Na última quarta-feira de setembro, Vladimir Putin compareceu à Duma russa pela primeira vez em cinco anos para pedir algo que poucas guerras modernas exigiram tão abertamente: um orçamento de guerra recorde de 50 biliões de rublos para os próximos três anos. A aparição rara e o pedido extraordinário revelam não apenas a escala do esforço militar russo, mas também a disposição de Moscovo em sacrificar saúde, educação e infraestruturas em nome de uma vitória que permanece indefinida no horizonte. Quando um Estado reorganiza toda a sua economia em torno da guerra, está a dizer ao mundo — e aos s
Putin pede à Duma aprovação de orçamento de guerra recorde para garantir vitória na Ucrânia
Fazer tudo pela nossa vitória, apoiando os defensores da pátria
Porque é que Putin foi pessoalmente à Duma para pedir este orçamento? Não é algo que normalmente faria?
Exatamente. A última vez que esteve lá foi em 2020. Esta aparição rara sugere que Putin quer enviar uma mensagem clara sobre a importância desta aprovação — não é apenas um número, é um compromisso político.
Mas quantas pessoas na Duma realmente têm liberdade para votar contra isto? Com 349 de 450 lugares controlados pelo partido do Kremlin, e observadores questionando a legitimidade das eleições, estamos a falar de um voto já decidido.
Então o orçamento vai ser aprovado. Mas o que significa para a vida das pessoas comuns na Rússia?
Significa cortes em saúde, educação, estradas, agricultura. E aumentos de impostos. Estas são medidas impopulares apresentadas logo após eleições que já foram questionadas.
Aqui é importante notar: os números que temos são do que foi planeado. Os especialistas dizem que os gastos reais ultrapassarão isto, especialmente no segundo semestre. Portanto, os cortes podem ser ainda mais profundos do que o orçamento sugere.
E quanto às negociações de paz? Putin não tinha dito que estava aberto a conversações?
Tinha, mas mudou de ideias após o ataque ucraniano a Moscovo em 20 de setembro. Desde então, a Rússia tem bombardeado Kiev continuamente.
É importante separar o que Putin diz sobre paz e o que as ações indicam. As ações — este orçamento recorde, os bombardeamentos contínuos — sugerem que ele se está a preparar para uma guerra longa, não para negociações próximas.
Quanto tempo pode a Rússia sustentar isto?
Essa é a pergunta que ninguém consegue responder com certeza. O orçamento de defesa é agora o mais elevado desde o início da guerra, mas a economia russa está sob pressão.
E não sabemos realmente qual é o limite. A Rússia tem reservas, mas também tem inflação, sanções, e uma população que enfrenta cortes em serviços essenciais. Isto é insustentável a longo prazo, mas "a longo prazo" pode significar anos.
The Pulse
- Putin apresentou pessoalmente à Duma um pedido de gastos militares sem precedentes desde o início da guerra, sinalizando que Moscovo se prepara para um conflito muito mais longo do que qualquer orçamento anterior sugeria.
- O valor de 17,1 biliões de rublos previsto para 2027 representa um aumento de 27% face ao planeado, e especialistas independentes acreditam que os gastos reais ultrapassarão largamente essas cifras.
- Para financiar a máquina de guerra, o governo russo propõe cortes em saúde, educação, estradas e subsídios agrícolas, além de um aumento de impostos apresentado logo após as eleições — uma sequência que analistas descrevem como deliberadamente calculada.
- O ataque ucraniano a Moscovo em 20 de setembro destruiu qualquer abertura recente a negociações de paz, substituída por uma campanha ininterrupta de bombardeamentos sobre Kiev.
- Com avanços apenas marginais no Donbass e reveses em Donetsk, a guerra aproxima-se do seu quinto aniversário sem que nenhum dos lados mostre sinais de colapso iminente.
Na última quarta-feira de setembro, Vladimir Putin compareceu à Duma russa pela primeira vez em cinco anos para pedir algo que poucas guerras modernas exigiram tão abertamente: um orçamento de guerra recorde de 50 biliões de rublos para os próximos três anos. A aparição rara e o pedido extraordinário revelam não apenas a escala do esforço militar russo, mas também a disposição de Moscovo em sacrificar saúde, educação e infraestruturas em nome de uma vitória que permanece indefinida no horizonte. Quando um Estado reorganiza toda a sua economia em torno da guerra, está a dizer ao mundo — e aos seus próprios cidadãos — que não vislumbra um fim próximo.
Vladimir Putin fez uma aparição rara na Duma russa na quarta-feira, 30 de setembro — a primeira desde 2020 — para pedir a aprovação de um orçamento de guerra recorde. Da tribuna de uma câmara dominada pelo partido do Kremlin, declarou que os deputados tinham o dever de dar prioridade ao reforço da defesa do país e de fazer "tudo pela vitória".
O orçamento proposto é de escala sem precedentes: 50 biliões de rublos em três anos, com 17,1 biliões previstos apenas para 2027 — um aumento de 27% face ao planeado e o valor mais elevado alocado à defesa desde o início da guerra em fevereiro de 2022. O custo desta escalada recairá sobre outras áreas: saúde, educação, infraestruturas e subsídios agrícolas serão cortados, enquanto os impostos sobem para tentar conter um défice público que já duplicou face ao objetivo original.
Putin enquadrou o esforço como uma questão de soberania nacional, rejeitando qualquer comparação com países que, segundo ele, saem pelo mundo "a mendigar" — uma referência velada à Ucrânia. Prometeu um orçamento "realista e equilibrado" capaz de manter os programas sociais, uma promessa que entra em contradição direta com os cortes anunciados.
A mudança mais significativa, porém, foi política. Semanas antes, após contactos com enviados americanos, Putin havia mostrado abertura a negociações. O ataque ucraniano a Moscovo em 20 de setembro encerrou essa janela. A resposta russa foi uma campanha de bombardeamentos contínuos sobre Kiev. Com o exército russo a registar apenas avanços marginais no leste e a sofrer reveses em Donetsk, o orçamento de guerra recorde surge como a confirmação de que Moscovo não antecipa um fim próximo — e está a reorganizar o Estado inteiro em função dessa convicção.
Vladimir Putin entrou na Câmara de Deputados russa na quarta-feira, 30 de setembro, com um pedido direto: aprovar um orçamento de guerra recorde para os próximos três anos. Era uma aparição rara — a última vez que o presidente russo havia comparecido à Duma datava de 2020 — e o tom era de urgência. "Vós sois chamados a prestar especial atenção a questões de importância estatal, como o reforço da defesa do país, e a fazer tudo pela nossa vitória", declarou Putin da tribuna, dirigindo-se a uma câmara onde o partido do Kremlin controla 349 dos 450 lugares, embora observadores independentes questionem a legitimidade do parlamento devido a irregularidades nas eleições recentes.
O orçamento que Putin pediu à Duma para aprovar é extraordinário em escala. Nos próximos três anos, a Rússia planeia gastar 50 biliões de rublos — aproximadamente 529 mil milhões de euros — em defesa. Apenas no próximo ano, 2027, o gasto será de 17,1 biliões de rublos, mais de 176 mil milhões de euros, representando um aumento de 27% face ao que havia sido inicialmente previsto de 13,5 biliões de rublos. Este valor é mais de um terço superior ao orçamento de defesa planeado para 2026, de 12,1 biliões de rublos. Desde que a guerra começou em fevereiro de 2022, a Rússia nunca havia alocado uma quantia tão elevada num único exercício orçamental.
O custo desta escalada militar será suportado por cortes profundos noutras áreas. O investimento em saúde, educação, construção de estradas e infraestruturas será reduzido. Os subsídios ao setor agrícola também sofrerão diminuições. Além disso, o Governo russo propôs aumentar os impostos — uma medida que os analistas descrevem como impopular, apresentada logo após as eleições — para tentar reduzir o défice público para 3,2% em 2026, o dobro do que havia sido originalmente planeado. Nenhuma destas medidas resolve o facto de que especialistas independentes acreditam que os gastos reais de defesa ultrapassarão largamente as cifras orçamentadas, particularmente no segundo semestre do ano.
Putin procurou enquadrar esta mobilização orçamental como uma questão de soberania e dignidade nacional. "O importante é não cometer erros. Os erros, sobretudo agora, são absolutamente inaceitáveis", afirmou, acrescentando que a Rússia não seguiria o exemplo de outros países — uma referência velada à Ucrânia — saindo pelo mundo "a mendigar", o que considerou "humilhante". Insistiu que o orçamento deveria ser "realista e equilibrado" e manter a estabilidade macroeconómica para garantir que os programas sociais pudessem ser cumpridos, uma promessa que parece em tensão com os cortes anunciados.
O discurso de Putin marcou também uma mudança significativa na sua posição relativamente às negociações de paz. Semanas antes, após uma visita dos enviados da Casa Branca a Moscovo e Kiev, o presidente russo havia mostrado abertura a retomar conversações. Mas a 20 de setembro, durante o período eleitoral, a Ucrânia lançou o seu maior ataque a Moscovo até à data. A resposta russa foi imediata e contínua: uma campanha ininterrupta de bombardeamentos sobre Kiev. Esta escalada sugere que Putin abandonou qualquer perspetiva próxima de negociações. Com o Exército russo a obter apenas avanços marginais no Donbass, no leste ucraniano, e a sofrer reveses significativos em Donetsk nas últimas semanas, tudo indica que a guerra se prolongará bem para além do seu quinto aniversário, marcado para fevereiro de 2027. O orçamento de guerra recorde que Putin pediu à Duma é, portanto, não apenas uma resposta à situação atual, mas um sinal de que Moscovo se prepara para um conflito prolongado.
Notable Quotes
O importante é não cometer erros. Os erros, sobretudo agora, são absolutamente inaceitáveis.— Vladimir Putin, na Duma
A Rússia não vai fazer como outros e sair pelo mundo a mendigar, o que considerou humilhante.— Vladimir Putin