Em cada ciclo eleitoral, a democracia é testada não apenas nas urnas, mas nos espaços onde a palavra circula livremente — ou deveria circular. No Brasil de 2026, uma plataforma de monitoramento chamada Sentinela documentou 13 mil comentários ofensivos contra candidatas e candidatos LGBTQIA+ no Instagram, com quatro mulheres trans e travestis concentrando a maior parte dos ataques. O que emerge não é apenas ódio disperso, mas um padrão que levanta perguntas sobre coordenação, financiamento público e os limites do que uma democracia pode tolerar em nome da liberdade de expressão.
Quatro candidatas trans concentram 83% dos ataques LGBTfóbicos no Instagram
Recursos públicos não deveriam financiar crimes
Então 13 mil comentários ofensivos em uma rede social durante uma campanha — isso é muito ou é o esperado?
Esperado não é a palavra certa. É sistemático. O que chama atenção não é só o volume, mas a concentração: quatro mulheres absorvem 83% disso tudo.
Mas a gente sabe quantos comentários positivos ou neutros essas candidatas recebem? Sem esse contexto, 13 mil pode ser uma gota ou uma enchente.
Ótima pergunta. O relatório não oferece essa proporção. O que temos é o padrão: mais de 11 mil contas envolvidas, o que sugere que não é um grupo pequeno de trolls.
E esse episódio dos 63 perfis reproduzindo a mesma mensagem em três minutos — isso prova coordenação?
Prova que há um padrão suspeito. Mas o Instituto diz que demanda investigação, não que já está comprovado. É um sinal de alerta.
Quem investigaria isso? Instagram? Polícia? Tribunal eleitoral? Porque se ninguém tem autoridade clara, fica sendo só um dado preocupante sem consequência.
Essa é a lacuna real. O Instituto levantou a questão sobre financiamento público de crimes, mas não está claro quem tem poder para agir.
As quatro candidatas — todas são mulheres trans. Isso é coincidência ou há algo específico que as torna alvo?
Não é coincidência. Mulheres trans em posição de poder político são uma ameaça simbólica para quem quer manter as estruturas como estão. Elas não são apenas candidatas; são símbolos.
Mas o relatório não oferece análise do conteúdo dos ataques, certo? Não sabemos se é LGBTfobia pura, misoginia, racismo, ou uma mistura.
Exato. Sabemos que 92,7% dos ataques visam candidaturas femininas e 83,6% visam pessoas negras. Mas a intersecção entre esses fatores não está desagregada.
Il Polso
- Mais de 11 mil contas diferentes dispararam 13 mil comentários ofensivos contra candidaturas LGBTQIA+ desde o início do período eleitoral — uma mobilização que vai muito além do ódio espontâneo.
- Quatro candidatas trans e travestis a deputada federal concentram 83% de todos os ataques registrados, revelando que a violência política tem alvos precisos e identidades específicas.
- Em um único episódio, 63 perfis reproduziram a mesma mensagem em menos de três minutos — um sinal de ação coordenada que exige investigação sobre quem organiza e financia esses ataques.
- A intersecção entre gênero, identidade de gênero e raça define quem sofre: 92,7% dos ataques miram candidaturas femininas e 83,6% envolvem pessoas negras.
- O Instituto Plena Cidadania alerta que, se recursos públicos de campanha estão sendo usados para financiar atos que configuram LGBTfobia — crime no Brasil —, a violação ultrapassa as redes sociais e contamina o próprio processo eleitoral.
Em cada ciclo eleitoral, a democracia é testada não apenas nas urnas, mas nos espaços onde a palavra circula livremente — ou deveria circular. No Brasil de 2026, uma plataforma de monitoramento chamada Sentinela documentou 13 mil comentários ofensivos contra candidatas e candidatos LGBTQIA+ no Instagram, com quatro mulheres trans e travestis concentrando a maior parte dos ataques. O que emerge não é apenas ódio disperso, mas um padrão que levanta perguntas sobre coordenação, financiamento público e os limites do que uma democracia pode tolerar em nome da liberdade de expressão.
Desde o início do período eleitoral, a plataforma Sentinela, mantida pelo Instituto Plena Cidadania, registrou 13 mil comentários ofensivos contra candidatas e candidatos LGBTQIA+ no Instagram. Mais de 11 mil contas diferentes estão por trás desses ataques — um volume que aponta tanto para uma mobilização ampla quanto para possível coordenação deliberada.
A concentração dos casos é reveladora: quatro mulheres trans e travestis que disputam vagas de deputada federal — Erika Hilton, Duda Salabert, Benny Briolly e Thabatta Pimenta — absorvem 83% de todos os registros. Candidaturas femininas são alvo de 92,7% dos ataques, e pessoas negras aparecem em 83,6% dos casos. A violência política, aqui, não é aleatória — ela segue as linhas da marginalização histórica.
Um episódio analisado pela plataforma ilustra a suspeita de coordenação: 63 perfis reproduziram exatamente a mesma mensagem em um intervalo de cerca de três minutos. Para o Instituto Plena Cidadania, a simultaneidade e a uniformidade não parecem acidentais e exigem investigação sobre quem organiza esses ataques e com qual objetivo.
Gui Mohallem, da direção executiva do instituto, foi além do diagnóstico do assédio digital. No Brasil, LGBTfobia é crime. O financiamento de campanha é público. Se esses recursos estão sendo usados para sustentar atividades criminosas, a violação toca a integridade do processo eleitoral como um todo — não apenas a segurança de quem está nas redes.
A Sentinela foi criada para mapear e combater a Violência Política de Gênero e Raça LGBTfóbica, combinando inteligência artificial com mobilização social. O que seus dados revelam neste ciclo eleitoral não é apenas uma estatística — é um padrão sistemático de silenciamento contra quem ousou ocupar espaços historicamente negados.
Desde o início do período eleitoral, uma plataforma de monitoramento chamada Sentinela, mantida pelo Instituto Plena Cidadania, documentou 13 mil comentários ofensivos dirigidos a candidatas e candidatos LGBTQIA+ no Instagram. Por trás desses ataques estão mais de 11 mil contas diferentes, um número que sugere uma mobilização ampla e dispersa — ou, em alguns casos, coordenada de forma deliberada.
O padrão dos ataques revela uma concentração notável. Quatro mulheres trans e travestis que concorrem a deputada federal — Erika Hilton pelo PSOL em São Paulo, Duda Salabert pelo PSOL em Minas Gerais, Benny Briolly pelo PT no Rio de Janeiro e Thabatta Pimenta pelo PV no Rio Grande do Norte — absorvem 83% de todos os casos registrados. Quando se olha para o universo mais amplo, candidaturas femininas são alvo de 92,7% dos ataques, enquanto pessoas negras aparecem em 83,6% dos registros. A intersecção entre gênero, identidade de gênero e raça marca profundamente quem sofre esse tipo de violência política.
Em um episódio específico analisado pela plataforma, 63 perfis diferentes reproduziram exatamente a mesma mensagem em um intervalo de cerca de três minutos. Esse padrão não parece acidental. Segundo o Instituto Plena Cidadania, a simultaneidade e a uniformidade sugerem uma ação coordenada, o que demanda investigação mais aprofundada sobre quem está organizando esses ataques e com que objetivo.
A questão ganha dimensão adicional quando se considera o financiamento das campanhas. Gui Mohallem, da direção executiva do Instituto Plena Cidadania, levantou uma preocupação que vai além do assédio nas redes: no Brasil, LGBTfobia é crime. O financiamento de campanha é público. Se recursos públicos estão sendo utilizados para financiar atividades que constituem crime, há uma violação que transcende o âmbito das redes sociais e toca a integridade do processo eleitoral.
A Sentinela foi criada especificamente para mapear, analisar e combater o que se chama de Violência Política de Gênero e Raça LGBTfóbica. A plataforma combina inteligência artificial com inteligência coletiva, dados com mobilização social, e proteção digital com redes humanas de cuidado. Seu trabalho durante este período eleitoral documenta não apenas números, mas um padrão sistemático de silenciamento direcionado a candidatas que ocupam posições historicamente marginalizadas na política brasileira.
Citazioni salienti
No Brasil LGBTfobia é crime e o financiamento de campanha é público. Recursos públicos não deveriam ser usados para financiar crimes.— Gui Mohallem, diretor executivo do Instituto Plena Cidadania