Profissionais de saúde enfrentam risco elevado de burnout e problemas mentais

Profissionais de saúde enfrentam deterioração da saúde mental, com 25,4% relatando sofrer ameaças ou abuso físico e psicológico, afetando potencialmente a qualidade de cuidados prestados.
Precisamos de ação urgente. As coisas não voltam ao normal por si
Tânia Gaspar, coordenadora do LABPATS, sobre a situação de saúde mental dos profissionais de saúde pós-pandemia.
Mark

O que torna os profissionais de saúde diferentes? Porque é que o burnout é maior nesta área do que noutras?

Mimi

O estudo mostra que é uma combinação de fatores. A exigência emocional é constante — lidam com sofrimento humano todos os dias. Depois há a falta de controlo sobre as condições de trabalho, recursos limitados, e agora uma competição crescente do setor privado que oferece melhores condições. Os jovens especialmente sentem-se presos entre uma profissão que exige tudo e um sistema que não oferece segurança.

Luke

Mas o estudo compara diretamente com outras áreas? Porque é que podemos dizer que é "maior" e não apenas "diferente"?

Mimi

Boa pergunta. Tânia Gaspar refere explicitamente que "em comparação com os outros profissionais, estão em maior risco". O estudo analisou mais de dois mil profissionais de saúde, mas não vemos os números comparativos com outras áreas no que foi divulgado.

Mark

E os jovens? Porque é que a geração Z tem piores indicadores?

Mimi

Chegam já fragilizados pela formação, entram num mercado incerto, e como defesa psicológica decidem não investir energia. Se o futuro parece só negativo, porque é que hei de comprometer-me?

Luke

Mas isso é específico da saúde ou é um padrão geral dos jovens em 2024?

Mimi

Gaspar nota que os jovens fora da saúde conseguem lidar melhor porque conseguem equilibrar vida profissional e pessoal. Na saúde, a profissão não permite isso. Portanto é mais grave aqui.

Mark

E aquele número de 25,4% — um em cada quatro a sofrer abuso. Como é que isso se distribui? Todos os grupos?

Mimi

O estudo não detalha isso. Sabemos que é 25,4% do total, mas não sabemos se é mais comum em certos grupos profissionais ou gerações.

Luke

Exatamente. É um número chocante, mas sem contexto — sem saber se é enfermeiros, médicos, assistentes operacionais — fica difícil entender a dimensão real do problema.

Mark

Então qual é o passo seguinte? O que Gaspar propõe?

Mimi

Ação urgente. Formação em liderança humanizada para as chefias, repensar todo o sistema. Mas o estudo é diagnóstico, não é prescrição.

Luke

E isso é importante notar — o estudo identifica o problema, mas as soluções ainda estão por desenhar.

  • O burnout entre profissionais de saúde não recuou com o fim da pandemia — estabilizou num patamar de crise que se tornou a nova normalidade.
  • Um em cada quatro profissionais relata sofrer ameaças ou abuso físico e psicológico, expondo uma violência quotidiana raramente reconhecida publicamente.
  • As gerações mais jovens chegam ao setor já fragilizadas e desligam-se emocionalmente como mecanismo de defesa perante um futuro que lhes parece fechado e incerto.
  • O setor privado atrai cada vez mais profissionais, esvaziando o sistema público de talento e agravando a pressão sobre quem fica.
  • Especialistas exigem ação urgente: formação em liderança humanizada, melhores condições de trabalho e um reconhecimento institucional de que estes riscos são estruturais, não individuais.

Num país que ainda carrega as marcas invisíveis da pandemia, mais de dois mil profissionais de saúde revelam, através de um estudo do LABPATS, que o esgotamento emocional e os problemas de saúde mental persistem a níveis superiores aos de antes da crise sanitária. A investigação, coordenada por Tânia Gaspar e a ser apresentada na Ordem dos Médicos, lembra-nos que quem cuida também precisa de ser cuidado — e que o silêncio institucional sobre este sofrimento tem um custo que se mede, inevitavelmente, na qualidade dos cuidados prestados a todos nós.

Um estudo do Laboratório Português de Ambientes de Trabalho Saudáveis (LABPATS), envolvendo mais de dois mil profissionais — de enfermeiros a gestores, passando por médicos, técnicos e psicólogos —, confirma o que muitos dentro do setor já sentiam: o risco de burnout e de problemas de saúde mental é significativamente mais elevado na saúde do que noutras áreas profissionais. E, ao contrário do que se esperava, a situação não melhorou com o fim da pandemia.

Tânia Gaspar, coordenadora do estudo, é direta: a crise piorou durante a covid-19, estabilizou depois, mas nunca regressou aos níveis anteriores. O compromisso com as instituições diminuiu, o distanciamento emocional aumentou, e o setor privado tornou-se uma alternativa cada vez mais apelativa para quem procura estabilidade e oportunidades de investigação que o sistema público já não consegue oferecer.

O estudo revela também padrões geracionais preocupantes. Os profissionais das gerações Z e Y apresentam menor envolvimento no trabalho e os piores indicadores de saúde mental. Gaspar descreve um mecanismo de defesa psicológica: perante um futuro que se apresenta como incerteza e ausência de bem-estar, os jovens optam por não investir emocionalmente. Os profissionais mais velhos, das gerações X e baby boom, lidam aparentemente melhor com as pressões, com uma perceção mais positiva do seu papel e do envolvimento comunitário.

Entre os dados mais alarmantes está o facto de 25,4% dos inquiridos relatarem sofrer ameaças ou abuso físico e psicológico. A investigadora sublinha que um profissional de saúde em sofrimento afeta diretamente a qualidade dos cuidados que presta. A solução, defende, passa por reformas estruturais — formação em liderança humanizada, melhoria das condições de trabalho e um reconhecimento claro de que estes riscos não são falhas individuais, mas falhas do sistema.

Um estudo que envolveu mais de dois mil profissionais de saúde — enfermeiros, médicos, assistentes operacionais, técnicos, farmacêuticos, psicólogos, administrativos e gestores — revelou que o risco de problemas de saúde mental e sintomas de burnout é significativamente maior nesta população do que em outras áreas laborais. Os dados, que serão apresentados na Ordem dos Médicos, provêm do Laboratório Português de Ambientes de Trabalho Saudáveis (LABPATS) e pintam um quadro que continua preocupante mesmo anos após o fim da pandemia.

Tânia Gaspar, coordenadora do estudo e diretora do LABPATS, é clara no diagnóstico: a situação piorou durante a covid-19, estabilizou depois, mas nunca regressou aos níveis anteriores à pandemia. "Precisamos de ação urgente", alertou, sublinhando que muitos acreditavam que as coisas voltariam naturalmente ao normal uma vez terminada a crise sanitária. Isso não aconteceu. Os profissionais começam a desligar-se emocionalmente do trabalho, o compromisso com a instituição diminuiu, e o setor privado torna-se cada vez mais atrativo, oferecendo oportunidades de investigação que o sistema público não consegue garantir. Gaspar, doutorada em gestão de organizações de saúde, nota que as parcerias público-privadas tinham vantagens estruturais — clientes garantidos, modelos de qualidade mais robustos — que o sistema atual não oferece.

O estudo identificou padrões geracionais marcados. Os profissionais mais jovens, das gerações Z e Y (até aos 40 ou 45 anos), mostram menor envolvimento no trabalho e perceção mais fraca do seu desempenho. A geração Z, em particular, apresenta os piores indicadores de saúde mental. Gaspar explica que estes jovens chegam ao mercado de trabalho já fragilizados pela sua formação, enfrentando um ambiente que exige muito e oferece pouca segurança. Os profissionais mais velhos, das gerações X e baby boom (acima dos 44 anos), têm uma perceção mais positiva do envolvimento comunitário e parecem lidar melhor com as pressões da profissão.

A investigadora identifica um mecanismo de defesa psicológica nos jovens: quando o futuro parece incerto e negativo, eles escolhem não investir energia nem esperança. "Abre-se a porta do futuro a estes jovens e realmente é tudo uma incerteza, uma falta de felicidade, de bem-estar... é só coisas negativas", descreve. Os jovens fora da área da saúde conseguem lidar melhor com esta questão porque valorizam a conciliação entre vida profissional e pessoal — algo que a saúde, pela sua natureza exigente, não permite facilmente.

Um dado particularmente alarmante emerge do estudo: mais de um em cada quatro profissionais de saúde (25,4%) relata sofrer ameaças ou alguma forma de abuso físico e psicológico. Gaspar sublinha que um profissional de saúde que não está bem afeta diretamente a sua ação junto dos doentes, e as consequências podem ser graves. A especialista insiste que é necessário repensar todo o sistema, implementar formação em liderança humanizada para as chefias, e reconhecer que os profissionais de saúde enfrentam riscos significativamente maiores do que os seus pares noutras profissões. Sem ação urgente, o setor continuará a perder profissionais e a qualidade dos cuidados continuará a sofrer.

Um profissional de saúde que não está bem vai afetar a sua ação junto do doente e as situações podem ser mesmo muito graves
— Tânia Gaspar, coordenadora do LABPATS
Os jovens valorizam mais a conciliação da vida profissional com o bem-estar e com a sua vida pessoal. Aqui, na área da saúde, provavelmente pela exigência que tem a profissão, eles não conseguem fazer isso
— Tânia Gaspar
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