Num outono em que o continente parece encarar a própria inquietação de frente, jovens de Paris a Lisboa, de Barcelona a Atenas, ocupam praças e ruas para dizer que o futuro lhes foi prometido e não chegou. Sob as palavras de ordem sobre escolas precárias, aluguéis que sobem e o temor de que a inteligência artificial roube empregos, há uma pergunta mais antiga sobre o que uma geração herda de crises que nunca foram de fato resolvidas. A resposta dos governos, entre ouvir e endurecer, dirá muito sobre o tipo de pacto que a Europa ainda consegue firmar com os seus mais jovens.
Protestos na Europa: falta de perspectiva e custo de vida impulsionam a indignação dos jovens
Uma crise se sobrepõe à outra, e agora elas chegam às ruas
O que torna esta onda diferente das anteriores?
Ela é simultânea e jovem. De Milão a Marselha, os protagonistas são estudantes, e muitos detidos são menores: mais da metade em Barcelona.
E o que eles pedem?
Educação melhor, menos desigualdade, custo de vida mais baixo. Em Lisboa e Madri, o centro é o preço dos imóveis.
Mas isso é um movimento só? O texto mostra pautas bem diferentes, até opostas, como os atos pró e contra imigração em Kent.
Não é um só. Mark Leonard fala de crises que competem entre si e de "tribos". O que une é a insatisfação, não um programa.
A violência muda a leitura?
Complica. Os serviços de inteligência da França e da Bélgica falam em saques oportunistas e vandalismo de ultrarradicais de esquerda.
Isso é a versão das autoridades. Também há relatos de força excessiva da polícia, e o texto não os confirma nem os desmente.
E o futuro disso?
Ninguém sabe. Tocci diz que não está claro por quanto tempo o fôlego durará, e a decisão dos governos antes das eleições segue em aberto.
Il Polso
- Mais de 300 mil pessoas tomaram as ruas da França no sábado, e pelo menos 290 foram presas em um único dia.
- Em Barcelona, mais da metade dos detidos no fim de semana tinha menos de 18 anos, e as escolas viraram palco de protesto.
- Em Bruxelas e Frankfurt, pedras, rojões e saques se misturaram às marchas, enquanto canhões de água tentavam conter a multidão.
- Os atos se organizam de forma improvisada pelo TikTok e pelo Instagram, e o movimento francês Lycées Indignés virou referência de Barcelona a Atenas.
- Governos correm contra o relógio, divididos entre ceder às reivindicações e apostar em lei e ordem antes de eleições decisivas.
Num outono em que o continente parece encarar a própria inquietação de frente, jovens de Paris a Lisboa, de Barcelona a Atenas, ocupam praças e ruas para dizer que o futuro lhes foi prometido e não chegou. Sob as palavras de ordem sobre escolas precárias, aluguéis que sobem e o temor de que a inteligência artificial roube empregos, há uma pergunta mais antiga sobre o que uma geração herda de crises que nunca foram de fato resolvidas. A resposta dos governos, entre ouvir e endurecer, dirá muito sobre o tipo de pacto que a Europa ainda consegue firmar com os seus mais jovens.
No sábado, 31 de outubro, mais de 300 mil pessoas saíram às ruas da França, e o Ministério do Interior contou ao menos 290 presos. No mesmo dia, a Alemanha viu confrontos e saques em Frankfurt, Berlim, Colônia e Hamburgo. Katya Adler, editora de Europa da BBC, descreve um continente que viveu semanas de manifestações intensas e, muitas vezes, violentas.
O mapa é vasto. Há multidões em Roma e Florença, um acampamento de barracas em Madri desde setembro, dezenas de milhares de jovens marchando em Lisboa e, em Bruxelas, jovens de rosto coberto atirando pedras e rojões contra a polícia. Na Albânia, protesta-se contra a corrupção e pede-se a renúncia de Edi Rama, no poder há 13 anos. Estudantes se mobilizam também na Irlanda, na Grécia e na Sérvia.
O que torna este momento diferente, segundo Adler, é a simultaneidade e a idade de quem está na rua. Em Barcelona, mais da metade dos detidos tinha menos de 18 anos. A onda começou na França, com queixas sobre a falta de funcionários e a precariedade das escolas, e atravessou fronteiras. Em Atenas, o estudante Yiannis Papanikolaou, de 17 anos, resumiu: "a França vai impulsionar a Grécia".
A pauta, porém, não se limita à escola. Carolina Cruz, doutoranda de 26 anos em Lisboa, pode perder a casa quando o contrato de aluguel vencer, mesmo sendo a primeira da família a chegar ao doutorado. Em Milão, Riccardo, de 22 anos, quer apenas que o país volte a discutir esses problemas. A insatisfação também atravessa a direita: jovens apoiadores de Marine Le Pen temem a imigração descontrolada, a insegurança e o custo de vida.
Analistas veem crises acumuladas desde 2008, da financeira à migratória, da inflação à guerra no Golfo, e algoritmos que reforçam tribos cada uma convencida de que a sua crise é a mais urgente. Já os serviços de inteligência da França e da Bélgica atribuem parte dos saques a oportunismo e a grupos ultrarradicais de esquerda, enquanto a imprensa francesa se pergunta se há uma aliança de conveniência com jovens das periferias, que também denunciam violência policial.
A pergunta que fica é simples e difícil: com eleições importantes no horizonte, os governos vão ouvir essa geração ou vão apostar na lei e na ordem para agradar eleitores mais velhos?
Só no sábado, 31 de outubro, mais de 300 mil pessoas foram às ruas em toda a França, e o Ministério do Interior informou que pelo menos 290 manifestantes foram presos. No mesmo dia, protestos na Alemanha terminaram em confrontos e saques em Frankfurt, Berlim, Colônia e Hamburgo, e a polícia recorreu a canhões de água para dispersar a multidão. O retrato, traçado por Katya Adler, editora de Europa da BBC News, é o de um continente que viveu semanas de manifestações coloridas, intensas e, em muitos casos, violentas.
O mapa é extenso. Houve milhares de pessoas em Roma e Florença. Em Madri, um acampamento de barracas ocupa uma praça central desde o fim de setembro. Em Lisboa, dezenas de milhares de pessoas, em sua maioria jovens, marcharam no início do mês. Em Bruxelas, a polícia usou gás lacrimogêneo e canhões de água depois que jovens vestidos de preto e de rosto coberto atiraram pedras e rojões. Na Albânia, manifestantes que denunciam corrupção exigem a renúncia do primeiro-ministro Edi Rama, no poder há 13 anos. Estudantes também saíram às ruas na Irlanda, na Grécia e na Sérvia, numa faixa de mais de 1.600 km.
Adler cobriu protestos europeus por anos: a Catalunha em 2017, Atenas em 2015, a França de Macron e seus impostos sobre combustíveis. Desta vez, diz, parece diferente, porque as manifestações eclodem ao mesmo tempo e são feitas sobretudo por jovens, alguns muito jovens. Em Barcelona, mais da metade dos detidos no último fim de semana tinha menos de 18 anos. Em Milão, a agência LaPresse registrou menores entre os detidos.
As palavras de ordem tratam principalmente de educação, desigualdade e custo de vida, além de pautas nacionais. A onda francesa começou no fim de setembro, com queixas sobre falta de funcionários e precariedade das escolas, e virou referência. Em Barcelona, a hashtag #InstitutsIndignats ecoou o lema francês Lycées Indignés. Em Atenas, o estudante Yiannis Papanikolaou, de 17 anos, disse à AFP que os prédios escolares estão em péssimo estado e que "a França vai impulsionar a Grécia". Os atos são organizados de modo improvisado em TikTok e Instagram, e o ministro do Interior da Bélgica criticou o que chamou de "tiktokização" dos protestos. Sindicatos estudantis também participam, e o movimento indiano Partido do Povo Barata, surgido em maio, serve de inspiração.
As preocupações vão além da escola: meio ambiente, risco de a inteligência artificial reduzir empregos e um custo de vida que ameaça os estudos e o acesso à moradia. Em Lisboa, a doutoranda Carolina Cruz, de 26 anos, disse à Reuters que pode perder a casa porque o contrato de aluguel está perto do fim e que, mesmo sendo a primeira da família num doutorado, não consegue se sustentar. Em Milão, Riccardo, de 22 anos, disse à AFP que o objetivo é ao menos fazer as pessoas voltarem a discutir esses problemas. A insatisfação também não é só da esquerda: jovens apoiadores de Marine Le Pen, no lançamento de sua campanha presidencial, disseram à BBC temer a "imigração descontrolada", a insegurança e o custo de vida. Em Kent, na Inglaterra, houve atos a favor e contra a imigração.
Mark Leonard, do Conselho Europeu de Relações Exteriores, vê crises acumuladas e nunca bem resolvidas: a financeira de 2007-2008, a migratória de 2015, a ambiental, a covid-19, a inflação após a invasão russa da Ucrânia em 2022 e agora a guerra no Golfo. Segundo ele, redes e algoritmos reforçam "tribos" que sentem que a própria crise é a mais importante. Nathalie Tocci, da Johns Hopkins, lembra que os jovens são engajados, só que por mobilização popular, como no Fridays for Future. Cita os estudantes sérvios, que mantiveram a pressão por mais de dois anos e derrotaram Aleksandar Vučić nas eleições parlamentares, mas diz não estar claro por quanto tempo o fôlego atual durará.
Sobre a violência, os serviços de inteligência da França e da Bélgica afirmam que os saques em atos autorizados são em geral oportunistas, mistura de "violência gratuita" e vandalismo organizado por jovens de grupos ultrarradicais de esquerda. A imprensa francesa questiona se há uma aliança de conveniência entre esses militantes e jovens das banlieues, que também denunciam força policial excessiva. Com eleições importantes à vista, resta saber se os governos ouvirão as reivindicações ou apostarão em lei e ordem para agradar eleitores mais velhos.
Citazioni salienti
Sou a primeira pessoa da minha família a ingressar em um programa de doutorado e, mesmo com tudo o que estudei, ainda não consigo me sustentar.— Carolina Cruz, 26 anos, doutoranda em Lisboa, à Reuters
Uma crise se sobrepõe à outra.— Mark Leonard, Conselho Europeu de Relações Exteriores, à BBC