Em Berkeley, um dos centros mais respeitados do ensino de matemática, um professor laureado com a Medalha Fields decidiu deixar de corrigir a exatidão dos deveres de casa e passou a valorizar apenas a entrega. A decisão nasce de uma constatação incômoda: quando a inteligência artificial resolve os problemas com facilidade, a correção deixa de revelar o que o estudante realmente compreende. Trata-se de mais um capítulo na antiga história de instrumentos que redesenham ofícios, e de uma pergunta que a academia ainda não sabe responder com segurança.
Professor vencedor do Fields para de corrigir deveres de casa em meio ao uso excessivo de IA pelos alunos
Nota pela entrega: o critério de quem não achou alternativa melhor
Um medalhista Fields que não corrige mais deveres. Por que isso importa?
Porque mostra que o problema chegou ao topo. Borcherds viu alunos tirando nota máxima com IA e concluiu que conferir cada solução já não serve ao propósito original.
Então ele só confere se o aluno entregou?
Isso. Nota pela entrega. Ele mesmo diz que está longe do ideal e que não achou alternativa melhor.
Vale separar o que é fato do que é impressão dele. O que sabemos é a mudança de critério e a justificativa dada por ele. Não há números sobre quantos alunos usam IA.
E a questão da carreira de matemático?
Ele disse que cinco anos atrás via a matemática como pouco vulnerável, e hoje não sabe aconselhar. Até o ChatGPT, segundo ele, disse não saber.
Cuidado com o Navier-Stokes. A fonte diz que agentes da OpenAI parecem ter avançado, e isso é um anúncio da empresa. Não é uma solução confirmada do problema.
E a universidade, o que faz?
Cada docente define sua política. Berkeley testou Turnitin e Rumi, mas não os considera confiáveis o bastante para o campus inteiro.
E ninguém sabe ainda como medir compreensão real quando a IA entrega a resposta certa. Essa pergunta segue aberta, e Borcherds também não a resolveu.
Der Puls
- Alunos recorrem à IA e alcançam notas máximas, tornando a correção tradicional um exercício vazio de sentido.
- Richard Borcherds abandonou a avaliação de acertos e passou a dar nota apenas pela entrega, admitindo que a solução é imperfeita.
- Berkeley deixa a política de IA a cargo de cada docente, enquanto detectores como Turnitin e Rumi não inspiram confiança suficiente para uso no campus.
- Após avanços de agentes de IA em problemas abertos como Navier-Stokes, o professor já não sabe se deve recomendar a carreira em matemática.
- A academia tende à inércia, e o caso segue sem resposta definitiva sobre como medir a competência real dos estudantes.
Em Berkeley, um dos centros mais respeitados do ensino de matemática, um professor laureado com a Medalha Fields decidiu deixar de corrigir a exatidão dos deveres de casa e passou a valorizar apenas a entrega. A decisão nasce de uma constatação incômoda: quando a inteligência artificial resolve os problemas com facilidade, a correção deixa de revelar o que o estudante realmente compreende. Trata-se de mais um capítulo na antiga história de instrumentos que redesenham ofícios, e de uma pergunta que a academia ainda não sabe responder com segurança.
Na Universidade da Califórnia, em Berkeley, o matemático Richard Borcherds, vencedor da Medalha Fields, tomou uma decisão incomum: deixou de verificar se as respostas dos deveres de casa estavam certas. Passou a dar nota apenas pela entrega do trabalho.
A mudança veio depois que ele percebeu um número crescente de alunos usando inteligência artificial para obter notas altas. Se a IA resolve os problemas com consistência, conferir cada solução deixa de cumprir sua função. O próprio professor reconhece que o critério não é ideal e ainda não encontrou alternativa melhor.
Sua preocupação vai além das notas. Após um anúncio da OpenAI sobre agentes que avançaram em um dos problemas abertos mais antigos da matemática, as equações de Navier-Stokes, ele afirmou que talvez não reste tarefa em que matemáticos superem a máquina. Há cinco anos via a área como pouco vulnerável; hoje não sabe o que recomendar a seus alunos. Até o ChatGPT, segundo ele, admitiu não saber o que aconteceria.
Borcherds também aponta a inércia das instituições. Espera que o ensino e a avaliação nos departamentos de matemática mudem pouco nos próximos anos, comparando a situação a jornais impressos que seguem circulando mesmo após perder relevância.
Em Berkeley, cada docente define as regras de IA em seu plano de ensino, e a universidade mantém uma base de exemplos para consulta. Ferramentas de detecção ainda não são confiáveis o bastante. Nenhuma dessas orientações, porém, responde à pergunta central: se a IA produz respostas corretas, como saber o quanto o aluno realmente entende?
Na Universidade da Califórnia, em Berkeley, um professor de matemática deixou de conferir se as respostas dos deveres de casa estão certas ou erradas. Richard Borcherds, ganhador da Medalha Fields, uma das honrarias mais prestigiosas da matemática, agora dá nota apenas pela entrega do trabalho.
A decisão veio depois que ele notou um número crescente de alunos usando inteligência artificial para tirar notas altas. Para Borcherds, os métodos tradicionais de avaliação perderam o sentido num cenário em que a IA é uma ferramenta amplamente acessível aos estudantes. Se os alunos conseguem resolver os problemas com ela e obter, de forma consistente, a nota máxima, pagar auxiliares para verificar a precisão de cada solução deixa de cumprir sua função original.
O próprio professor admite que o critério atual está longe do ideal. Ele ainda não encontrou uma alternativa adequada.
As preocupações de Borcherds vão além das notas. Ele alerta que, se a IA continuar avançando no ritmo atual, em breve talvez não reste nenhuma tarefa que os matemáticos façam melhor do que ela. A observação surge após um anúncio da OpenAI sobre agentes de IA que parecem ter avançado em um dos problemas mais antigos e ainda em aberto da área: a existência e a suavidade das soluções das equações de Navier-Stokes.
Há cinco anos, ele via a matemática como uma das profissões menos sujeitas ao impacto da IA. Hoje, diz já não saber se deve aconselhar alunos a seguir essa carreira. "Não sei o que aconselhar. Cheguei a fazer essa mesma pergunta ao ChatGPT, e até ele respondeu que não sabia o que aconteceria", relatou.
Ao mesmo tempo, Borcherds sugere que o sistema acadêmico tem muita inércia. Mesmo com a IA evoluindo, ele não se surpreenderia se o ensino e a avaliação nos departamentos de matemática ficassem praticamente iguais nos próximos anos. Compara a situação aos periódicos impressos, que continuam sendo publicados, embora, na visão dele, tenham perdido a relevância há duas décadas. Cita também o tear mecânico, que substituiu a tecelagem manual, e o automóvel, que aos poucos deslocou o cavalo. Ainda assim, argumenta que a matemática enfrenta hoje uma situação sem precedentes.
O caso de Borcherds reflete um problema maior das universidades: como medir a competência dos estudantes quando a IA pode ajudar nas tarefas. Em Berkeley, espera-se que os docentes deixem claras, nos planos de ensino, as expectativas da disciplina, inclusive as políticas sobre ferramentas de IA. Segundo Anne Marie Richard, vice-reitora assistente para a graduação e diretora de tecnologia acadêmica, as regras específicas ficam a critério de cada docente e variam conforme o nível da disciplina e a área de estudo.
A universidade também testou ferramentas de detecção de conteúdo gerado por IA, como Turnitin e Rumi, mas elas ainda não se mostraram confiáveis o bastante para uso consistente em todo o campus. Berkeley mantém uma base de dados com exemplos de políticas de uso de IA para consulta dos professores. Essas orientações, porém, não respondem à pergunta que Borcherds enfrenta: se a IA gera soluções corretas, como saber o quanto o aluno realmente entende de matemática?
Por ora, a resposta dele é avaliar só a conclusão da tarefa, solução que ele mesmo reconhece como imperfeita.
Bemerkenswerte Zitate
Não sei o que aconselhar. Cheguei a fazer essa mesma pergunta ao ChatGPT, e até ele respondeu que não sabia o que aconteceria.— Richard Borcherds, professor de matemática em Berkeley