Centenas de liceus foram bloqueados na quinta-feira, com incêndios em escolas, 65 professores feridos e cerca de 2 mil pessoas detidas, principalmente menores. Os protestos começaram com reivindicações vagas sobre falta de recursos educacionais, mas o governo suspeita de manipulação pela França Insubmissa e seu candidato Jean-Luc Mélenchon.
Protestos estudantis na França deixam governo Macron em alerta antes de eleições
A era da generosidade pública para apaziguar agitação social parece ter terminado
Por que o governo francês está tão assustado com protestos estudantis? Não é normal jovens protestar?
É normal, mas na França existe uma memória histórica muito específica. Os protestos de 1968 quase derrubaram o governo. Desde então, qualquer movimento juvenil nas ruas é visto como potencialmente explosivo — especialmente porque são imprevisíveis, amorfos, e quando começam, outros grupos se juntam.
Mas esses protestos começaram com demandas educacionais legítimas, certo? Falta de dinheiro, falta de professores?
Sim, as demandas existem. Mas o governo está convencido de que a extrema esquerda — a França Insubmissa — está usando o movimento para ganhar visibilidade antes das eleições presidenciais.
E há evidência disso?
Há um relatório interno da polícia que vazou, mas é importante notar que é apenas uma análise de uma agência governamental. O relatório cita a presença de não-estudantes, bandeiras palestinas e argelinas, e táticas de protesto. Mas isso não prova coordenação deliberada.
Verdade. A LFI nega qualquer manipulação. Mélenchon pediu aos estudantes que evitassem violência. Mas seus oponentes acreditam que ele sabe exatamente o que está fazendo — ele tem 40% de apoio entre jovens de 18 a 24 anos.
Então o medo real é que isso inflame a polarização antes das eleições?
Exatamente. Se Mélenchon chegar ao segundo turno contra Marine Le Pen, a França estará em território muito instável. Esses protestos podem ser um presságio disso.
Mas precisamos ser claros: sabemos que houve violência, incêndios, ferimentos. Sabemos que 2 mil pessoas foram detidas. Sabemos que o governo suspeita de manipulação. O que ainda não sabemos é se essa suspeita é baseada em fatos ou em paranoia política.
E quanto aos ferimentos dos adolescentes? Dois com lesões oculares graves?
Sim. Grupos estudantis relatam uma longa lista de feridos pela polícia. Há uma clara disputa sobre quem foi responsável pela violência — o governo culpa manifestantes infiltrados, os estudantes culpam a polícia.
E essa é a questão central que permanece aberta: quem começou a violência? Porque isso muda completamente a narrativa.
El Pulso
- Centenas de liceus bloqueados na quinta-feira, 1º de outubro; cerca de 400 permaneceram fechados na sexta-feira
- 65 membros do corpo docente feridos, aproximadamente 300 policiais e bombeiros feridos, cerca de 2 mil pessoas detidas
- Dois adolescentes sofreram graves lesões oculares; um perdeu vários dentes
- Jean-Luc Mélenchon possui 40% de apoio entre jovens de 18 a 24 anos; eleições presidenciais em maio de 2027
Centenas de liceus foram bloqueados na quinta-feira, com incêndios em escolas, 65 professores feridos e cerca de 2 mil pessoas detidas, principalmente menores. Os protestos começaram com reivindicações vagas sobre falta de recursos educacionais, mas o governo suspeita de manipulação pela França Insubmissa e seu candidato Jean-Luc Mélenchon.
Movimentos estudantis que começaram há duas semanas em Seine-Saint-Denis se espalharam pela França, com centenas de escolas bloqueadas, incêndios e violência. O governo teme manipulação da extrema esquerda antes das eleições presidenciais de maio.
Há quase duas semanas, adolescentes franceses começaram a ocupar as ruas em Seine-Saint-Denis, um bairro de baixa renda no norte de Paris. O que começou como um movimento localizado se transformou rapidamente em uma onda nacional de bloqueios, incêndios e confrontos que deixou o governo de Emmanuel Macron em estado de alerta máximo a poucos meses das eleições presidenciais.
Na quinta-feira, 1º de outubro, o pico da crise: centenas de liceus — as escolas onde adolescentes de 15 a 18 anos completam seus estudos — foram bloqueados simultaneamente. Incêndios explodiram em portões de entrada de escolas por todo o país. Na cidade de Nantes, o salão principal de um liceu foi destruído pelas chamas. O prejuízo estimado já alcança milhões de euros. Na sexta-feira, a situação melhorou ligeiramente, mas aproximadamente 400 liceus permaneciam fechados. As universidades começavam a seguir o mesmo caminho.
O custo humano foi significativo. Segundo o Ministro da Educação, Édouard Geffray, 65 membros do corpo docente — incluindo 40 diretores de escolas — ficaram feridos. O governo relata que cerca de 300 policiais e bombeiros receberam atendimento médico. Aproximadamente 2 mil pessoas, principalmente menores de idade, foram detidas. Grupos estudantis apresentam sua própria contagem de feridos pela polícia: dois adolescentes sofreram graves lesões oculares, e um perdeu vários dentes. Geffray observou que a maioria dos funcionários feridos afirmou ter se deparado com pessoas que não eram seus próprios alunos — uma observação que alimentaria as suspeitas do governo sobre quem realmente estava organizando os protestos.
As reivindicações iniciais dos estudantes existem, ainda que permaneçam vagas: mais dinheiro para educação, mais professores, turmas menores, melhores instalações. Em circunstâncias normais, essas demandas encontrariam simpatia em setores amplos da sociedade francesa. O país tem tradição de usar protestos para pressionar o governo por recursos, e até mesmo os próprios governantes consideram essa prática legítima. A realidade é que o sistema educacional está de fato se deteriorando por falta de recursos. Mas o primeiro-ministro Sébastien Lecornu acaba de publicar sua proposta orçamentária para o próximo ano, com o lema "Mais cortes — e desta vez é sério". Ele promete retirar 54 bilhões de euros dos gastos públicos. A era da generosidade pública para apaziguar agitação social na França parece ter terminado.
Mas as reivindicações educacionais são apenas a superfície. Abaixo dela existe uma dimensão política e social que torna esta crise muito mais perigosa do que protestos estudantis do passado. A direita e o centro francês estão convencidos de que a extrema esquerda — especificamente o partido França Insubmissa (LFI) e seu candidato presidencial Jean-Luc Mélenchon — está manipulando o movimento. Líderes da LFI apareceram regularmente ao lado dos estudantes, particularmente em Saint-Denis, cujo prefeito, Bally Bagayoko, foi criticado por declarar que "a violência às vezes pode ser legítima". Um relatório interno da polícia de Paris, que vazou para a mídia, analisou o movimento em Seine-Saint-Denis e concluiu que os estudantes estavam sendo "incitados por elementos de extrema esquerda de grêmios estudantis e grupos políticos como a LFI". O documento sugeria que as tensões "poderiam fazer parte de uma estratégia para inflamar os ânimos com o objetivo de impor suas ideias antes das eleições nacionais". Os autores citaram como evidência a presença de manifestantes que não eram estudantes do ensino médio, a vagueza das reivindicações, o hasteamento de bandeiras palestinas e argelinas, e o uso de táticas — como convocar protestos em delegacias de polícia — que fazem parte do repertório da esquerda radical.
A LFI nega veementemente qualquer manipulação, afirmando apenas oferecer apoio natural a um movimento que considera legítimo. Mélenchon, aos 75 anos, pediu aos estudantes que evitassem a violência, "que só serve aos interesses de nossos inimigos". Mas seus oponentes acreditam que o veterano político sabe exatamente o que está fazendo. As pesquisas mostram que ele possui apoio massivo — cerca de 40% — entre jovens de 18 a 24 anos na França, concentrado particularmente nos subúrbios populosos e com alta imigração. O problema é que os jovens também são os que mais se abstêm nas eleições francesas. A estratégia, conforme as eleições se aproximam, será manter essa população constantemente lembrada de que a LFI está ao seu lado e que seu voto importa.
Mélenchon tem boas chances de chegar ao segundo turno das eleições presidenciais em maio, provavelmente contra a candidata de extrema-direita Marine Le Pen. As pesquisas mostram uma derrota esmagadora para Le Pen nesse cenário. Mas se isso acontecer, a França estará em território muito instável — e os protestos dos últimos dias terão sido, de fato, um presságio do que virá.
Citas Notables
A maioria dos funcionários feridos afirmou que as pessoas com quem se depararam não eram seus próprios alunos— Ministro da Educação Édouard Geffray
A violência às vezes pode ser legítima— Prefeito de Saint-Denis Bally Bagayoko