Proibição de bets reduz arrecadação do 'imposto do pecado' e pressiona reforma tributária

A proibição das bets abriu uma ferida nas contas públicas
O governo perdeu R$ 5,3 bilhões em receita planejada, forçando compensação através de alíquotas mais altas em outros setores.
Mark

Por que a proibição das bets cria um problema tão grande para a reforma tributária? Não era só uma fonte de receita entre muitas?

Mimi

Porque o governo havia planejado arrecadar R$ 5,3 bilhões especificamente desse setor. Quando você tira R$ 5,3 bilhões de uma reforma que foi desenhada para manter a carga tributária constante, você precisa compensar isso em outro lugar. E o único lugar é aumentar as alíquotas da CBS para todos os outros setores.

Luke

Mas espera — quanto exatamente seria esse aumento? O texto diz que cada 1% sobre as bets geraria R$ 300 milhões, então R$ 5,3 bilhões seria algo como 17% de alíquota. Mas não sabemos qual era a alíquota planejada para as bets. Pode ter sido muito menor.

Mimi

Verdade. O governo mantém sigilo sobre as alíquotas específicas. Mas o ponto é que qualquer receita perdida precisa ser compensada em algum lugar, e isso pressiona a CBS para cima.

Mark

E por que o timing das eleições importa tanto? O governo não pode simplesmente enviar a medida provisória?

Mimi

Pode, tecnicamente. Tem até sexta-feira. Mas enviar agora, a poucos dias do primeiro turno, oferece munição para adversários. Mesmo que a carga tributária global se mantenha, as alíquotas nominais do novo imposto precisarão ser maiores que as do IPI antigo. Isso é facilmente traduzível como "Lula aumenta impostos".

Luke

Mas isso é um fato, não é? As alíquotas nominais serão maiores porque não haverá mais imposto sobre imposto. Isso não é uma distorção, é matemática.

Mimi

Exato. Mas a política não funciona com matemática. Funciona com percepção. E a percepção de aumento de impostos, mesmo que tecnicamente incorreta, é prejudicial em período eleitoral.

Mark

Se o governo esperar até depois das eleições, qual é o custo?

Mimi

Perder aproximadamente um mês de arrecadação. Segundo cálculos preliminares, entre R$ 3 bilhões e R$ 4 bilhões.

Luke

Mas isso é uma estimativa de um mês. Não sabemos se é realista. Depende de quando exatamente a medida entraria em vigor e de quantos dias úteis teríamos em janeiro.

Mimi

Verdade. É um cálculo preliminar. Mas o ponto é que há um custo real em esperar.

Mark

Há alguma solução que não seja aumentar a CBS ou adiar tudo?

Mimi

Um tributarista sugeriu manter as alíquotas do Imposto Seletivo em 2027 no mesmo patamar do IPI antigo, adiando para anos seguintes as efetivas alíquotas do novo imposto. Seria uma transição mais suave.

Luke

Mas isso também seria uma mudança constitucional? Ou seria possível fazer por medida provisória?

Mimi

O texto não deixa claro. Parece que seria uma discussão com o Legislativo, mas não especifica o mecanismo.

Mark

Então basicamente o governo está preso entre três opções ruins: enviar a medida agora e sofrer politicamente, esperar e perder bilhões em arrecadação, ou adiar toda a reforma e lidar com a complexidade de uma emenda constitucional.

Mimi

Exatamente. E nenhuma é boa.

  • Governo esperava arrecadar R$ 5,3 bilhões com bets em 2027
  • Casas de apostas movimentaram R$ 37 bilhões em receita bruta em 2025
  • Governo tem até sexta-feira (2 de outubro) para enviar medida provisória do Imposto Seletivo
  • Adiamento poderia gerar perda de R$ 3 a R$ 4 bilhões em arrecadação anual

Governo esperava arrecadar R$ 5,3 bilhões com bets, receita que agora precisará ser compensada através de alíquotas mais altas na CBS para todos os setores. Reforma tributária prevê manutenção da carga tributária global, mas perda de receita das bets força redistribuição de arrecadação entre tributos, aumentando pressão política.

A proibição das apostas online pelo governo Lula reduzirá a arrecadação do Imposto Seletivo, forçando aumento de alíquotas em outros setores e criando pressão para adiar a implementação da reforma tributária em 2027.

O governo Lula fechou as portas para as casas de apostas online na semana passada, movido pela convicção de que o vício em jogos causa dano severo à saúde mental e financeira dos brasileiros. Mas essa decisão, ainda que moralmente justificada, abriu uma ferida nas contas públicas que agora ameaça desestabilizar a reforma tributária que deveria entrar em vigor em 2027.

O rombo é concreto. As casas de apostas movimentaram R$ 37 bilhões em receita bruta em 2025 — a diferença entre o total apostado e os prêmios pagos aos jogadores. O governo havia planejado arrecadar R$ 5,3 bilhões desse setor através do Imposto Seletivo e de uma taxa de fiscalização. Agora, essa receita desapareceu. Cada ponto percentual de imposto sobre as bets representava aproximadamente R$ 300 milhões em arrecadação; uma cobrança hipotética de 10% geraria R$ 3 bilhões. Tudo isso evaporou.

O problema não é apenas a perda direta. As casas de apostas também pagariam a CBS, a Contribuição sobre Bens e Serviços, um dos novos tributos da reforma. Essa receita também desapareceu. Agora o governo enfrenta um dilema: a reforma tributária foi desenhada para manter a carga tributária global constante — ou seja, os brasileiros e as empresas pagariam o mesmo total de impostos, apenas distribuído de forma diferente. Mas sem a receita das bets, essa equação não fecha. A solução óbvia é aumentar as alíquotas da CBS para compensar a perda, o que significa que todos os outros setores da economia terão de pagar mais.

O timing é particularmente delicado. O governo estimou uma arrecadação total de R$ 677,9 bilhões com os novos tributos em 2027 — R$ 636 bilhões da CBS e R$ 41,9 bilhões do Imposto Seletivo, ainda contando com as bets. Mas manteve sigilo sobre as alíquotas específicas. Agora, com a proibição das apostas, essas alíquotas precisarão ser maiores. O Palácio do Planalto tem até sexta-feira, 2 de outubro, para enviar uma medida provisória com as regras e alíquotas do Imposto Seletivo. Esse prazo existe para respeitar a noventena — os 90 dias necessários antes de um novo tributo entrar plenamente em vigor em 1º de janeiro de 2027.

Mas há um obstáculo político que pode ser intransponível. Lula está a poucos dias do primeiro turno das eleições presidenciais. Editar a medida provisória agora, mesmo que tecnicamente necessário, ofereceria munição para seus adversários na campanha. Embora a carga tributária global se mantenha, as alíquotas nominais do novo Imposto Seletivo precisarão ser maiores que as do atual IPI porque não haverá mais cobrança de imposto sobre imposto. Isso exigirá um fator de correção que, na prática, significa alíquotas nominais mais altas — e isso é facilmente traduzível em campanha como "Lula aumenta impostos".

Se o governo esperar até depois das eleições para enviar a medida provisória, perderá aproximadamente um mês de arrecadação. Segundo cálculos preliminares da equipe econômica, isso representaria uma perda de R$ 3 bilhões a R$ 4 bilhões. Segundo pessoas a par do tema, o Ministério da Fazenda já fechou a minuta da medida provisória e a submeteu ao Planalto, que tem a palavra final tanto sobre o mérito quanto sobre o momento político de apresentação.

Há também pressão crescente para adiar toda a implementação da reforma tributária. Pessoas envolvidas no tema dizem que uma CBS com alíquota ainda mais pesada reforçou a percepção de que seria melhor atrasar a entrada em vigor da reforma para permitir ajustes. Mas isso exigiria aprovação de uma emenda constitucional pelo Congresso até o fim do ano — algo que ainda não foi decidido. O tributarista Luiz Gustavo Bichara reconhece que adiar a medida provisória do Imposto Seletivo seria desafiador, já que a Constituição prevê o fim do IPI em 2027 e o Seletivo deveria cobrir essa receita. Mas ele sugere uma solução menos disruptiva: manter as alíquotas do Seletivo em 2027 no mesmo patamar do atual IPI para esses produtos, adiando para anos seguintes as efetivas alíquotas do novo imposto.

Membros da equipe econômica reconhecem que há receio natural de alguns setores diante dessa mudança significativa, mas trabalham em velocidade total para cumprir o cronograma previsto na Constituição. O Ministério da Fazenda, quando procurado, disse apenas que o impacto específico da decisão será divulgado no momento apropriado. O que está claro é que a proibição das bets, por mais justificada que seja, criou um problema adicional para uma reforma tributária que já enfrentava pressões políticas e operacionais consideráveis.

Será desafiador adiar a medida provisória do Imposto Seletivo porque impactaria a arrecadação da União, especialmente considerando que a Constituição prevê o fim do IPI em 2027, e o Seletivo cobriria essa receita
— Luiz Gustavo Bichara, tributarista
A Fazenda trabalha em velocidade total para cumprir o cronograma previsto na Constituição e virar a chave do sistema de impostos sobre o consumo
— Membro anônimo da equipe econômica
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