Em um mundo cada vez mais mediado por telas e pela lógica da otimização, a psicoterapeuta belga Esther Perel observa que os novos cativeiros dos relacionamentos não são a rotina ou os filhos, mas a ausência de presença — dois corpos no mesmo cômodo, cada um perdido em seu próprio ecrã. Após duas décadas estudando o desejo e a intimidade, ela aponta que tratamos a nós mesmos e ao outro como produtos a aperfeiçoar, colhendo como fruto não a plenitude, mas a solidão. A saída, diz ela, não está no autoaperfeiçoamento individual, mas no retorno ao corpo, ao coletivo e ao risco de verdadeiramente am
Produtividade e telas são os novos cativeiros dos relacionamentos, diz Esther Perel
Segurança sem vitalidade é outra forma de restrição
Quando você diz que a presença ausente é a maior violência nas relações, está falando de algo que a maioria das pessoas vive todos os dias, certo?
Exatamente. É tão normalizado que ninguém chama de violência. Mas é. Você está ali, o outro está ali, e vocês estão sozinhos juntos. Isso corrói o vínculo de um jeito que é difícil de nomear porque não há grito, não há briga. Há apenas erosão.
E a sua pesquisa com brasileiros mostrou isso de forma clara?
Sim. Mas o que me surpreendeu foi descobrir que as pessoas sofrem exatamente por essa falta de presença. Elas sabem que algo está errado. Sabem que se tornaram microempresas funcionais uma para a outra. Mas não sabem como sair disso.
Porque a solução que você propõe—fazer coisas juntos em vez de conversar—parece simples demais.
Não é simples. É contraintuitiva. Porque a gente foi ensinado a acreditar que intimidade é conversa, é revelação, é falar sobre sentimentos. Mas a verdade é que você se sente vivo quando está fazendo algo com alguém. Quando há risco, quando há corpo, quando há atenção genuína.
Você mencionou que o Brasil tinha algo único—um jeito lúdico de processar a vida. Como se perde isso?
Quando você começa a medir tudo. Quando a produtividade vira a lógica de tudo, inclusive do amor. Quando você precisa ser impecável, não consegue brincar. Não consegue ser parcial, incompleto, em processo. E é exatamente isso que nos faz humanos e vivos.
The Pulse
- A lógica da produtividade invadiu os afetos: parceiros tornaram-se microempresas funcionais — eficientes, organizados e profundamente vazios.
- Uma pesquisa com mais de mil brasileiros revelou que a maior violência nas relações é a presença ausente: dois corpos no mesmo cômodo, cada um no celular, sem se tocar nem se ver.
- O Brasil, que já teve um dos vocabulários mais ricos para a vida interior — a saudade, o ficar, o Carnaval —, agora adoece como as sociedades mais puritanas e atomizadas do mundo.
- Quanto mais nos aprimoramos individualmente, mais inseguros nos sentimos: o medo de não ser suficiente é filho do hiperindividualismo que transforma pessoas em produtos à espera de aprovação.
- A saída apontada por Perel é contraintuitiva — não uma conversa melhor a dois, mas experiências coletivas que devolvam o corpo, os sentidos e o risco ao cotidiano dos relacionamentos.
Em um mundo cada vez mais mediado por telas e pela lógica da otimização, a psicoterapeuta belga Esther Perel observa que os novos cativeiros dos relacionamentos não são a rotina ou os filhos, mas a ausência de presença — dois corpos no mesmo cômodo, cada um perdido em seu próprio ecrã. Após duas décadas estudando o desejo e a intimidade, ela aponta que tratamos a nós mesmos e ao outro como produtos a aperfeiçoar, colhendo como fruto não a plenitude, mas a solidão. A saída, diz ela, não está no autoaperfeiçoamento individual, mas no retorno ao corpo, ao coletivo e ao risco de verdadeiramente amar.
Esther Perel, psicoterapeuta belga radicada em Nova York, retorna ao debate sobre relacionamentos vinte anos depois de 'Sexo no Cativeiro' com um diagnóstico mais sombrio: o mundo não melhorou, ficou mais preso. Se em 2006 a pergunta era como sustentar o desejo diante da rotina, hoje o verbo mudou — é preciso acender e reacender aquilo que deveria ser naturalmente vivo. Os novos cativeiros são a vida mediada por telas, sem toque, sem atrito, sem alteridade.
Uma pesquisa conduzida por ela com mais de mil brasileiros nomeou o que chama de maior violência nas relações: a presença ausente. Dois corpos no mesmo cômodo, cada um no celular, sem se ver. Parceiros tornaram-se microempresas funcionais — produtivos e vazios. A psicóloga Pauline Boss tem um nome para esse luto silencioso: perda ambígua.
Perel insiste que a reconstrução da intimidade passa, de forma contraintuitiva, pela vida coletiva. Não basta marcar um jantar para conversar — é preciso fazer junto. Uma aula, um esporte, uma exposição. Experiências que devolvam o corpo, os sentidos e a história compartilhada. Porque perdemos profundidade no íntimo justamente quando atrofiamos o coletivo.
No centro de tudo está a lógica da produtividade, que contaminou até os afetos. Medimos o sono, a glicose, os sentimentos — e tentamos resolver com autocuidado um problema que é social. O resultado é mais solidão e um medo novo: o de não ser suficiente. Uma conta que nunca fecha, porque o hiperindividualismo transforma cada pessoa em um produto que precisa se aperfeiçoar para ser 'comprado'.
O Brasil, que já teve um dos vocabulários mais ricos para a vida interior — a saudade, o ficar, as fantasias do Carnaval —, agora adoece como as sociedades mais atomizadas. A ansiedade cresce, e não é um defeito individual: é a resposta emocional a um mundo instável, acelerado, sem chão comum. Perel chama esse momento de metacrise — crises que se sobrepõem e se retroalimentam.
Seu conselho ao Brasil é voltar a brincar. Fazer as pazes com o risco, com a imperfeição, com as muitas versões de si mesmo. Amar não é um estado permanente de entusiasmo — é uma prática. É se machucar, ser adorado, ter o coração partido. E é exatamente isso que está faltando.
Esther Perel, aos 68 anos, senta-se para conversa vinte anos depois de publicar "Sexo no Cativeiro", o livro que a consolidou como uma das maiores especialistas em relacionamentos modernos. A psicoterapeuta belga radicada em Nova York não fala de um mundo melhorado. Fala de um mundo mais preso.
Quando lançou seu livro em 2006, a pergunta era como o desejo sobrevive à vida doméstica, aos filhos, à rotina. O verbo era "sustentar". Hoje, diz ela, o verbo mudou para "acender e reacender"—manter desperto, vivo, pulsante aquilo que deveria ser naturalmente vivo. Os cativeiros contemporâneos não são mais os que ela descreveu então. São outros: uma vida cada vez mais produtiva e desencarnada, mediada por telas, sem toque. A paisagem digital vem achatando nossa fisicalidade, atrofiando os sentidos, inibindo nossa habilidade de lidar com o diferente. Falta atrito. Falta alteridade.
Uma pesquisa que Perel conduziu com mais de mil brasileiros revelou algo que ela chama de a maior violência nas relações: a presença ausente. Dois corpos no mesmo cômodo. Cada um no seu celular. Sem se tocar. Sem se ver. Parceiros tornaram-se, em suas palavras, microempresas funcionais—eficientes, produtivas, vazias. A psicóloga Pauline Boss tem um nome para isso: perda ambígua. Um luto contínuo ao perceber que o outro está fisicamente presente, mas ausente.
O problema, porém, não é apenas o casal. Perel insiste que a saída passa por algo contraintuitivo: a reconstrução da vida íntima passa pela vida coletiva. Vivemos um momento de atrofia social. Diminuímos contextos de contato e perdemos profundidade no íntimo e no coletivo. Sem profundidade, perdemos a presença. E é a presença que nos faz sentir vivos. A solução não é conversar melhor, não é marcar um jantar para falar. É fazer junto. Uma aula, um esporte, uma exposição, um show. Experiências compartilhadas que tragam de volta o corpo, os sentidos, a ação, a história, o ritual.
Mas há algo mais profundo acontecendo. Perel aponta uma lógica que contaminou tudo: a lógica da produtividade. Tratamos a nós mesmos e ao outro como produtos a otimizar. Medimos o sono, a glicose, a produtividade, até os afetos. Tentamos resolver com autocuidado um problema que é social e coletivo. O resultado é mais solidão, mais insegurança. E um medo que ela identifica como recente: o medo de não ser suficiente. Uma conta que nunca fecha. Quanto mais me aprimoro, menos suficiente me sinto. Por quê? Porque esse "não ser suficiente" é filho do hiperindividualismo, em que cada um é um produto que precisa se aperfeiçoar para ser "comprado".
O Brasil, observa Perel com certa surpresa, era uma das sociedades mais relacionais que existiram. Tinha um vocabulário único para a vida interior: a saudade, o "ficar", as fantasias do Carnaval. Estados que não eram patologizados, que faziam parte da cultura. Cresceu ouvindo música brasileira porque havia um jeito lúdico de processar a vida. Agora vê o país adoecer como as sociedades mais puritanas e atomizadas. Vê pessoas tentando ser impecáveis, incapazes de aceitar a imperfeição e a bagunça do outro. Vê a ansiedade crescer—o Brasil é, segundo a OMS, o povo mais ansioso do mundo.
Mas a ansiedade não é um defeito individual. É a resposta emocional a um mundo que ficou instável, acelerado, sem chão comum. Vivemos o que se chama de metacrise: crises que se sobrepõem e se retroalimentam. Instabilidade econômica, emergência climática, enxurrada de informação, desconfiança nas instituições. Diante disso, tentamos recuperar segurança medindo e otimizando cada canto da vida. Quanto mais medimos, mais inseguros ficamos, porque transformamos os vínculos—imprevisíveis por natureza—em métricas a controlar. A lógica do mundo é que está adoecida. E não há autoaperfeiçoamento que cure aquilo que só se resolve no vínculo e na mudança das dinâmicas sociais.
O conselho de Perel ao Brasil é voltar a brincar. Fazer as pazes com o risco, com a parcialidade, com as experiências e com as muitas versões de si mesmo. Porque amar não é um jogo perdido. É um risco, não um estado permanente de entusiasmo. É uma prática. É se machucar, ser adorado, sentir uma profundidade nova, ter o coração partido. E é disso que sentimos falta: brincar nas relações.
Notable Quotes
A qualidade das nossas relações determina a qualidade das nossas vidas— Esther Perel
Confiar é conseguir viver com o que você não sabe— Esther Perel