Em cada ciclo eleitoral, a democracia enfrenta o desafio silencioso da escolha: como o cidadão comum navega por um oceano de candidatos sem bússola? A Folha de S.Paulo tentou responder a essa pergunta consultando 81 personalidades de campos distintos — economistas, artistas, líderes religiosos, especialistas em segurança — para que indicassem, a partir de seus saberes específicos, 35 candidatos a deputado federal por São Paulo. O resultado é menos uma lista de recomendações do que um mapa de como diferentes setores da sociedade enxergam a representação que desejam ver em Brasília.
Profissionais de 81 áreas indicam 35 candidatos a deputado federal em São Paulo
Democracia não se protege diminuindo liberdade
Por que a Folha decidiu fazer essa consulta agora, tão perto da eleição? Parece um guia de última hora.
Não é um guia de última hora. É um mapeamento. Muita gente ainda não tinha decidido em quem votar, e a ideia era oferecer uma leitura de quem são esses candidatos, o que cada um defende, qual é a trajetória de cada um. Não é para dizer em quem votar, é para informar.
Mas aí tem uma questão: esses 81 consultados, eles representam quem? São professores da USP, economistas, líderes religiosos — é um grupo bastante específico. Não é como se a Folha tivesse consultado 81 pessoas aleatórias na rua.
Verdade. Mas a ideia era justamente consultar gente que trabalha em áreas específicas. Professores de educação, especialistas em segurança, economistas. Gente que pensa sobre essas questões profissionalmente.
E esses 35 candidatos, eles cobrem todo o espectro político? Ou tem algum viés?
Tem desde Novo até PSOL. Tem PT, MDB, PSD, Podemos, PSB. É bastante diverso mesmo. Tem candidato liberal, tem candidato de esquerda, tem gente do centro.
Mas quantas vezes cada candidato foi indicado? Porque se um candidato foi indicado por 50 dos 81 consultados e outro foi indicado por um, isso muda tudo. O texto não deixa claro isso.
Boa observação. O texto não especifica quantas vezes cada um foi indicado. Só lista os 35 que foram mencionados.
E tem candidatos que são conhecidos — José Dirceu, Baleia Rossi — e tem candidatos que ninguém conhece. Como o eleitor usa isso?
Acho que o eleitor usa como referência. Vê quem são os candidatos, o que cada um defende, e aí decide se aquilo alinha com o que ele pensa.
Mas tem um problema: alguns desses candidatos têm histórias bem conhecidas — José Dirceu e o mensalão, por exemplo — e o texto não entra em detalhes sobre isso. Só diz que ele deixou o governo em 2005 após o escândalo. Não explica o que foi o escândalo.
É verdade. Mas acho que a ideia é que o leitor já conhece essas histórias, ou pode procurar.
E esses candidatos de primeira viagem? Como é que especialistas indicam alguém que nunca foi eleito?
Porque acham que a pessoa tem qualificação. Dr. Cesar Fernandes é médico renomado, ex-presidente da Associação Médica Brasileira. Não precisa ter sido eleito antes para ter credibilidade.
Mas aí tem risco. A pessoa pode ter toda a credibilidade profissional e ser um desastre como deputado. Não é a mesma coisa.
Verdade. Mas é um risco que o eleitor toma quando vota em alguém novo.
O Pulso
- Com eleições se aproximando e um eleitorado frequentemente desorientado diante de centenas de nomes, a Folha mobilizou 81 especialistas para transformar expertise setorial em orientação cívica concreta.
- Os 35 nomes indicados atravessam todo o espectro político — do Novo ao PSOL — e revelam tensões reais entre agendas de segurança armada nas escolas e defesa de direitos LGBTQIA+, entre liberdade econômica e moradia popular.
- Figuras de retorno controverso, como José Dirceu aos 80 anos, disputam espaço na lista com estreantes absolutos, como o ginecologista Dr. Cesar Fernandes e o ex-integrante do MST Pedro Pôncio, hoje crítico do movimento.
- Temas como educação tecnológica, segurança pública, direitos de pessoas com deficiência, agronegócio e meio ambiente emergem como os eixos prioritários que os consultores enxergam como urgentes para São Paulo.
- A iniciativa posiciona o eleitor indeciso não diante de pesquisas de popularidade, mas de avaliações qualitativas feitas por quem atua nos próprios campos que cada candidato promete representar.
Em cada ciclo eleitoral, a democracia enfrenta o desafio silencioso da escolha: como o cidadão comum navega por um oceano de candidatos sem bússola? A Folha de S.Paulo tentou responder a essa pergunta consultando 81 personalidades de campos distintos — economistas, artistas, líderes religiosos, especialistas em segurança — para que indicassem, a partir de seus saberes específicos, 35 candidatos a deputado federal por São Paulo. O resultado é menos uma lista de recomendações do que um mapa de como diferentes setores da sociedade enxergam a representação que desejam ver em Brasília.
A Folha de S.Paulo ouviu 81 personalidades — professores, economistas, líderes religiosos, artistas e especialistas em segurança pública — para mapear candidatos a deputado federal por São Paulo. O resultado é uma lista de 35 nomes que percorre o espectro político de ponta a ponta, cada um carregando uma agenda moldada pelas preocupações de quem o indicou.
Entre os mais conhecidos estão Adriana Ventura, do Novo, empresária e professora da FGV com foco em transparência econômica; Baleia Rossi, presidente nacional do MDB e deputado desde 2015, que defende restrições à publicidade de apostas esportivas; e Carlos Sampaio, do PSD, promotor licenciado com longa atuação em segurança e combate à corrupção.
Na esquerda, José Dirceu retorna pelo PT aos 80 anos, décadas após o escândalo do mensalão. Erika Hilton, do PSOL, foi a primeira mulher trans eleita para a Câmara Municipal de São Paulo e hoje luta pelo fim da escala 6x1. Sônia Guajajara, também do PSOL, indígena e ex-ministra dos Povos Indígenas, e Sâmia Bomfim completam uma bancada progressista com pautas de gênero, educação e serviços públicos.
A lista acolhe também estreantes. O ginecologista Dr. Cesar Fernandes, de 75 anos e ex-presidente da Associação Médica Brasileira, disputa pela primeira vez. Pedro Pôncio, do Novo, afirma ter vivido no MST na infância e hoje se apresenta como seu crítico, defendendo propriedade privada e combate à doutrinação escolar.
Os temas que atravessam as candidaturas revelam prioridades claras: educação aparece nas agendas de Tabata Amaral, formada em Harvard, e da Professora Luciene Cavalcante; segurança pública divide o campo entre o Delegado Palumbo, favorável ao armamento nas escolas, e abordagens mais institucionais. Direitos de pessoas com deficiência, moradia popular, agronegócio e meio ambiente completam o painel — este último representado pelo físico Ricardo Galvão, ex-presidente do Inpe.
Ao recorrer a vozes como o economista Bresser-Pereira, o cineasta Fernando Meirelles e o escritor Ferrez, a Folha oferece ao eleitor indeciso não uma pesquisa de popularidade, mas um retrato de como setores específicos da sociedade imaginam a representação que São Paulo merece em Brasília.
A Folha de S.Paulo consultou 81 personalidades de campos distintos — professores universitários, economistas, líderes religiosos, artistas, especialistas em segurança pública — para mapear o terreno dos candidatos a deputado federal por São Paulo. O resultado é uma lista de 35 nomes que atravessa o espectro político, do Novo ao PSOL, passando por MDB, PT, PSD e outras legendas, cada um deles carregando uma agenda específica e um conjunto de prioridades que refletem as preocupações de quem os indicou.
Entre os indicados estão figuras já conhecidas do eleitorado e outras que chegam pela primeira vez a uma disputa eleitoral. Adriana Ventura, do Novo, é empresária e professora de administração na FGV, reeleita em 2022, com trabalho concentrado em transparência e liberdade econômica. Baleia Rossi, do MDB, é presidente nacional da legenda desde 2019 e deputado federal desde 2015, com foco em restringir a publicidade de apostas esportivas. Carlos Sampaio, do PSD, é promotor de Justiça licenciado e deputado desde 2003, atuando em segurança pública e combate à corrupção. Cada um deles representa uma linhagem política e um conjunto de compromissos.
No campo da esquerda, José Dirceu, aos 80 anos, retorna como candidato pelo PT após ter sido ministro-chefe da Casa Civil no primeiro governo Lula e ter deixado o cargo em 2005 envolvido no escândalo do mensalão. Juliana Cardoso, também do PT, é a única mulher da bancada paulista petista na Câmara atual, com atuação voltada aos direitos das mulheres e à proteção dos povos indígenas. Erika Hilton, do PSOL, foi a primeira mulher trans a ocupar cadeira na Câmara Municipal de São Paulo em 2020 e integra o primeiro grupo de mulheres trans no Congresso, com trabalho em direitos LGBTQIA+ e na luta pelo fim da escala 6x1. Sônia Guajajara, também do PSOL, é indígena, foi a primeira a compor uma chapa presidencial como vice em 2018 e chefiou o Ministério dos Povos Indígenas no governo Lula.
A lista inclui também candidatos de primeira viagem. Dr. Cesar Fernandes, do PSD, é ginecologista de 75 anos, professor titular da Faculdade de Medicina do ABC e ex-presidente da Associação Médica Brasileira, disputando eleição pela primeira vez. Pedro Pôncio, do Novo, é empresário e escritor que afirma ter integrado o MST dos 11 aos 20 anos e agora se apresenta como crítico do movimento, defendendo propriedade privada e combate à doutrinação nas escolas. Julyver Modesto, do PP, é oficial da reserva da Polícia Militar, professor e mestre em direito, concorrendo pela primeira vez com foco em segurança viária e legislação penal.
Os temas que atravessam as candidaturas revelam as prioridades que os consultados enxergam como urgentes. Educação aparece em múltiplas agendas: Érica Gorga, do PRD, defende reforma legislativa para adequar o ensino às mudanças tecnológicas; Tabata Amaral, do PSB, formada em ciência política com estudos em astrofísica por Harvard, constrói sua trajetória em torno da educação; Professora Luciene Cavalcante, do PSOL, concentra atuação na defesa da educação pública e valorização do magistério. Segurança pública é outra linha forte: Delegado Palumbo, do Podemos, defende endurecimento de penas e segurança armada nas escolas; Rubinho Nunes, do União Brasil, atua em fiscalização de gastos e segurança pública, tendo presidido a CPI dos Pancadões.
Direitos e políticas sociais formam outro eixo. Andrea Werner, do PSB, é ativista pelos direitos de pessoas com deficiência, diagnosticada com autismo, criadora do Lagarta Vira Pupa e presidenta da Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência da Alesp. Natália Boulos, do PSOL, milita no Movimento dos Trabalhadores Sem Teto há mais de 20 anos e tem a moradia popular como bandeira central. Sâmia Bomfim, do PSOL, formada em letras pela USP, concentra atuação em direitos das mulheres, educação e defesa dos serviços públicos. Nabil Bonduki, do PT, é arquiteto e urbanista que trabalhou como relator do Plano Diretor de São Paulo em 2014.
O agronegócio e questões ambientais também ganham espaço. Guilherme Piai, do Republicanos, é administrador e produtor rural, ex-secretário de Agricultura e Abastecimento do Estado, nascido em Presidente Prudente e próximo ao governador Tarcísio de Freitas. Professor Christian Lohbauer, do Novo, é doutor em ciência política pela USP, ex-gerente de relações internacionais da Fiesp e cofundador do Novo, com bandeiras no agronegócio e redução de impostos. Ricardo Galvão, do PSB, é físico e professor aposentado da USP que presidiu o CNPq e dirigiu o Inpe, com trajetória ligada à ciência e ao meio ambiente, tendo assumido como deputado federal suplente em 2025.
A consulta da Folha a esses 81 especialistas — que incluem desde Luiz Carlos Bresser-Pereira, economista e ex-ministro da Fazenda, até Ferrez, escritor e produtor cultural, passando por Fernando Meirelles, cineasta, e Estevam Hernandes, fundador da Igreja Apostólica Renascer em Cristo — reflete uma tentativa de oferecer ao eleitor ainda indeciso um mapa das opções disponíveis, mapeadas não por critérios de popularidade ou financiamento de campanha, mas pela avaliação de quem trabalha em campos específicos da sociedade. O resultado é um retrato de como diferentes setores — educação, segurança, economia, direitos humanos, meio ambiente — veem a representação que desejam para São Paulo em Brasília.
Citações Notáveis
Democracia não se protege diminuindo liberdade. Ela tem de aceitar críticas— Adriana Ventura, Novo
A luta pela moradia é uma questão de sobrevivência própria e dos nossos filhos— Natália Boulos, PSOL