento era técnico: novos medicamentos, como o baricitinibe — incorporado ao SUS na semana anterior —, teriam tornado o documento desatualizado. A estratégia permitia ao ministro evitar um confronto direto com o presidente Bolsonaro, que há meses promovia hidroxicloroquina, ivermectina e azitromicina como tratamentos eficazes, contrariando estudos científicos, a OMS e a Anvisa.

A crise tinha raízes mais antigas. Em dezembro, a Conitec havia aprovado as 'Diretrizes Brasileiras para o Tratamento Medicamentoso do Paciente com Covid-19', contraindicando os medicamentos do kit. Em janeiro, o secretário Hélio Angotti rejeitou o documento e publicou uma nota técnica afirmando que vacinas não tinham eficácia comprovada — enquanto a hidroxicloroquina sim. Após repercussão negativa, Angotti recuou e retirou a tabela comparativa.

Os pesquisadores responsáveis pelo protocolo, liderados por Carlos Carvalho — médico da USP convidado pelo próprio Queiroga para coordenar o trabalho —, entraram com recurso em fevereiro pedindo a revogação da decisão de Angotti. A situação era delicada: o ministério havia convocado os cientistas e depois bloqueado seu trabalho. A Associação Médica Brasileira reagiu com crítica direta, classificando de absurdo insistir no kit quando novos tratamentos já existiam e o debate havia se tornado motivo de chacota internacional.

A solução de Queiroga — nem aprovar nem rejeitar integralmente — refletia a tensão política do governo. Aprovar as diretrizes seria contradizer Bolsonaro abertamente; rejeitá-las completamente provocaria a comunidade científica. A decisão, prevista para o Diário Oficial de quinta-feira, mantinha o protocolo como documento vivo, orientado a recomendar boas práticas em vez de fazer contraindicações explícitas.

Em abril de 2022, o ministro da Saúde Marcelo Queiroga pediu que a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias ao Sistema Único de Saúde reformulasse um protocolo que havia rejeitado o chamado "kit Covid" na rede pública. Quatro meses antes, a Conitec havia aprovado diretrizes que contraindicavam medicamentos como hidroxicloroquina, azitromicina e ivermectina — substâncias que o presidente Jair Bolsonaro e seus aliados promoviam como tratamento eficaz contra a doença, apesar de estudos científicos demonstrarem o contrário.

O argumento de Queiroga era técnico: o protocolo havia "perdido objeto" porque novos medicamentos foram aprovados desde sua elaboração. O ministro apontava especificamente o baricitinibe, incorporado pelo SUS na semana anterior, como exemplo de fármaco que deveria ser incluído nas diretrizes. Essa abordagem permitia ao ministro contornar um confronto direto com o discurso presidencial sobre medicamentos comprovadamente ineficazes, mantendo a aparência de uma decisão baseada em evidências científicas atualizadas.

A história começou meses antes, quando Hélio Angotti, então secretário de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos, rejeitou o documento "Diretrizes Brasileiras para o Tratamento Medicamentoso Ambulatorial e Hospitalar do Paciente com Covid-19" em janeiro. Angotti havia divulgado uma nota técnica afirmando que vacinas contra a Covid-19 não tinham efetividade nem segurança comprovadas, enquanto a hidroxicloroquina sim — uma posição que contradiz estudos científicos, a Organização Mundial de Saúde e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Após repercussão negativa, Angotti recuou e removeu a tabela comparativa de seu documento.

Os pesquisadores responsáveis pela elaboração do protocolo, liderados pelo médico da USP Carlos Carvalho, entraram com um recurso em 4 de fevereiro pedindo ao ministro que revogasse a decisão de Angotti e aprovasse o documento. Carvalho havia sido convidado pelo próprio Queiroga para coordenar as diretrizes, criando uma situação delicada para o ministério. A classe médica reagiu com crítica contundente à rejeição do protocolo. César Eduardo Fernandes, presidente da Associação Médica Brasileira, afirmou que insistir em medicamentos do "kit Covid" era absurdo num contexto onde novos tratamentos estavam disponíveis e a discussão havia se tornado motivo de chacota internacional.

A solução encontrada por Queiroga — pedir reformulação parcial do protocolo em vez de aprová-lo ou rejeitá-lo completamente — refletia a tensão política dentro do governo. Aprovar integralmente as diretrizes significaria contradizer abertamente Bolsonaro e seus apoiadores. Rejeitá-las completamente geraria reação da comunidade científica e da classe médica. A decisão estava prevista para ser publicada no Diário Oficial da União na quinta-feira seguinte, mantendo o protocolo como documento vivo que deveria recomendar boas práticas em vez de fazer contraindicações diretas.

Em março de 2020, esse documento poderia ser aceito e fazer sentido. Hoje o cenário é muito diferente. É absurdo insistir nisso.
— César Eduardo Fernandes, presidente da Associação Médica Brasileira
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